Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.06.2013 14.06.2013

Augusto Cury: “Não gostaria de deixar um legado de escritor respeitado, mas de um ser apaixonado pela humanidade”

Por Carolina Cunha 
Ele acredita que a mente é um cofre, só que algumas pessoas têm as chaves erradas. O psiquiatra Augusto Cury acaba de lançar Armadilhas da Mente, um romance psiquiátrico que fala da construção dos pensamentos como um caminho para a superação.
A protagonista é Camille, intelectual que se destaca pela capacidade de argumentar e refletir sobre o mundo, mas que se torna vítima de suas emoções. Quem pode ter as respostas que ela procura é o psiquiatra Marco Polo, personagem de livros anteriores de Cury e que volta à cena.
A partir da teoria da Inteligência Multifocal desenvolvida por Cury, o leitor acompanha a batalha de Camille para superar seu passado.
 
Como surgiu a ideia de criar Camille, a protagonista do livro?
Augusto Cury. Camille é uma composição de alguns pacientes que atendi como psiquiatra e psicoterapeuta. Eu fiz mais de 20 mil consultas e sessões de terapia e conheci pessoas que eram muito próximas ao que ela é. Pessoas que não eram compreendidas e até ameaçam intelectualmente os profissionais de saúde mental porque eram superinteligentes, críticas e dramaticamente pessimistas.
Camille frequentou nove psiquiatras e exigia respostas exatas sobre como se curar. Quais cuidados o paciente deve ter em relação às expectativas com resultados numa terapia?
Augusto Cury. A terapia pode ser fundamental para ajudar um paciente a ser autor da sua própria história. Mas o terapeuta jamais deve controlar o paciente ou se colocar como dono da verdade. Caso contrário, ele asfixia a liberdade, a criatividade e a capacidade de superação dos pacientes. Por outro lado, todo paciente tem suas expectativas, deseja uma solução rápida. Mas o processo nunca é cirúrgico ou miraculoso. Penso que uma nova agenda deve ser construída na terapia, onde janelas que estão trancadas no córtex cerebral possam se abrir e dar subsídios para o desenvolvimento de funções da inteligência que vão ajudar o paciente a superar seus problemas.
Quais são essas funções? 
Augusto Cury. O paciente precisa racionalizar o pensamento, mas também proteger a emoção. Primeiro, aprender a pensar. Segundo, aprender a se colocar no lugar do outro. Terceiro, não ter a necessidade neurótica de cobrar dos outros nem efetivamente de si. Quarto: não ter a necessidade neurótica de estar sempre certo. E quinto: não ter a necessidade de querer mudar o outro.
 
Augusto Cury
O livro diz que devemos equilibrar o pensar e o sentir. Qual é o problema dessa falta de equilíbrio?
Augusto Cury. Camille, como quase todos os seres humanos, sofre por antecipação. Deixar o pensamento solto a tal ponto é muito grave. Tudo isso é registrado no cérebro, formando janelas traumáticas que atrapalham ações futuras. Temos que exercitar o prazer de viver.
O livro cita muitos filósofos. Quais pensadores você gosta de ler?
Augusto Cury. Gosto do Sócrates, que sempre exercia a arte da dúvida. As pessoas o criticavam porque ele perguntava muito e não respondia nada. Mas a arte da dúvida é muito importante na psicologia e na terapia e ainda é uma ferramenta muito pouco usada. Leio Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer. Gosto do Auguste Comte e aprecio muito o Jean-Paul Sartre, embora eu tenha críticas a ele.
Em que sentido a filosofia pode apoiar a psicologia?
Augusto Cury. Recentemente, em uma conferência nos EUA, abordei que a arte da dúvida é fundamental em todos os processos. Tudo em que você crê pode te controlar. Se você acredita que é um doente ou não vai superar uma fobia, esse pensamento pode se tornar a sua masmorra. Como desfazer a falsa experiência? Através da arte da dúvida. Se eu me pergunto o porquê das coisas, a partir da dúvida posso “reeditar” a memória. Amo filosofia. A minha teoria é psicológica, psiquiátrica, educacional e também filosófica. Nesse sentido, desenvolvi uma teoria filosófica sobre a formação de pensamentos.
Falando em Sartre, Marco Polo acredita que ser livre é uma conquista e que existem milhões de pessoas vivendo em sociedades livres, mas “encarceradas em seus pensamentos”. Essa liberdade total é possível?
Augusto Cury. No livro, eu faço uma critica ao existencialismo e questiono o que é liberdade. Jean-Paul Sartre crê que o ser humano está condenado a ser livre. Será que de fato somos livres para pensar o que queremos? Só pude escrever esse livro por causa da teoria da inteligência multifocal. O pensamento é um sistema de conceitos e discursos sobre determinado universo. A mente tem uma série de armadilhas que eu chamo de “janelas killer”. São armadilhas virtuais, e não reais. Sim, nós somos livres, mas se existe uma janela killer, não somos livres como acreditamos. Mas a liberdade pode ser conquistada pela maturidade emocional e intelectual.
Que legado você pretende deixar com os seus romances?
Augusto Cury. Sou apaixonado pela humanidade. Para mim, a vida é breve. Logo estarei na solidão de um túmulo como qualquer mortal. Não gostaria de deixar um legado de um escritor ou intelectual respeitado, mas sim de um ser apaixonado pela humanidade. Alguém que tentou estimular o altruísmo, o pensamento crítico e a capacidade de proteger e gerenciar a emoção e os pensamentos, para que possamos ser uma espécie mais saudável e generosa.
 
 
 
 
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