Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.12.2012 28.12.2012

As obras-primas da literatura que ninguém lerá

Por Zaqueu Fogaça
 
O registro da escrita, mesmo evoluindo no decorrer dos séculos, ainda se mantém preso à problemática que remete à Grécia Antiga, como explica a professora e pesquisadora de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo, Adriane da Silva Duarte.
 
“Os gregos institucionalizaram a escrita e logo deixaram de lado as tabuinhas de madeira recobertas de argila e as monumentais pedras nas quais se registravam as leis, para adotar o papiro como suporte preferencial. É certo que o papiro, assim como papel de hoje, é frágil, está à mercê da umidade, calor, rasga facilmente, mas tem a vantagem de ser leve e facilmente armazenável”.
 
No entanto, muitas foram preservadas e restauradas graças ao trabalho indispensável de letrados e historiadores da literatura, como destaca o bibliófilo Luis Pio Pedro. “Muitas obras foram salvas da destruição por historiadores e bibliófilos, que desempenham um papel fundamental na preservação do patrimônio literário, e um deles certamente foi José Mindlin”.
 
A perda de uma obra pode ocorrer de diferentes maneiras, e muitas dessas obras que não chegaram até nós em seus formatos materiais permanecem vivas e latentes na memória da literatura, mesmo que seja apenas na categoria de volumes que ninguém mais poderá ler, ou ainda objeto de estudo, como o fez Stuart Kelly, crítico literário escocês e autor de O Livro dos Livros Perdidos, no qual apresenta um panorama das obras perdidas das mais diferentes maneiras, até mesmo as que nem chegaram a ser escritas.
 
Para mostrar que a perda de uma obra é mais comum do que podemos imaginar, o SaraivaConteúdo preparou uma breve lista dos principais clássicos da literatura mundial que, por diferentes motivos, se perderam e nunca mais poderão ser lidos novamente.
 
BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA
 
Ésquilo
 
 
A perda mais trágica e dolorosa para a humanidade ocorreu com um dos maiores símbolos das letras do mundo antigo, a Biblioteca de Alexandria. Ao longo de sua história, a Biblioteca foi pilhada e incendiada, abrindo uma lacuna colossal no conhecimento da literatura produzida no período. “Durante séculos de existência ela reuniu praticamente toda a produção dos gregos, não se limitando só a armazená-la, mas também a classificá-la, editá-la e estudá-la”, descreve Adriane.
 
Mais de 200 mil pergaminhos e o único exemplar da obra completa do dramaturgo ateniense Ésquilo (524-456 a.C.) são exemplos da perda. “Se podemos estimar que Sófocles ou Eurípides tenham composto cerca de 90 peças cada, temos que nos contentar hoje com sete e dezenove obras de cada um, respectivamente”, comenta a professora, e acrescenta: “No entanto, o que foi conservado, selecionado pelo tempo, pelo juízo dos leitores e pelos azares das circunstâncias, é significativo e nos permite conhecer e apreciar o legado que os gregos nos deixaram”.
 
NIKOLAI GOGOL
 
Nikolai Gogol
 
 
Outra perda provocada pelas chamas ocorreu em meados do século XIX, na Rússia, quando o escritor Nikolai Gogol (1809-1852) queimou o manuscrito da parte II de Almas Mortas.
 
Após pedir para seu criado acender o fogo, o escritor alimentou as chamas com as páginas manuscritas da obra, uma a uma, até o momento em que as faíscas das labaredas se confundiam com o reflexo do fogo em suas lágrimas, que ao término do ato, despencaram incessantemente.
 
Não é à toa que, logo após o trágico evento, Gogol parou de comer e morreu nove dias depois por fome autoimposta.
 
JOSÉ DE ALENCAR
 
José de Alencar
 
 
Ao contrário de outras obras que foram destruídas com o consentimento de seu autor ou de maneira criminosa, um trabalho da literatura brasileira foi queimado por um triste engano.
 
Trata-se do livro Os Contrabandistas, primeiro romance do jovem José de Alencar (1829-1877), que foi usado para acender charutos acidentalmente por um hóspede do autor. A obra fora destruída e jamais reescrita por Alencar.
 
ERNEST HEMINGWAY
 
Ernest Hemingway
 
Já com o escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), ocorreu uma extrema falta de sorte ou, como alguns dizem, excesso de azar do escritor. Ao longo de sua vida, Hemingway sobreviveu a diferentes tragédias, acidentes, fraturas e até mesmo a uma guerra.
 
Mas um incidente marcou sua vida literária: o roubo de seus manuscritos, que estavam no carro de sua primeira esposa enquanto ela viajava à Suíça, em 1920. Naquele momento, o autor já estava bem adiantado nos escritos sobre suas experiências na Primeira Guerra Mundial, mas tudo se perdeu, e a história jamais foi retomada por ele.
 
T. E. LAWRENCE
 
T. E. Lawrence
 
Mais cruel ainda fora o que aconteceu com o escritor T. E. Lawrence (1888-1935), que, em meados de 1919, quando já havia finalizado oito dos dez volumes de sua obra Os Sete Pilares da Sabedoria, perdeu seus manuscritos.
 
O incidente se passou enquanto fazia uma viagem de trem entre Londres e Oxford e resolveu parar para tomar um café na estação de Reading. Enquanto bebia seu café, o escritor deixou a maleta contendo os manuscritos debaixo do banco, mas ela sumiu misteriosamente e nunca mais foi encontrada, forçando o autor a recomeçar sua epopeia desde o início.
 

Esse evento ainda suscita interesse entre os historiadores, que sonham em encontrar os originais. Segundo alguns deles, a obra seria diferente da que foi reescrita mais tarde pelo autor.

 
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