Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 24.07.2012 24.07.2012

As três décadas e as muitas versões de ‘Blade Runner’

Por Thaís Ferreira
A cidade de Los Angeles é retratada de uma forma sombria – o sol quase não aparece e quando surge não ilumina. Altos prédios que exalam chamas nas pontas e “spinners” (carros voadores) sobrevoam os céus em meio a outdoors gigantes.
Esse é o cenário de um dos clássicos do cinema do século XX: Blade Runner – O Caçador de Androides que completa 30 anos de lançamento.
O filme se passa em 2019 e mostra um destino pessimista para os homens. O planeta se tornou um lugar com grandes problemas de habitação e a solução foi criar colônias espaciais.
Nesse contexto, foram criados os replicantes, robôs extremamente perfeitos que não podem ser distinguidos dos seres humanos. Eles são usados em trabalhos de risco nas bases interplanetárias e não podem habitar a Terra.
Um grupo decide romper essa proibição e o detetive Rick Deckard (Harrison Ford) é chamado para “aposentar” (termo usado no filme que, na prática, significa a destruição dessas máquinas) esses desertores. 
Dirigido por Ridley Scott, a película foi baseada no livro de Philip K. Dick Do Androids Dream of Electric Sheep? e concorreu ao Oscar melhor direção de arte  e efeitos especiais.
Na estreia
Ao contrário do que pode aparentar em uma breve descrição, a obra não traz grandes cenas de ações e possui um ritmo bastante diferente das produções de ficção científica.
Outros elementos ajudam a desconstruir o estereótipo do gênero, como o figurino das personagens que nada possuem de futuristas e lembram a moda das primeiras décadas do século XX.
 
O roteiro enigmático com temas complexos e fotografia escura não agradou nem a critica e nem ao público há 30 anos.
 
O cinéfilo Victor Souza acredita que é preciso considerar que as expectativas eram outras: “Em 1982, se esperava de Ridley Scott a ficção semelhante ao seu filme Alien, o Oitavo Passageiro lançado em 1979 e de Harrison Ford um protagonista de ação que se aproximasse de seus papéis como Indiana Jones em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, e Han Solo de Star Wars – Episódio VI, de 1980.”
Nenhuma dessas esperanças foi concretizada pela produção. Outro fator que colaborou para o relativo fracasso de público foi a competição na estreia com outro filme que também se tornaria um clássico: E.T – O Extraterrestre, de Steven Spielberg. 
A polêmica versão
 
Spinners – os carros voadores
O elemento principal para as críticas, no entanto, é atribuído à primeira versão de Blade Runner. A visão final do diretor foi consideravelmente alterada pelo estúdio responsável.
Algumas mudanças foram feitas para esclarecer o roteiro enigmático, como a inserção de vozes em off para explicar a narrativa.
 
Outras inclusões mudaram completamente o universo construído no filme, a mais notória é o acréscimo de um final feliz na história dos protagonistas, mostrando Rick Deckard (Harrison Ford) e Rachael (Sean Young) fugindo para um cenário cheio de natureza e montanhoso.
 
“O primeiro fim é descabido. Fica evidente que a cena está fora do contexto original, uma vez que toda ideia de um planeta sombrio e tomado por uma paisagem urbana, simplesmente desaparece”, afirma Souza. As imagens finais utilizadas para essa versão nem mesmo foram rodadas para a obra, elas foram sobras de O Iluminado, de Stanley Kubrick.
 
A primeira versão do diretor foi lançada apenas 1992, baseada na edição original aprovada por Scott, e fez muitos críticos repensarem suas opiniões.  Em 2011, chegaram as versões em DVD e Blu-Ray que apenas acrescentaram algumas cenas estendidas.
Um futuro não tão distante
“O mais genial, em minha opinião, são algumas observações do futuro, por exemplo, a ideia de uma invasão da cultura chinesa na americana. É bastante viável se pensarmos na potência que a China se tornou atualmente e na sua superpopulação, mas conceber esse pensamento há 30 anos foi brilhante”, comenta o cinéfilo.
Outro ponto elogiado pelos fãs da película é a forma de concepção dos robôs. Em Blade Runner, os replicantes são fabricados através da engenharia genética e não apenas da produção mecânica, como é comum em ficções científicas. Nesse aspecto, o filme se aproxima de forma considerável das discussões éticas atuais sobre o tema.
Para um longa feito no passado, que fala sobre futuro e que está quase no presente; a obra tem um significado que procura transcender o tempo para falar de um tema universal: a efemeridade da vida, e por isso o filme resistiu ao passar dos anos, sendo cultuado até hoje.
 
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