Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.07.2011 10.07.2011

Autor de romances policiais, James Ellroy faz mesa performática na Flip

Por Marina Fidalgo
 
A leitura de um emocionante trecho da autobiografia do escritor americano James Ellroy sobre o impacto que a morte de sua mãe – assassinada em 1958 – teve em sua vida, abriu a mesa Lugares Escuros, no penúltimo dia da Flip.
Porém o tom dramático da introdução, feita pelo mediador Arthur Dapieve, sobre esse autor de gênero policial, especialista em romance noir, se dispersou quando Ellroy entrou no palco. Vestindo seu tradicional figurino em Paraty – uma excêntrica camisa florida – ele fez sua apresentação em tom efusivo e performático.
Com declarações polêmicas e à vontade no uso de palavrões, Ellroy iniciou dizendo que é louco por poder, por isso escreve livros com tantas páginas. Se fosse um compositor, seria Beethoven, e se fosse um líder religioso, seria Deus. A platéia já sente aí que humildade não será o forte do autor, que faz esse tipo de declaração em um tom irônico.
O compositor alemão, alias, volta em várias citações de Ellroy, grande admirador de música clássica. Ele considera Beethoven um modelo de superação e uma grande inspiração. Entre os brasileiros, citou positivamente Heitor Villa Lobos.
No mundo literário, o romance "Libra", de Don DeLillo, o inspirou de alguma maneira a criar seu estilo literário. No mundo real, o brutal assassinato da jovem  Elizabeth Short  na década de 1940 o lembrou do crime sem solução de sua mãe. "Eu o usei para expressar todo o horror e luto que não consegui expressar na morte de minha mãe" , sobre o caso de homicídio não solucionado mais famoso dos EUA, que o moveu a escrever "Dália Negra".
Este livro e "Los Angeles:Cidade Proibida" ganharam adaptações para o cinema. Sobre elas, Ellroy é direto.
"Dinheiro é uma dádiva que ninguém devolve. Fui bem remunerado na minha carreira, e ninguém me obrigou a nada. É contra meus princípios criticar um filme ruim feito a partir de um livro meu. Mas alguns filmes, como "Los Angeles: Cidade Proibida", você quer ver, e outros, como "Dália Negra", você quer fugir".
O autor, que diz escrever originalmente seus extensos romances à mão, com canetas pretas e vermelhas, lançou na Flip seu mais recente livro, Sangue Errante (Record) – o último de uma trilogia. Ele diz que não obtém dos dias de hoje o entusiasmo para criar, e recorre ao passado para escrever seus romances.
Jornalista e escritor, Dapieve, disse ao SaraivaConteúdo que Ellroy levou adiante alguns elementos que já estavam presentes nos autores policiais anteriores a ele, como a concisão e a contundência na linguagem.
"Uma vez eu li um resenhista dizer que as frases dele dão a sensação que tem alguém batendo com o dedo no seu peito – um pouco como é a própria performance dele. Ele radicalizou isso, disse que em determinado ponto ficou quase incompreensível, porque ficou tão telegráfico que não dava para entender. Mas agora acho que ele assentou o estilo, está mais seguro e ambicioso. Quer fazer coisas cada vez mais incríveis. O próximo projeto dele – uma tetralogia – é passada em uma época que ele não domina, a década de 1940. Acho que em termos de estilo não haverá grandes variações, mas com relação a contundência e eloqüência ao falar do tempo, ele ainda tem muito a dizer", analisa.
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