Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.04.2010 16.04.2010

As melhores coisas do mundo

Por Bruno Dorigatti
Fotos de divulgação

> Assista à entrevista exclusiva de Laís Bodanzky e Francisco Miguez ao SaraivaConteúdo 

Um olhar sobre o universo adolescente, livre da caricaturaque geralmente vemos associada aos filmes que se aventuram por esse caminho.Laís Bodanzky, diretora de Bicho de setecabeças e Chega de saudade,aceitou o convite para levar à telona a história de Mano, da série de livros deGilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, e o resultado é As melhores coisas do mundo, que poderia ser descrito com a fraseque abre este texto. “Eles nos deram carta branca para criar uma históriaoriginal com esse personagem. Mano é um garoto de classe média de uma famíliacom pais esclarecidos, que estão vivendo uma crise e se separando. E é umgaroto que tem seu universo na escola, vivendo todas as dificuldades típicas deum adolescente, em que você erra bastante, mas vive tudo intensamente. A gentecriou a história a partir desse universo, mas resolvemos consultar a fonte, quesão os próprios adolescentes”, conta Laís em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

Filmado basicamente com não-atores nos papéis principais,“alunos pinçados do colégio diretamente para o set de filmagem”, o terceirofilme de Laís traz diálogos naturalistas, a ambientação em um colégio de classemédia paulistana e a cada vez mais onipresente tecnologia com as redes sociais,blogs e celulares, que interferem e ajudam a moldar e definir as relaçõessociais e amorosas dessa nova geração que está na casa dos 15 anos hoje. Alémda separação dos pais, Mano, interpretado pelo estreante Francisco Miguez, passapelas angústias e euforia típicas dessa fase, como os primeiros beijos, aprimeira transa, o desejo de tocar guitarra, as pequenas traições entre amigos,e – tema cada vez mais constante – os desdobramentos cruéis do bullying, violência, física oupsicológica, praticada por adolescentes contra outro(s), que não consegue(m) sedefender. Se antes ele já trazia sérios problemas para os meninos e meninas,agora com a onipresença da internet traz ainda mais, quando bastam apenasalguns cliques para colocar em circulação fotos e vídeos íntimos. 

Ao focar na classe média, pouco investigada em nosso cinema,e no universo bem específico dos novos adolescentes neste início de século,Laís Bodanzky fez questão de aproximar-se dos meninos e meninas para que elesajudassem a construir “não um retrato do meu olhar adulto sobre o que é oadolescente hoje, mas o retrato do próprio adolescente. Como é que ele se vê?Mostrar na tela de cinema ele mesmo, fazer um jogo de espelho”. 

“Eu não poderia nunca cair em uma caricatura, errar numdetalhe. Então achei importante montar um castingque não viesse de uma agência, do mundo da publicidade, da televisão, mas queeu conseguisse, de certa forma, tirar o aluno do colégio e colocar ele diretono set de filmagem, com aquele frescor, aquele jeito de se comportar, falar, sevestir. E que isso pulsasse na tela de cinema. Isso foi, na verdade, umaestratégia para tentar ser o mais respeitoso possível com esse público que vaise ver na tela e que quero muito que se reconheça ali”, fala a diretora. 

Os riscos e asdificuldades 

Mesmo assim, ela acredita que estava o tempo inteirocorrendo o risco de cair no caricato e no estereótipo. A aproximação com elesse deu através de conversas que duravam uma tarde inteira, com dois a quatrogrupos de até dez alunos em sete escolas particulares de São Paulo. “Percebemosque eles estavam muito preocupados em como a gente iria contar o universo deles.Eles foram consultados o tempo inteiro, na confecção do roteiro, no set defilmagem e depois na montagem, para ver se estávamos no caminho certo.” Questõescomo, por exemplo, a tecnologia, com as redes sociais e celulares não estavam nasprimeiras versões do roteiro e os adolescentes questionaram: “Vocês vão falarda gente e não tem um celular nesse filme?”. As histórias acontecem através dessasmídias, hoje em dia, seria impensável não abordá-la. “Eles estão em casa,fecham a porta do quarto, mas ligam a TV, o computador no twitter, orkut,facebook, falam ao telefone e fazem a lição de casa, tudo ao mesmo tempo. Issotem que estar presente, pois eles são assim. Tinha que estar incorporado deforma orgânica na história”, conta Laís. 

Sobre o bullying,a diretora afirma que ele sempre existiu, inclusive ela o presenciou na sua infânciae adolescência, “só que em um formato menor se comparado com a tecnologia que agente tem hoje. E não tinha nome, né? Bullyingé uma palavra recente, a gente nem tem ela em português. O que me espantou, emtodas as conversas, esse tema aparecia de forma muito forte. Porque oadolescente quer ser aceito pelo grupo. O medo de ser diferente, aquele paraquem vão apontar o dedo, esse é o grande pânico deles”. 

O espanto de Laís, aliás, foi referendado em 14de abril, com a divulgação de uma pesquisa nacional realizada pela ONG PlanBrasil com 5.168 estudantes de todo o Brasil que aponta que 28% dos alunosjá foram vítimas de maus tratos por parte de colegas ao menos uma vez no anopasso. “Não dava para fazer um filme sobre o universo adolescente sem tocarnesse tema que tanto assusta todo mundo. E eu desconhecia a profundidade que o bullying tomou por conta da internet,dos celulares. O que era antes um problema dentro da sala de aula ou só nopátio, hoje já passou o muro da escola, está na cidade e em qualquer lugar. Éuma coisa sem fronteiras e um pesadelo que nunca vivi. E esses meninos emeninas estão expostos a isso o tempo inteiro”, afirma Laís. 

As melhores coisas domundo conta com a participação de Caio Blat, Paulo Vilhena e Denise Fraga,mas os papéis principais ficam com outros estreantes, ao lado de Francisco,como Gabriel Illanes, Julia Barros e Gabriela Rocha, que interpreta Carol,amiga de Mano e uma das protagonistas da trama. E os não-atores se saem muitobem na empreitada. Apesar de soar um tanto caricato na abordagem do irmão deMano, Pedro, interpretado pelo músico da Banda Hori, Fiuk, Laís Bodanzkyconsegue abordar de maneira divertida e sensível esse eterno mundo em transiçãoque é a adolescência. 

> Conheça o site do filme

> Laís Bodanzky na Saraiva.com.br

Bicho de sete cabeças 

Chega de saudade

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