Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 17.02.2020 17.02.2020

As paródias com marchinhas não morreram

marchinhas

Por Silmara Borges

Quem não se recorda das antigas marchinhas de carnaval que marcaram época e ainda hoje revelam o quanto a nossa cultura popular é rica e criativa? Desde que foram criadas, ganharam novas versões por meio das chamadas paródias.

Galo Capão – Noel Rosa
Có… có… có… có… có… có… có… ró…
Có… có… có… có… có… có… có… ró…
Eu hoje estou com gogo
Não aperte o meu gogó.
Você é ladrão de galinha
Quem me informou foi a minha vizinha
Sou galo e… se você me roubar
O papagaio hoje vai me desmoralizar

Não poderíamos deixar de relembrar algumas delas, com o “Galo Capão“, de Noel Rosa, versão da marchinha do “Grande Galo“, de Lamartine Babo.

A marchinha é um gênero do final do século XIX, mas chegou ao auge na década de 30 e, logo que ganhou as ruas, surgiram suas primeiras versões parodiadas.

Noel Rosa, cantor, compositor, sambista e considerado mais cronista do que poeta, carregava em suas criações o favoritismo da paródia, fazendo de arranjos das letras de humor a melodias. Na música “Foi Ela”, de Sergio Sampaio, dá para ter uma ideia da graciosidade e do deboche da composição que se transformou em paródia para a revista radiofônica “Ladrão de Galinha“.

Noel Rosa

Foto: Roberta Namour

Foi ele – Noel Rosa

Quem roubou o meu capão de estimação?
Foi ele
Quem abriu o meu portão para o ladrão?
Foi ela
Depois ele tropeçou… ô…ô
Mas meu galo não se machucou
Quem parou porque a carroça atropelou?
Foi ele

Foi um galo que cantou…ô…ô
Um cachorro que acordou…ô…ô
Quem comeu sempre galinha na cozinha?
Foi ele

Outro marco na história das paródias é a marchinha “O Teu Cabelo não Nega“, de Lamartine Babo, que aproveitou o refrão do frevo-canção de outros dois autores para adaptar alguns pontos da música original.

O tema até ganhou as páginas do livro Uma História da Música Popular Brasileira, de Jairo Severiano.

Segundo Carlos Augusto Bonifácio Leite, professor de literatura brasileira na UFRGS e escritor, a paródia de canções é uma prática anterior às marchinhas. “Pela canção ser uma arte muito perto da entoação falada, assim que uma se torna conhecida, mentes curiosas começam a encaixar outras palavras naquela melodia, procurando possibilidades de combinação”.

Pelo Brasil afora, é possível encontrar vários blocos que arrastam multidões à alegria coletiva com músicas satirizadas e paródias.

Quanta Ladeira

Quanta Ladeira

Foto: Reprodução

Lá no meio do festival Rec Beat, em Recife, que acontece nos dias de carnaval, há um bom exemplo. Quem se apresenta por lá é o grupo Quanta Ladeira. Os cronistas se preparam para mais uma maratona e trazem um pouco do espírito dos antigos carnavais.

O bloco nasceu de um encontro de amigos compositores, que decidiram montar um grupo carnavalesco para desaguar o acúmulo de ‘bobagem’ que habitava suas mentes, com o intuito de passarem mais tempo felizes.

A união de músicos – entre eles, Zé da Flauta, Lenine, Lula Queiroga, Silvério Pessoa, Lucky Luciano e Moraes Moreira – originou o talento do Quanta Ladeira, que depois de mais de 15 anos, chegou ao fim em 2017.

“Na verdade, aí formou-se uma ala de compositores em busca de um bloco. Criavam-se paródias, músicas com melodias próprias, gritos de guerra. Juntamos um grupo de batuqueiros camaradas, sempre movidos pela diversão”, define Lula Queiroga.

No repertório, as canções parodiadas seguem a mesma ideia do vale-tudo que norteia o grupo. Marchinhas tradicionais, músicas de carnaval, românticas e MPB são elementos que traduzem o ingrediente de uma boa diversão.

“Com as letras impublicáveis e com a licença que só o carnaval permite, o bloco se tornou uma espécie de cronista dos fatos relevantes que ocorreram nesses 15 anos. A cada carnaval, mais de 20 novas ‘musiquetas’ surgem, sempre vendo tudo pelo lado da brincadeira”, explica Queiroga.

E quem está por lá, no Carnaval, sempre dá um pulo no encontro. Já passaram pelo bloco vários nomes da música brasileira e estrangeira como: Pedro Luís, Roberta Sá, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Zelia Duncan, Vanessa da Mata, Manu Chau, Nelson Motta, entre tantos outros.

“A batucada hoje é poderosa e tem guitarras, baixo, samplers. Fazemos versões do The Clash, Alceu Valença, Genival Lacerda, Fagner”, relata Queiroga.

Em 2020, alguns integrantes do Quanta Ladeira resolveram se reunir para um bloco menor, o Quanta Attack. Seus integrantes porém, deixaram claro que não era a volta do Quanta Ladeira, apenas uma pequena reunião para relembrar o passado.

Em Manaus

Banda Bica

Foto: Reprodução (Facebook)

No norte do Brasil, a Banda Independente da Confraria do Armando (Bica), de Manaus, não tem nenhum integrante que seja cancionista. O que eles têm em comum é um ouvido ‘aguçado’ para compor suas paródias.

Atentos às curvas da melodia e da entoação natural das frases, o grupo leva alegria para os foliões nesta época do ano. A banda carnavalesca é uma das mais tradicionais e polêmicas de Manaus.

Temas como política são um dos carros-chefe do grupo. No carnaval passado, os alvos da banda foram os políticos da cidade, homenageados com sátiras.

Formada em uma roda de amigos no Bar do Armando, em 1987, a banda arrasta cerca de 40 mil foliões, que desfilam pelas ruas do centro de Manaus.

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