Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.08.2012 21.08.2012

As novas tecnologias e o velho e bom papel mostram seus prós e contras na Bienal

 
Por Marcelo Rafael
 
Zeca Camargo, um dos curadores da 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, comentou, na abertura do evento para a imprensa, que a “ideia” do livro não vai acabar e que o papel desta Bienal era justamente buscar novas soluções para essa ferramenta tão preciosa.
Em meio a inúmeras editoras físicas e virtuais e lojas online e concretas, uma mesa sobre o futuro do livro aconteceu no último final de semana.
No debate, José Luiz Goldfarb, Vinícius Campos e Mona Dorf. Na plateia, além do público em geral, um grupo de professores vindos do Rio de Janeiro especialmente para participar do evento.
Da plateia, veio a pergunta da visitante Bruna sobre a interatividade do livro digital, que considera não apenas uma literatura, mas também uma fonte de conhecimento pelo acesso rápido à informação. Para exemplificar seu ponto, ela citou um romance que leu, ambientado na França. “Quando o livro é interativo, eu vejo como é a igreja de que eles estão falando. Você clica, abre, vê e imagina como é o lugar porque viu fotos. E às vezes, no livro (de papel), você tem que pesquisar depois, em casa”, comentou.
Campos, que durante todo o debate trazia a discussão para as possibilidades do mundo físico, real, em contraposição ao digital, respondeu-lhe: “Às vezes, com o livro de papel, não ter esse link também te ajuda a imaginar um monte de coisas que uma foto te limita”.
Completou, acrescentando os exemplos de publicações que viraram filmes. “Com o livro (de papel), você vai a tantos lugares na sua imaginação… O Harry Potter, antes, tinha várias caras. Hoje, ele só tem a cara do Daniel (Radcliffe)”.
Lilian Ferreira, professora de Língua Portuguesa no Rio e gerente do portal Rioeduca, concorda em partes com ambos. Ela conta que nunca leu Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, justamente por logo imaginar Sônia Braga. Agora, a confusão aumentou graças a Juliana Paes no papel da baiana na TV.
Mas, como educadora, Lilian acredita que a colocação de Bruna pode ser válida. “É muito complicado você dar um texto pro aluno e estar escrito ‘Era uma tarde de verão em Estocolmo’. Como ele vai imaginar uma tarde de verão ou inverno se ele não conhece Estocolmo?” Segundo ela, se, naquele momento da leitura, ele tiver um link sobre a cidade, o aluno vai pesquisar e ter outra interpretação da história.
Campos, autor de O Amor nos Tempos do Blog, sai em defesa do papel novamente. “O grande trabalho é você saber toda a história e saber o que vai revelar para o leitor, e em que momento vai revelar”, comentou.
Raphaella Marques, professora da rede pública do Rio de Janeiro e blogueira, presente na plateia, comentou que alunas suas, de 8, 9 anos, chegam para ela com um “Tia, fiz um blog”. “E eu fico emocionada! Como assim? Não é algo que eu exijo ou ensino”, contou.
Raphaella, que coordena o site Educopédia, conta que ainda tem amigos professores que utilizam o antiquíssimo mimeógrafo como apoio para as aulas em lugar das novas tecnologias.
A partir da pergunta de um garoto da plateia sobre a dificuldade de acesso a tablets e internet nas escolas, Goldfarb sintetizou o momento pelo qual a literatura está passando. “A geração dos ‘nascidos digitais’ vai viver uma transição complexa, já que os professores são do século passado”, contou.
Apesar de estarem sempre conectados, compartilhando textos, vídeos e fotos, tanto Dorf quanto Goldfarb e Campos não têm planos de 3G no celular ou tablet. “Eu não tenho. Acho caro, acho que vou ficar viciado. Então, eu sou rato de wi-fi”, acrescentou Campos.
Dorf também se considera “rata de wi-fi”, apesar de ter optado por voltar à agenda em papel após o furto de seu celular com o chip que tinha todos os seus contatos.
 
Jornalista, livreiro virtual e autor em papel debateram os rumos da literatura frente à internet e as possibilidades por ela abertas
Assim antes, assim agora
Ela acredita que estamos num momento de menos fala (menos telefone, menos conversas pessoalmente) e mais escrita (chat, e-mail, sms). E a Bienal deste ano soube se valer disso com a experiência inovadora de uma obra virtual coletiva escrita via Twitter, o #LIVRODABIENALSP.
Enquanto Dorf comentava que o microconto escrito em até 140 caracteres, no Twitter, precisa ser um nocaute imediato no leitor – que precisa entender a história de imediato –, Campos fazia o paralelo com o curta-metragem, que tem a mesma proposta. Os haikais (ou haikus) já faziam o mesmo, séculos atrás.
Para ela, se antigamente essa função era exercida pelos aforismos e citações – de Nietzsche, Platão e Descartes –, hoje são os microcontos, que mostram uma ideia encerrada em si mesma e, ainda assim, abrem o espaço para a imaginação, tão requisitado pela visitante Bruna. “Você imagina tudo, você consegue ver a história surgindo”, disse Dorf.
De fácil assimilação, Goldfarb recitou um que concorreu a prêmio: “Esta é a visão do Paraíso que eu te prometi. Agora pula”. De cabeça, assim como o microconto lembrado por Goldfarb, a Bíblia e outros textos foram passando de geração em geração até ganharem o papel, milhares de anos atrás. Esse armazenamento e transmissão da informação foi até fonte de exposição em estande da USP durante a Bienal.
Da plateia, veio uma pergunta relacionada à atual profusão de livros, e Campos respondeu, comentando a importância da função da editora hoje em dia. “O papel da editora é o da credibilidade ao ler e selecionar, entre vários originais, aqueles que ela acha que podem funcionar. Não quer dizer que seja bom ou ruim. Acho que, com o livro-aplicativo, isso vai acontecer também”.
Por mais que disponibilize textos na rede, ele ainda frequenta livrarias. E acredita que todo mundo que hoje está publicando e tem mais de 25 anos sempre sonhou em publicar uma obra. “Esse livro que você sempre sonhou em publicar era o livro que você via na livraria, em papel”, acrescentou.
Já Dorf acredita que o fetiche pelo papel, pelo impresso, ainda é grande. Ela cita o exemplo de quando era assessora de imprensa. “As pessoas não consideravam o que saía online ou em blog, mas se saía uma notinha no jornal, elas achavam mais legal do que estar na internet, que atinge muitas pessoas”.
Goldfarb, que brinca que gosta de ler “na rede, mas não na rede internet. Numa rede em Atibaia, que eu comprei na Paraíba e onde me deito”, todos esses mecanismos tecnológicos só promovem o escritor e abrem espaço para o conteúdo ganhar o mundo.
Irônico que, segundo o Twitter oficial do evento, no dia desse debate – um dos mais movimentados da história da Bienal –, a luz caiu por três vezes. Porém, para felicidade geral de todos, apesar da escuridão, todos os livros – em papel – continuavam lá, intactos para serem apreciados.
 
 
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