Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.03.2014 28.03.2014

Aspectos da literatura baiana contemporânea aos olhos de seus autores

Por Zaqueu Fogaça

 
Da poética satírica de Gregório de Matos, passando pelos versos românticos de Castro Alves, até a prosa mundialmente conhecida de Jorge Amado, entre outros, a literatura baiana produziu alguns dos mais representativos escritores das letras do país.
 
E hoje, como andam as páginas locais? Para homenagear o aniversário da capital baiana, no dia 29 de março, e entender a sua produção literária contemporânea, o SaraivaConteúdo conversou com alguns poetas e prosadores locais e com a Professora Adjunta de Literatura da Universidade Estadual de Feira de Santana, Alana De Oliveira Freitas.
 
De acordo com Alana, a produção baiana hoje, tanto na prosa como na poesia, vive um bom momento. “De forma positiva e animadora, vivemos uma fase efervescente, com muitos escritores produzindo, publicando e buscando visibilidade”.
 
Para isso, o papel das universidades tem sido fundamental. “É significativo hoje o número de pesquisas, de dissertações e teses que estudam obras e autores baianos. E ainda as editoras das mesmas universidades que também conseguem publicar parte dessa produção”, diz.
 
O aumento no número de escritores e obras é, também, acompanhado pelas editoras que investem em seus escritores. “Hoje existe um crescimento significativo de editoras de qualidade no estado – Casarão do Verbo, P55 e Solisluna, entre outras –,que são estimuladas pela política estadual, por meio da Fundação Cultural do Estado da Bahia e Fundação Pedro Calmon”, destaca a professora.
 
Membro da Academia de Letras da Bahia, o escritor e ensaísta Aleilton Fonseca, autor, entre outros, de Nhô Guimarães (Bertrand Brasil), também assegura o bom momento das letras na capital: “A produção baiana hoje tem sido contínua e variada, tanto na prosa como na poesia, com o surgimento de autores e autoras que se firmam no panorama local”.
 
Da mesma opinião compartilha a também membro da Academia de Letras da Bahia e autora de obras infantis e adultas, entre elas, Marce (Solisluna), Gláucia Lemos, que vê com olhos alegres a renovação literária pela qual a cidade tem passado. “Tenho assistido o aparecimento de muitos escritores, que têm chegado trazendo o que dizer com autenticidade. É com alegria que afirmo que a literatura baiana vai muito bem, obrigada!”.
 
Para o autor de Elegia de Agosto e Outros Poemas (Bertrand Brasil), o poeta Ruy Espinheira Filho, hoje, sem dúvida há gente escrevendo bem. “De um modo geral, creio que a produção poética baiana melhorou, há mais atividades ligadas às letras, mais edições, mais interesse”. Mas ele também alerta: “Precisamos lutar por reedições daqueles que no passado foram muito bons e correm o risco de esquecimento”.
 
Dênisson Padilha e Myriam Fraga
 
A convivência entre diferentes gerações de autores, segundo o escritor e membro da Academia de Letras da Bahia Carlos Ribeiro, tem sido fundamental para a ficção local: “Isso naturalmente implica em uma grande diversidade temática, mas também de estilos e da própria concepção sobre o fazer literário. Hoje ocorrem referências cada vez mais frequentes a filmes, a nomes e personagens do cinema e da música pop, a exacerbação de estados psicóticos e do sexo em suas diversas facetas”, explica o autor de O Visitante Noturno.
 
Os pontos positivos da produção local, destaca o autor de Menelau e os Homens (Casarão do Verbo), Dênisson Padilha Filho, “são justamente a fragmentação discursiva e a diversidade estética. Curiosamente, o que mais garante uma possibilidade de êxito é a capacidade de surpreender que a atual literatura baiana tem. Porque não vende o ideário que está na expectativa da maioria”.
 
“Um dos destaques da literatura baiana é a naturalidade que o escritor local tem em contar suas histórias. Originalidade não falta ao seu autor: o poeta, embriagado pelo marulhar e pela maresia da Bahia, o contista, o cronista, que narra e descreve as situações do cotidiano, o romancista que cria e imagina histórias e [está] sempre atento às linguagens que surgem em cada beco”, diz o escritor Carlos Vilarinho, autor do recém-lançado romance Labirinto-Homem (Kalango).
 
Autora, entre outras obras, da coletânea poética Sesmaria, membro da Academia de Letras da Bahia e diretora executiva da Fundação Casa Jorge Amado, a poeta Myriam Fraga ressalta que “parte da literatura baiana é muito ligada ao modelo que se convencionou chamar de ‘baianidade’, a exemplo de Jorge Amado. Mas existe uma grande variedade de estilos e maneiras: a literatura do Sertão, a praieira e a que aborda temas universais”, analisa.
 
Integrante do movimento poético Grupo Hera, criado nos anos 70, o autor de Mirantes (7Letras), Roberval Pereyr, diz que a poética local “apresenta um vigor incomum. Vários poetas vivos pertencentes a gerações diferentes apresentam, naquilo que têm de melhor, uma obra consistente, madura e do mais alto nível”.
 
SALVADOR COMO INSPIRAÇÃO
 
Conhecida como a capital cultural do país, ora ou outra a cidade de Salvador é transportada para dentro das páginas locais ou serve como inspiração para os escritores.
 
É o que acontece com Lima Trindade, autor de Todo Sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial). “A cidade me influencia diretamente. Sou sensível não somente ao modo de vida do baiano, mas também aprecio a sua poesia, a sua cor, sua música e a intensidade do seu falar, o uso criativo do idioma”, afirma.
 
Capas de alguns dos títulos citados na matéria
 
Já para Aleilton, Salvador frequenta sua prosa na medida em que sua narrativa emerge da cultura, da fala, dos valores e do imaginário do povo do qual faz parte: “A cidade é cenário, é lugar de referências culturais e existenciais; a marca do lugar impregna a ficção e a poesia, inscrevendo-se nos sentidos dos poemas e dos textos, como confirmação, alegoria, representação e referencial”.
 
O mesmo acontece na prosa urbana de Carlos Vilarinho. “Não conseguiria escrever sem Salvador, pois faço parte da cidade, respiro em suas esquinas e nas suas ladeiras”, diz o escritor, que coloca a capital baiana como personagem de seu novo romance, Labirinto-Homem.
 
Segundo a poeta Myriam Fraga, a cidade de Salvador ocupa um espaço importante em sua poesia, como suas construções e atmosferas, mas de uma forma um tanto idealizada. “No livro Sesmaria, inicio um canto à cidade ‘nascida do mar’. Aliás, o livro é dedicado à cidade e à descrição da luta pela liberdade na guerra contra os holandeses no século XVII”, revela.
 
Para Mayrant Gallo, autor de Três Infâncias (Casarão do Verbo), a influência da cidade em sua obra se faz por meio do caos, tanto tipograficamente quanto em espírito. “Gosto de ambientar minhas histórias em Salvador, num arco que vai da cidade baixa à orla. Meus personagens estão sempre em trânsito, observando e sendo observados. Portanto, cenários reais comparecem aos meus textos, bem como cenários fictícios, tanto em Salvador quanto no estado”.
 
 
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