Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 17.05.2012 17.05.2012

As poucas palavras de Bastien Vivés

Por Rafael Roncato
"Eu só queria contar a história de um homem que encontra uma mulher…" O jovem quadrinista francês Bastien Vivès, de 28 anos, parece alguém de poucas palavras. Assim como seus quadrinhos.
 
"Não queria todos aqueles códigos sociais, então comecei a me debruçar sobre a ideia da piscina", completa Vivès.
 
Foi dessa maneira que ele resolveu juntar um local de poucas palavras com uma sensação que não há descrição: o amor.
Em O Gosto do Cloro, vemos um cuidado com o realismo que o próprio autor quis transmitir, sem esconder em nenhum momento: "Quando se vai à piscina não se fala muito, e toma-se muito tempo para refletir entre cada ida e volta; é, antes de tudo, relaxante".
 
Entre as linhas, ora distorcidas, ora perfeitas, podemos facilmente nos perder e entender justamente qual o ponto final de Vivès. O silêncio acima de tudo. "Não queria encher meus diálogos com informações inúteis, preferia deixar lugar ao desenho para passar algumas informações", explica.
Considerado um dos autores mais promissores de sua geração, Vivés conquistou em 2009 o prêmio de revelação no famoso Festival d'Angoulême, na França, justamente com O Gosto do Cloro.
 
Ano passado, o autor recebeu o Prêmio das Livrarias na França por Polina (ainda sem tradução aqui no Brasil).
 
Ele mesmo diz que as premiações, na verdade, apenas o ajudam a contar grandes histórias, dando mais credibilidade para seu traço e mais liberdade nas próximas ideias que podem surgir.
 
A maneira envolvente e a delicadeza única da construção do amor no lugar menos esperado possível parece dizer que ele pode estar em qualquer canto, basta dar a devida chance.
 
No entanto, o próprio quadrinista desmente toda sua narrativa visual. "Escrevi esse livro há alguns anos; nessa época eu já não acreditava muito nisso, e isso não melhorou muito desde então [risos]".
Não se passa numa balada, nem numa praça após um encontro de olhares; muito menos é um antigo amor de colégio. O universo do amor é numa piscina pública.
 
Ele precisa nadar por recomendação médica, por conta de uma escoliose. Ela nada para se distrair, parecendo entender do assunto. Ele, atrapalhado, começa a receber dicas dela e a se interessar pela pessoa. Ela ainda é um mistério, vaga.
 
 
Vivés retrata a solidão e as relações nesse universo, deixando espaço para reflexões. Os desenhos e as cores são experiências à parte no trabalho do francês.

"Tenho muitas páginas, então eu posso fazer tudo sem pressa e deixar o leitor se impregnar com a história. Como é uma graphic novel, o objetivo era fazer a pessoa esquecer que estava lendo um livro." E conseguiu.

 
Cores e linhas nos levam para um universo quase lisérgico, onde espaço e tempo ficam irreconhecíveis.
 
Ficamos imersos com Vivès nessa piscina de reflexão e variada escala tonal de azul, na qual podemos quase sentir o gosto do cloro.
 
E essa estranha proximidade com o real levou à pergunta: o que tem da sua própria vida no quadrinho? "A única parte verdadeira da história é a moça, o resto eu inventei com pedacinhos de coisas espalhados aqui e ali." Acredite quem quiser.
 
 
 
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