Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.10.2011 11.10.2011

As mulheres de Maria Cândida

Por Thaís Ferreira
Após séculos restritas ao ambiente doméstico, as mulheres arregaçaram as mangas no século XX. O feminismo – a luta pela igualdade entre os sexos – conquistou importantes vitórias em relação aos direitos civis e sociais. Esse contexto histórico é lembrado como fundamental para as mudanças significativas na vida de todas as mulheres. Elas entraram no mercado de trabalho, começaram a votar e se tornaram líderes políticas. Até hoje, o “sexo frágil” está em constante reinvenção para atingir todos os âmbitos da vida social.
Ser mulher no século XXI: esse é o tema do livro Mulheres que Brilham – Histórias inspiradores de 50 Mulheres que Fazem a Diferença (Editora Original), da jornalista Maria Cândida. A proposta inicial veio do programa de televisão 12 Mulheres, transmitido pela Rede Record, e se resumia em encontrar 144 entrevistadas de países diferentes. O foco era fazer um mapa amplo e diversificado sobre as mulheres contemporâneas. No final dessa jornada, Maria Candida transformou sua experiência em um registro escrito que reuniu as melhores histórias.
Trocando de papel, a jornalista se transformou em entrevistada e contou ao SaraivaConteúdo a transformação de um programa televisivo em livro e suas impressões sobre as mulheres atuais.
 
Durante o programa 12 Mulheres foram realizadas 144 entrevistas em 12 países. Como ocorreu o processo de seleção dos locais e das mulheres?
Maria Cândida. Nós queríamos mostrar o comportamento da mulher no mundo atual. Para isso, pensamos em pegar uma amostra em quase todos os continentes. Definimos que os principais pontos seriam África, Oriente, América do Norte, América Latina e Europa. Escolhemos países em que as mulheres são representativas, como é o caso da Finlândia, onde elas começaram a votar em 1906. No caso da seleção das mulheres, elas deveriam ser comuns, nenhuma delas é famosa. Além disso, procurávamos mulheres com profissões relacionadas ao seu país. No Vietnã, por exemplo, deveríamos encontrar alguém ligada à guerra. Uma fotógrafa ou uma sobrevivente de algum ataque.
Você já conhecia alguma das entrevistadas? Como as localizaram e se aproximara delas?
Maria Cândida. Só conhecia algumas que moravam em São Paulo, todas as outras eu nunca tinha visto. Antes de fazer a entrevista, o produtor me entregava um histórico. Além disso, tentava achar alguma informação adicional, mas na maioria dos casos tive que obter material gravando mesmo. Queria que elas se apaixonassem pelo projeto como eu, então eu levava um tempo para explicar e contar nossos objetivos. Todas adoravam a ideia e se abriam nas entrevistas. Perguntava tudo, desde porque ela tinha escolhido aquela roupa vermelha para dar a entrevista até a relação política dela com seus países. Ouvi muitas histórias, me emocionei em várias delas, era como fazer uma análise a cada mulher. Saia cansada e com a minha cabeça totalmente ligada à trajetória da personagem. Comprei um gravador e resolvi registrar todos esses pensamentos após as entrevistas. Isso foi bom para ter material para o livro.
 
Sobre o processo de seleção para Mulheres que Brilham, como foi o critério para selecionar apenas 50 histórias entre tantas outras? Existe alguma história que você se arrepende de não colocar no livro?
Maria Cândida. Por mim, das 144 entrevistas que realizamos eu tiraria apenas umas trinta histórias e colocaria todo o resto no livro, mas iria ficar imenso e caro. Decidimos primeiro por 70, depois 60 e chegamos ao número 50. Fui separando as que mais me chamaram atenção pela história de vida, capacidade de transformação, trabalho pelo social e características de políticas. Queria mostrar pessoas que tiveram sucesso na vida apesar de seus fracassos pessoais e profissionais. Também foi importante mostrar aspectos da mulher contemporânea. Acredito que o trabalho dá para a mulher a sua independência financeira que gera um poder interior muito forte e satisfação pessoal.
No livro existe uma marca de suas experiências pessoais em relação às entrevistadas. Por que você optou por esse tipo de narrativa ao invés da impessoalidade?
Maria Cândida. Na televisão, eu falo com as pessoas. Elas estão comigo o tempo todo. Invado suas casas, no bom sentido. Todo mundo está acostumado com meu jeito de falar, de sorrir e de abordar os temas. Se fosse um livro impessoal, não seria a mesma Maria Cândida que fala com eles. O livro é apenas uma vertente do meu trabalho. Tenho que manter minha característica sempre. Tinha que colocar meus sentimentos no papel.
Em várias das histórias relatadas, as mulheres sofreram algum trauma e se reinventaram a partir das dificuldades. Você acredita que um grande sofrimento impulsiona uma grande mudança?
Maria Cândida. Sim. Acho muito difícil uma pessoa sofrer e não aprender nada com isso. Acredito que tudo que passamos é para o nosso aprendizado e que não estamos na Terra a passeio. Temos que aproveitar as experiências negativas e entender o que a vida quer nos ensinar. A auto-análise é o melhor processo.
Você relata que se identificou e se emocionou com várias entrevistadas. Qual delas mais marcou a sua vida?
Maria Cândida. Foram várias, mas uma senhora do Vietnã, que dançava para o Ho Chi Minh na época da Guerra, foi maravilhosa. Quando sai de sua casa, ela veio correndo, me puxo e me deu uma foto dela para guardar. Achei um gesto tão lindo, nenhuma delas me deu uma foto, só ela. E não vou mais esquecer.
No fim dessa jornada, como você define o que é ser mulher no século XXI?
Maria Cândida. É ser consciente de quem é e do mundo que vive. Depois, acho que como disse antes, a mulher de hoje tem que trabalhar. A mulher contemporânea deve entender o processo de evolução feminino e seguir seu caminho de sucesso junto ao seu companheiro: dividindo funções e trocando opiniões.  Ela não deve ser o homem da casa, mas também não bancar a Amélia. É um equilíbrio. Essa é a mulher de hoje: consciência, trabalho e família.
 
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