Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.03.2012 22.03.2012

As manias mais curiosas dos escritores

Por André Bernardo
“De perto, ninguém é normal”. O verso de Caetano Veloso, extraído da canção “Vaca Profana”, é perfeito para ilustrar o processo criativo de escritores famosos.
 
Muitos deles recorrem às manias mais esquisitas na hora de escrever suas obras-primas. Alguns gostam de se refugiar em lugares pequenos.
 
Outros limitam o número de páginas a serem escritas por dia. Outros, ainda, chegam a se vestir de maneira elegante antes de sentar ao computador.
 
O carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza, de Uma Janela em Copacabana, O Silêncio da Chuva e Céu de Origamis, pertence à turma que gosta de sair caminhando por aí para buscar inspiração.
 
“Escrevo no meu escritório, fora de casa, sozinho, durante o dia. Preciso de isolamento e silêncio. Quando um bloqueio persiste, saio andando pelo Centro da cidade”, afirma Garcia-Roza, que compartilha da mesma idiossincrasia literária de Victor Hugo, Carlos Fuentes e Jean-Jacques Rousseau.
 
O depoimento do autor é um dos mais de 70 coletados pelo jornalista e escritor Michel Laub em seu blog. Na seção “Escritores e Manias”, Laub esmiúça as esquisitices de escritores brasileiros contemporâneos, como Edney Silvestre, Marçal Aquino e João Gilberto Noll.
 
Autor de Diário da Queda, O Segundo Tempo e O Gato Diz Adeus, Laub explica que sempre gostou de ler sobre manias de escritores nas entrevistas da “Paris Review”.
 
Como não se lembrava de ter visto nada assim no Brasil, resolveu fazer o mesmo. Sobre o porquê dos escritores serem tão propensos a criar superstições ou seguir rituais, acredita que isso seja próprio do ser humano.
 
“São propensos como qualquer pessoa que precise de concentração para trabalhar”, justifica. “Dia desses, vi um documentário na TV sobre manias dos tenistas. E descobri que eles também têm as suas, com as raquetes, as toalhinhas, etc”.
 
Nos porões da literatura universal
 
Em A Vida Secreta dos Grandes Autores, o jornalista americano Robert Schnakenberg fuçou a intimidade de alguns gênios da literatura e descobriu excentricidades que nossas professoras nunca tiveram a coragem de contar.
 
Autor de O Príncipe e o Mendigo e As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain não conseguia escrever uma linha sequer sem um charuto por perto.
 
No caso de James Joyce, de Ulysses e Retrato do Artista Quando Jovem, seu fraco era por chocolate. Já Honoré de Balzac, de A Comédia Humana e A Mulher de Trinta Anos, não produzia sem café. “Ele chegava a consumir mais de cinquenta xícaras por dia”, entrega.
 
Por aqui, o escritor Luis Fernando Veríssimo, de As Mentiras que os Homens Contam, Comédias para Se Ler na Escola e Em Algum Lugar do Paraíso, também admite ter das suas manias ao escrever. 
Mark Twain
 
Mas nenhuma delas relacionadas a charuto, chocolate ou café. “Gosto de jogar paciência no computador enquanto as ideias não vêm. É uma maneira de distrair o cérebro enquanto o processo de criação acontece mais lá no fundo, sabe-se lá onde”, confessa Veríssimo. “Pensava que estava perdendo tempo em jogar paciência até descobrir que o Chico Buarque também joga, antes de começar a escrever. Aí, acabou meu sentimento de culpa”, graceja.

No bem-humorado livro de Schnakenberg, é possível descobrir, por exemplo, que escritor que se preza não escreve sentado na cadeira como a maioria de nós, simples mortais.
 
Alguns deles, como Edmond Rostand, Jorge Luis Borges e Agatha Christie, preferem criar refestelados numa confortável banheira.
 
Já outros, como Lewis Carroll, Virgínia Woolf e Johann Wolfgang von Goethe, preferiam escrever em pé.
 
O autor de Fausto e Os Sofrimentos do Jovem Werther chegou a mandar fazer, por encomenda, uma escrivaninha de sua altura para poder trabalhar em casa. J
 
á a autora de Orlando e Mrs. Dalloway gostava de escrever assim por influência da irmã Vanessa, que era pintora e costumava trabalhar em pé.
 
Muito além da escrivaninha
Eric Nepomuceno
Mas o que leva um gênio da literatura a se cercar das mais inusitadas obsessões na hora de escrever? Por que alguns escritores, como Ernest Hemingway, John Steinbeck e Paul Auster, só conseguem escrever a lápis?
 
E outros, como Vladimir Nabokov, William Faulkner e Edgar Wallace, só conseguem produzir na calada da noite?
 
É o que tenta responder o escritor e tradutor Eric Nepomuceno na crônica “O exercício da Solidão”, que faz parte do livro Antologia Pessoal. “Escrever é o mais solitário de todos os ofícios humanos. Na hora de enfrentar essa grande e devastadora solidão, cada um tem sua própria receita”, garante Nepumuceno.
 
São muitas as histórias divertidas acerca das manias dos escritores. Truman Capote, de A Sangue Frio, por exemplo, era incapaz de escrever o que quer que fosse sem, antes, certificar-se de que, no lugar onde estava, não havia um único inseto. 
 
Samuel Beckett, de Esperando Godot, por sua vez, precisava ter diante de si uma parede branca – “de uma brancura total, sem manchas, rachaduras, nenhuma sombra”, salienta Nepomuceno – para escrever. 
 
Já Antonio Callado, de Quarup, nunca conseguiu se acostumar aos computadores. Quando sua velha máquina de escrever enguiçou, teve que encontrar outra para continuar a trabalhar.
 
Uma das mais inusitadas, porém, é a do poeta chileno Pablo Neruda. “Neruda era capaz de escrever em qualquer circunstância e em qualquer lugar, de vagões de trem a bares de navio, de cafés ruidosos a bancos de jardim, de quartos de hotel a poltronas de avião, desde que pudesse usar tinta verde e apenas verde”.
 
Na época da Guerra Civil Espanhola, Neruda deixou um poema inacabado porque a provisão de tinta verde acabou. Quando chegou um novo carregamento, dez dias depois, já era tarde. Neruda já havia perdido o fio da meada e o poema não chegou a ser publicado…
 
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