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Autor de ‘Dentes Negros’, André de Leones é um dos convidados da FLIP 2012

 
ESPECIAL
 
Por André Bernardo
 
Foi por incentivo de um amigo, o escritor Aldair Aires, já falecido, que o então professor de Química André de Leones resolveu se inscrever no Prêmio SESC de Literatura, em 2005. Na ocasião, ele não levava muita fé que pudesse ganhar, mas, mesmo assim, decidiu transformar o antigo esboço de um roteiro em romance e inscrevê-lo no concurso.
 
Meses depois, ao receber um telefonema dizendo que seu romance, Hoje Está Um Dia Morto, havia sido o escolhido por uma comissão – formada por Moacyr Scliar e Luiz Antônio de Assis Brasil, entre outros –, decretou: daquele dia em diante, viveria de literatura. “Consegui isso, ainda que, para sobreviver, precise escrever outras coisas além de livros, como resenhas literárias e críticas de cinema”, pondera esse goianiense de apenas 32 anos e 4 livros já publicados.
Se estivesse vivo, Aldair, certamente, estaria orgulhoso do caminho percorrido por André. Já no ano seguinte à premiação, Hoje Está Um Dia Morto foi lançado pela Record. Pela mesma editora, André de Leones publicou, ainda, Paz na Terra Entre os Monstros, de contos.
 
Em 2010, fechou com a Rocco, onde lançou mais dois títulos: Como Desaparecer Completamente, daquele mesmo ano, e Dentes Negros, de 2011. No momento, se prepara para participar da 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). No dia 5, divide a mesa Escritas da Finitude, com Altair Martins e Carlos de Brito e Mello. Em seguida, retoma seu quarto romance, Terra de Casas Vazias, que tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2013. “É sobre sentir-se estrangeiro dentro de si mesmo”, sintetiza.
Em apenas seis anos, você ganhou o Prêmio SESC de Literatura, escreveu quatro livros, teve contos incluídos em algumas antologias e, agora, é convidado a participar da FLIP 2012. Tudo aconteceu conforme planejado? Ou você nunca teve ideia do rumo que sua carreira iria tomar?
André. Eu não planejei nada. Ou, melhor dizendo, quando venci o Prêmio SESC, planejei que tentaria viver da escrita. Consegui isso, ainda que, para sobreviver, precise escrever outras coisas além de livros, como resenhas literárias, artigos, críticas de cinema. Mas, para mim, o importante é isso: viver da escrita. Logo, sim, posso dizer que tudo está correndo conforme o planejado.
 
Como e quando um professor de Química começou a se interessar por Literatura?
 
André. Eu me interessei por literatura antes disso. Lembro de, aos quinze anos, ler O Aleph, de Jorge Luis Borges, e The Ghost Writer, de Philip Roth. Acho que foram os primeiros livros que me impressionaram. Antes, lia muitos quadrinhos e via filmes a rodo (ainda vejo!). A comichão para inventar as minhas histórias existe desde moleque, quando rabiscava minhas próprias histórias em quadrinhos. Depois, antes de lecionar, trabalhando em Brasília, numa empresa de TV por assinatura, rascunhei meus primeiros contos, alguns roteiros de curtas e uma novela. Acabaria jogando tudo isso fora, mas a vontade de escrever já tinha tomado conta de mim, por assim dizer.
 
O escritor americano Thomas Pynchon, de O Arco-Íris da Gravidade, continua a ser o seu favorito? Por quê?
André. Pynchon é um dos meus escritores prediletos. A lição mais importante que aprendi com ele é a de que eu posso me servir da tradição como bem entender. Homero, Petrônio, Shakespeare, Goethe, Sterne, todos estão aí, flutuando ao meu redor, e eu posso conhecê-los, visitá-los e revisitá-los. Você toca a vida com a literatura, mas suas ferramentas estão na própria literatura. Joyce também me mostrou isso.
 
Seu romance de estreia, Hoje Está Um Dia Morto, foi concebido originalmente como roteiro de cinema. Gostaria de, um dia, adaptá-lo para as telas? Dos livros que escreveu, qual deles daria o melhor longa-metragem?
André. Sim, gostaria muito. Um cineasta goiano chegou a fazer um projeto nesse sentido, mas a coisa nunca saiu do papel. Uma pena. Acho que, de todos os meus livros, Dentes Negros renderia o melhor filme.
 
O professor de Química, André de Leones
 
Há muito tempo, você mantém um blog, o “Perdiídiche”. Qual é a finalidade (ou importância) dele dentro de sua produção literária? Já pensou em, um dia, transformar seus “posts” em crônicas e reuni-las em livro?
André. O blog é um espaço livre onde escrevo sobre os livros que leio, os filmes a que assisto e o que mais me ocorrer. Também posto trechos dos meus livros, e a ideia é, assim, divulgar um pouco do meu trabalho, chamar a atenção para ele. Não tenho a intenção de publicar um livro com meus posts. Eles nasceram como posts e estão bem lá no blog.
Antes mesmo de inscrever Hoje Está Um Dia Morto no Prêmio SESC de Literatura, você já havia reunido alguns contos em Desde Pequenos Nós Comemos Silêncios. Você pretende publicar essa coletânea algum dia?
André. Desde Pequenos Nós Comemos Silêncios transformou-se em Paz na Terra Entre os Monstros, meu segundo livro. Alguns contos saíram, outros entraram, mas, em essência, é o mesmo livro. A importância dos contos que estão ali é que, por meio deles, encontrei o caminho para o meu primeiro romance, Hoje Está Um Dia Morto.
Você já se classificou, algumas vezes, como um sujeito “pessimista”, que carrega uma “tristeza ancestral” em seu DNA. Você ainda se vê assim? A que atribui isso?
 
André. Sei que, em meu DNA, não há o gene da fé (se é que tal coisa existe). Assim, não enxergo um princípio ordenador em tudo o que há, uma lógica intrínseca e extrínseca à existência. Somos arremessados para a existência e, depois, mais cedo ou mais tarde, arremessados dela. Do nada para o nada. Assim, na medida em que tudo passa muito rápido, o melhor é encontrar algo de que se goste para fazer enquanto não nos esfarelamos. Eu encontrei a leitura e a escrita. É o meu trabalho que me sustenta, que me mantém e manterá de pé enquanto minhas pernas aguentarem. Minha única pretensão é de que os meus livros fiquem um pouco mais. Seria legal que meus escritos permanecessem por um tempo, depois que eu já não estiver aqui. Por uns cinco ou dez minutos que sejam.
 
 
ESPECIAL
 
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