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Assis Brasil: “Se algo de mim ficar nesse trânsito existencial, será minha literatura”

Por Sarah Corrêa
 
Secretário de Cultura do Rio Grande do Sul, professor Universitário há 37 anos, escritor e crítico. Entre tantas tarefas, Luiz Antonio de Assis Brasil se expressa mesmo é por meio da literatura. Aliás, foi ela a responsável por dar a ele o espaço para evadir suas motivações existenciais.
“A literatura veio preencher a necessidade de expressão individual, que eu considerava limitada na orquestra”, diz o escritor, lembrando da época em que era violoncelista na OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), onde ficou por 15 anos. Segundo ele, abandonou por “não ter competência suficiente”.
 
A produção literária do escritor gaúcho, que chega ao seu 20º livro, dialoga, mais uma vez, com a construção da personagem. Figura na Sombra, quarto volume da série Visitantes ao Sul, conta a trajetória antagônica e paradoxal de dois homens à sombra da história: Aimé Bonpland e Alexander Von Humboldt, importantes naturalistas do século XIX.
 
O interesse e a paixão pela cultura de sua geografia, os pampas, e a curiosa perseguição por personagens que ali passaram ou viveram continuam centrais na produção de Assis.
 
Na entrevista a seguir, Assis fala sobre a importância da excelência ao construir uma personagem e se dedicar a uma escrita bem apurada.
 
Seu primeiro trabalho saiu em meados da década de 70. Um Quarto de Légua em Quadro pode ser considerado um retrato histórico em romance? Sendo um acadêmico, você enxerga a evolução da sua obra com tendência mais forte para o romance ou para a pesquisa histórica?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Não sei foi retrato histórico em romance; talvez fosse mais adequado, do ponto de vista literário, considerá-lo um romance. Não tenho vocação para a História – isso deixo para quem entende, os historiadores. Aliás, alguns historiadores abominam minhas obras. Um deles me disse que meus livros deveriam ser proibidos, por distorcerem a verdade histórica e instalarem a confusão nos leitores. Claro, fiquei honradíssimo com esse anátema.
 
Foram onze anos entre O Pintor de Retratos e Figura na Sombra, ambos volumes da série Visitantes ao Sul. O primeiro volume já nasceu para ser uma fatia dessa grande história contada em quatro livros ou a ideia de escrever outros livros surgiu nesse espaço de tempo?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. É uma excelente questão, ninguém ainda me perguntara isso. E respondo: foi depois de concluir O Pintor de Retratos e ao iniciar A Margem Imóvel do Rio que me dei conta de que começava uma trilha que, se não era totalmente nova na minha literatura, não tinha a intensidade obtida em O Pintor de Retratos.
 
Aimé Bonpland, assim como Alexander von Humboldt, é uma figura na sombra da história. Como é o processo de recriar personagens tão ricos e trazê-los à luz por meio da literatura?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Minha questão teórica, que sempre coloquei aos meus alunos de criação literária, é: é possível que uma boa história resulte sempre num bom romance? A resposta, construída com os alunos, é: não. Se não tivermos previamente criado uma grande personagem, a história vai fracassar. Uma personagem não é um boneco de papelão – como aqueles das farmácias – que levamos para viver um episódio atrás do outro. Só escritores amadores pensam que os episódios darão consistência à personagem; é tudo ao contrário: os episódios surgem das personagens e as personagens é que darão sentido a esses episódios.
 
Após fechar o quarteto de Visitantes ao Sul, já fervilha a ideia para mais uma narrativa composta como essa?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Pela primeira vez, estou vazio de ideias. Ou melhor: tenho várias, mas nenhuma me empolga a ponto de começar a escrever um novo romance. E não gosto nada disso.
 
Após a sua saída da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a literatura substituiu seu amor pela música?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Isso mesmo: eu não tinha competência para ser músico de orquestra. Muito menos para ser um solista. Assim, a literatura veio preencher a necessidade de expressão individual, que eu considerava limitada na orquestra.
 
Você tem aproximadamente 20 livros lançados, que percorrem dados históricos com uma atenção especial à sua região, o Rio Grande do Sul. Mas parece ser mais do que uma questão de afinidade, certo?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Eu trato do Rio Grande do Sul porque não teria razões suficientes para tratar do Amapá, por exemplo. Mas é isso mesmo: sou um homem do Sul, mas, ao contrário de outros do Sul, me interessa mais ser verdadeiro do que laudatório. É vendo nossas deformações coletivas que me aventuro à construção de um quadro social mais humano – e a humanidade, como se sabe, é feita de vícios e virtudes.
 
O Rio Grande do Sul é um celeiro de escritores. Temos Moacyr Scliar, Veríssimo, você, o Altair Martins, o Carpinejar, a Veronica Stigger… Todos têm um detalhe em comum: o meio acadêmico em suas trajetórias. Sendo assim, hoje, na literatura, não há mais espaço para estrelas que nascem do ‘autodidatismo’?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. É. O “autodidatismo” chegou ao fim do seu ciclo. Hoje querem escritoras e escritores competentes em seu ofício – mas, é claro, sem abdicar de sua genuinidade criativa. Só a técnica é que liberta o talento, como disse Maiakovski. 
 
Como secretário de cultura, como é deixar de lado a raiz literária e focar sua gestão em outras áreas da cultura?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Tenho grande vantagem em trabalhar com políticas culturais públicas: o Rio Grande do Sul tem um governador que “é do ramo”. Isso favorece um diálogo construtivo e de duas mãos, embora seja ele, naturalmente, quem decide. Usando meu tempo livre, pude seguir escrevendo; se algo de mim ficar nesse trânsito existencial, será minha literatura. Mas as outras áreas da cultura nunca me foram estranhas, pois tenho exercido crítica cultural em minha coluna quinzenal “jornalística”, e isso antes de ser convidado para assumir a pasta da Cultura.
 
O mercado editorial brasileiro está em crescimento, mas dados da última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram que 50% da população brasileira não se considera leitora. Como resolver essa equação? Como fomentar novos leitores?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Tudo passa pela educação – como sempre; mas também passa pela melhoria das condições de vida das pessoas. E essa melhoria está ocorrendo, de modo visível. Milhões de pessoas – para usar uma simplificação – passaram para a classe média. E é a classe média, preferentemente, a classe dos que leem. Sou otimista. Os níveis de leitura retomarão seu nível ascendente.
 
Na sua rotina de professor, quais são os maiores conflitos observados nos jovens que almejam ser escritores? Qual é seu principal conselho para eles?
 
Luiz Antonio de Assis Brasil. Que não tenham pressa. Como vivemos num mundo de céleres mudanças, alguns jovens acham que devem porque devem publicar, e logo, seu primeiro livro. Mas a literatura é carreira consistente, feita no decorrer do tempo. Mas depois que chegamos lá. Como diz Alejo Carpentier, o público nos acompanha em nossas maiores aventuras.
 
No entanto, ao lado da pressa, vejo surgir algo inédito: a busca da melhor forma. A linguagem foi negligenciada pela maioria dos escritores brasileiros do século XX; não escreviam “mal”, mas poderiam ter escrito melhor. Hoje, porém, a linguagem está assumindo um papel preponderante. Tenho alunos de criação literária que podem ficar dias focados num único parágrafo. Bem, os resultados estão aí: um conjunto de escritores e escritoras que já obtém reconhecimento internacional.
 
 
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