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As versões norte-americanas de séries de TV estrangeiras

Por Willians Glauber
 
O que o Reino Unido, Israel e a Austrália teriam em comum quando o assunto é produção de séries norte-americanas? Os seriados produzidos nesses três países estão ganhando cada vez mais versões em solo estadunidense.
 
O enredo de teorias de conspiração, terrorismo e suspense da série Homeland conquistou o público e a crítica. Wilfred e Shameless ganharam a audiência sedenta de um humor negro e que toca em pontos não muito abordados por outras produções. As três séries fazem sucesso nos canais a cabo nos Estados Unidos, mas nenhuma delas nasceu pelas mãos de roteiristas norte-americanos.
 
HOMELAND X HATUFIM
Homeland está em sua segunda temporada, e aqui no Brasil é possível acompanhá-la pelo canal FX. Bastante premiada, recebeu dois Globos de Ouro e seis Emmy. O homem por trás da trama é o israelense Gideon Raff, que morou durante 9 anos em Los Angeles, onde estudou no American Film Institute.
 
A ideia surgiu por conta das viagens de Raff a Israel durante sua estadia nos EUA. Sempre que ia e voltava, ele se sentia diferente, parecia que algo mudava nele e em seu país. Raff imaginou como deveria ser difícil a volta de soldados que ficam longe de Israel e, depois de um longo período, retornam para casa. Em entrevistas, Raff conta que os israelenses anseiam pela volta dos soldados, mas ninguém quer lidar com os dias depois desse retorno, com o trauma pós-guerra e a reintrodução deles na sociedade.
 
E esse é o ponto crucial do enredo de Hatufim, a série israelense que deu origem a Homeland. Hatufim (que nos EUA vai ao ar como Prisoners of War) estreou em Israel no ano de 2010 e ganhou o posto de drama de maior audiência de todos os tempos no país. Raff é quem roteiriza e dirige todos os episódios da produção israelense.
 
Hatufim traz à tona a história de três soldados israelenses que são capturados em solo inimigo, no Líbano. Eles ficam presos e, depois de 17 anos, são libertados. Mas só dois deles retornam para casa vivos, o terceiro chega a Israel num caixão. O enredo é um quebra-cabeça psicológico, que mostra a tentativa deles de reconstruírem suas vidas e a dificuldade enfrentada por suas famílias durante esse processo. Na versão norte-americana apenas, um soldado retorna da guerra e uma agente da CIA desconfia da lealdade do sobrevivente recém chegado aos EUA.
 
O papel que Claire Danes representa em Homeland é interpretado na trama original por um homem, um interrogador que encontra discrepâncias no testemunho dos soldados e passa a vigiá-los. “Uma adaptação não está presa ao original, pode preservar apenas sua essência e ainda ser transportada para qualquer tempo, cultura ou local”, explica Emílio Gallo, roteirista e diretor da Lumini Filmes. Muitos elementos de Homeland são idênticos aos de Hatufim, porém organizados de maneira diferente. 
 
Segundo o criador Raff, a audiência de Hatufim é mais interessada nos relacionamentos, na jornada emocional e nos segredos dos personagens. Já os expectadores de Homeland esperam por uma trama cheia de suspense, terrorismo, e querem ver as transformações de um herói de guerra.
 
No processo de adaptação da série, a presença de Raff é crucial: além de roteirista de Homeland, ele também é produtor executivo. “Quando você está adaptando uma obra, o cuidado é não alterar a essência dos personagens ou da trama, e você deve ter a sensibilidade de adaptar as distorções culturais”, reforça Gallo. Hatufim, assim como Homeland, está em sua segunda temporada.
 
As TVs israelenses só desenvolvem uma série depois de ler os roteiros da temporada completa. Além disso, toda a temporada é editada antes mesmo de o piloto ir ao ar. O baixo orçamento disponível exige dos roteiristas israelenses muito mais criatividade e roteiros com diálogos e enredos complexos. Para se ter ideia, o piloto de Homeland custou mais do que as duas temporadas de Hatufim juntas.  
 
SHAMELESS
O mesmo canal que produz Homeland nos EUA, o Showtime, também adapta outra série estrangeira: a comédia dramática britânica Shameless. A versão norte-americana pode ser assistida aqui no Brasil pelo canal ISAT.
 
A produção é inspirada na vida de seu criador, Paul Abbot, roteirista e produtor executivo da versão norte-americana. Abbot e seus nove irmãos foram deixados pela mãe e pelo pai quando ele tinha 11 anos. Assim, a irmã de 16 anos se viu obrigada a cuidar dos irmãos e a sustentá-los. Na ficção, Shameless conta a história da família Gallagher, na qual o patriarca Frank é abandonado pela mulher e precisa cuidar sozinho dos filhos.
 
Shameless na versão norte-americana (esquerda) e na versão britânica (direita)
 
Ele é desempregado, alcoólatra – até preso já foi – e não tem sucesso nas funções de pai. Toda a carga de responsabilidade fica nas costas da filha mais velha, Fiona, que trabalha e cuida dos irmãos. Isaque Criscuolo escreve reviews sobre Shameless para o site Série Maníacos e conta que a série é um exemplo de remake que deu muito certo na realidade norte-americana. “A proposta é mostrar uma família pobre de periferia que não tem pudores: roubam, trapaceiam e cometem uma série de pequenos delitos. A original tem muito menos pudor”, conta Criscuolo.
 
A série original estreou em 2004, no Reino Unido, e terá seus últimos episódios exibidos em 2013, completando um total de 11 temporadas. A versão dos EUA estreou em 2011 e se prepara para começar a terceira temporada em janeiro de 2013. “No fim das contas, se tornam dois produtos distintos e com qualidade no mesmo patamar. Uma não perde para a outra”, enfatiza Criscuolo. Shameless foi a melhor estreia do canal Showtime em 7 anos.
 
WILFRED NA AUSTRÁLIA E NOS ESTADOS UNIDOS
 
Todo mundo vê Wilfred como um cachorro normal, mas Ryan enxerga um homem numa roupa de cachorro – um ser rude, grosseiro, com certa coragem e bastante honesto. Wilfred é o cão da vizinha, que entra na vida de Ryan no momento em que ele está tentando se matar. Os dois se tornam companheiros, e o “cachorro” ajudará Ryan em suas questões existenciais, a superar seus medos e a entender melhor o mundo à sua volta. Esse é o enredo da série original australiana Wilfred, o mesmo que dá vida ao remake norte-americano, que pode ser assistido no canal FX.
 
Os criadores da produção são Adam Zwar e Jason Gann, que, além de roteirizar, protagonizaram as duas temporadas australianas. A história é inspirada em uma experiência de Zwar, quando ele conheceu uma garota dona de um cachorro bastante ciumento. A princípio, Wilfred nasceu como um curta-metragem e foi visto pela primeira vez no festival de curtas Tropfest, em 2002.
 
Imagem de divulgação da série Wilfred
Na TV australiana, a série estreou em 2007, com Jason Gann fazendo o papel do cachorro Wilfred. Na versão norte-americana, ele também dá vida ao cão, e Elijah Wood interpreta o personagem Ryan, o primeiro papel do ator na TV estadunidense.
 
O foco da série original é o cachorro e seus maneirismos tipicamente humanos. Já a versão norte-americana tem como mote a relação de Ryan e Wilfred. Na Austrália, a comédia teve duas temporadas, e nos Estados Unidos ela retorna em junho de 2013, em seu terceiro ano.
 
 
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