Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 08.09.2011 08.09.2011

As quatro faces da arte de Samuel Casal

Por Andréia Silva
Na foto ao lado o ilustrador Samuel Casal
Crédito: Julio Cavalheiro
 
O gaúcho Samuel Casal abraçou a arte. Ilustrador profissional desde 1990, seu trabalho é composto de quadrinhos, ilustrações, gravuras, tatuagens em amigos nas horas vagas e riffs de guitarras. Coleciona oito troféus HQMix e já é conhecido fora do Brasil, em países como Itália, Alemanha, Argentina, Bolívia, Chile, Espanha e França.
 
Em qualquer das atividades acima, ele segue o mesmo lema. "Sempre busquei independência e me considero bem sucedido nisso", diz Casal.
 
Agora, o gaúcho inaugura um novo capítulo da carreira: a mostra Em Toda a Parte, uma exposição reúne seus trabalhos em xilogravura (técnica de gravura que usa madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel ou outro suporte). A exposição está em cartaz na Galeria Choque, em São Paulo, até o dia 30 de setembro.
 
"Estou distante dos quadrinhos e apaixonado pelas gravuras", disse ele deixando claro que elas são seu novo xodó. E o interesse por essa arte começou meio que por acaso, por curiosidade.
 
“Lá pelo ano 2000, quando comecei a desenhar no computador e meu traço evoluiu no digital, e ficou com uma estética que parecia gravura. O desenho tinha um resultado orgânico e natural”, conta Casal.
 
Obra de Samuel Casal

Daí ele partiu para a experimentação. “Me identifiquei na hora. Descobri que a maneira de fazer a xilogravura era como eu desenhava no computador, partia de uma mancha negra e ia abrindo luz”, diz ele.
 
A exposição traz trabalhos feitos recentemente por Casal e ainda um livro-objeto intitulado Autópsia, produzido manualmente, utilizando a técnica da xilogravura e do gofrado, técnica de impressão de relevo que não usa tinta, apenas deixa uma espécie de marca d’água.   
 
“Eu fui me deixando levar pelos movimentos que iam acontecendo e só depois é que as imagens foram surgindo, por isso o nome Em Toda a Parte. Foi uma composição que surgiu quase que inconscientemente”, conta.
 

 
 
Artista aos 16
 
A carreira de Casal começou quando ele nem sabia que estava começando, aos 16 anos, em sua cidade natal, Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. “Eu desenhava desde criança, nos cadernos da escola. A cidade tinha dois jornais e um dia um deles perdeu o diretor de arte. Aí fiz um teste, mesmo sem nunca ter pensado em trabalhar com isso. Meu desenho não era bom”, brinca.
 
Mesmo assim, Casal passou no teste e antes de completar a maioridade já fazia parte de uma equipe de arte de um jornal. Com o tempo, o local e as pessoas com que trabalhava foram se tornando sua grande escola.
 
Sua primeira HQ, Bicarbonato de Ódio, teve apenas três capítulos e a trama girava em torno de alienígenas e bang-bang. Mas o trabalho que Casal considera como pontual em sua carreira é Prontuário 666 – Os anos de Cárcere de Zé do Caixão, lançado em 2008.
 
A história se passa durante os 40 anos em que Zé do Caixão esteve preso, a partir de 1968. No livro são reveladas as terríveis experiências que o personagem promove na cadeia que ele chama de "zoológico humano".
 
Capa de Prontuário 666
 
“Foi um desafio sustentar uma história com 100 páginas, e eu queria que ela fosse feita do meu jeito de contar a história, não queria apenas ser um ilustrador de luxo”, conta Casal, que demorou dois meses para finalizar a HQ, premiada como melhor roteiro pelo HQMix.
 
O ritmo ágil é comum no trabalho do ilustrador. “Precisa ser rápido. Até porque me dá uma certa angústia. E eu sou muito disciplinado”, diz ele, que hoje, sem amarras às redações, mas ainda como colaborador de revistas e jornais nacionais, cria e se divide em vários artistas em seu estúdio, “estrategicamente” montado em sua casa.
 
Um novo olhar para o ‘feio’
 
Para muitos, o traço de Casal é definido como grotesco ou sombrio. Curiosamente, esses comentários são feitos em tom de elogio e essa é mesmo a assinatura dos trabalhos do ilustrador.
 
Ele diz que tal interpretação do seu trabalho é comum. “As pessoas acham que eu moro em uma casa assombrada e que aqui vivem criaturas estranhas”, brinca ele, que na hora de falar sério, chama isso de “preconceito estético”.
 
“Hoje, essa cultura excessiva da beleza separa o mal como feio e o bom como bonito, criando esse preconceito estético. Meu desenho defende a ideia de que não funciona assim. Meu trabalho tem uma estética meio Tim Burton, cujos personagens estranhos são sempre cheios de boas intenções”.
 
Prova disso é que na homenagem de novos ilustradores aos 50 anos do cartunista Maurício de Souza, Casal optou por recriar a história da turma do Penadinho. “Só que deixei eles um pouco mais sombrios”, brinca.
 

Penadinho, Frank e a Cranicola, no traço de Samuel Casal

 
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