Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.07.2012 31.07.2012

As letras que mudam a história

Por Sarah Correa
 
Ele projetou não somente o símbolo de uma era de inovação. Com a maçã mordida que anunciava um novo paradigma no mundo da computação, nos anos 80 Steve Jobs trouxe ao pobre universo da informática a importância de se pensar no formato das letras. Foi a partir dele que a palavra ‘fonte’ se tornou largamente usada.
Nesta época, pela primeira vez um computador trazia uma ampla variedade tipográfica. O revolucionário Macintosh trazia fontes já conhecidas como a Times New Roman e a Helvética. Porém, apaixonado por design, Jobs apresentou outras formas, como a Toronto e a Chicago – nomes inspirados em cidades que ele amava.
Contudo, apesar da Apple ter entrado para a história da tipografia, houve um extenso caminho percorrido anteriormente por aqueles que utilizavam desde a pena e a tinta para desenhar à mão.
É essa história e outras curiosidades sobre as fontes tipográficas, nascidas oficialmente há 530 anos, que o jornalista e escritor inglês Simon Garfield conta no livro Esse é Meu Tipo.
“Escrever este livro foi, ao mesmo tempo, prazeroso e desafiador. Este tema é muito árido e minha missão foi torná-lo instigante ao leitor. Este trabalho é realmente uma tentativa de explicar as histórias por trás das fontes, quem as criou e de onde elas vieram”, explica Garfield em entrevista ao Saraiva Conteúdo.
UMA INFINIDADE DE TIPOS
Garfield desenrola a origem e a vida das fontes com uma riqueza de detalhes fascinante. Dezenas de passagens ilustram e analisam o porquê de hoje, por exemplo, as placas de sinalização em muitos meios de transporte estarem escritas com a fonte Helvética, a queridinha dos designers. “A Helvética alcançou seu ponto de inflexão e não dá sinais de declínio. Aonde quer que você vá, lá está ela”, escreve o autor.
 
Criada após a Segunda Guerra Mundial, quando a Europa vivia os ecos da modernidade, a Helvética surgiu como o símbolo perfeito para expressar a cultura contemporânea, materializada em símbolos como prédios mais quadrados e funcionais, novas tecnologias e a massificação do transporte coletivo.
 
Foi justamente inscrita nas placas do transporte suiço (a fonte nasceu na Suiça e foi batizada com o sinônimo latino que dá nome ao país, Helvétia) que o alfabeto tomou as ruas.
 
Nos anos 60, ela foi a vedete das marcas, conquistando e mudando até mesmo a identidade da Coca-Cola. Garfield descreve em seu livro que, recentemente, um designer novaiorquino aceitou participar de um desafio, que foi viver um dia sem se deparar com qualquer palavra que fosse escrita com esta fonte.
 
Resultado? O designer não tomou o transporte público, evitou comer qualquer coisa que trouxesse inscrições com o tipo, não pode ler o jornal The New York Times, que trazia tabelas com a fonte, e passou um sufoco ao escolher uma camiseta para vestir, já que a maioria trazia frases escritas em Helvética. Ao final do dia, ele concluiu que respiramos a tal fonte.
 
Uma boa explicação para a popularidade da Helvética, segundo Garfield, é que a fonte “consegue transmitir honestidade e confiança, enquanto seus traços distinguem de tudo que represente autoridade excessiva”.
Outra boa reflexão que Garfield traz em seu livro é a ascensão e queda da Comic Sans. As letras nasceram para serem divertidas e transmitirem uma aproximação com o público, mas fadaram ao fracasso, diz ele.
O uso da fonte inspirou um protesto na internet, no final dos anos 90, quando internautas fizeram um abaixo-assinado para que o tipo parasse de ser usado com tanta banalidade. Contudo, ela foi desenvolvida com boas intenções.
No início, em meados de 90, ela ilustrava os textos explicativos do Microsoft Bob – um software criado para dar mais acessibilidade ao usuário e trazia como mascote um cãozinho, o Bob.
Em Esse é Meu Tipo, o escritor também traça um dos motivos que levaram Barack Obama à presidência dos EUA em 2008: o planejamento visual da campanha. Além de cartazes, ilustrações, presença nas redes sociais, a escolha cuidadosa da tipografia também foi um aliado poderoso do democrata.
Um simples tipo, neste caso, a Gotham, criada em 2000, foi fundamental para comunicar sua visão de governo durante as campanhas. Seu mote trazia as seguintes palavras “Change we can believe in” (em português, ‘Mudança na qual Podemos Acreditar’). Escrita com a impactante Gotham, a mensagem abraçou a Casa Branca.
“Escrever sobre tipografia com certeza me fez perceber porque fazemos as escolhas por certas fontes e todas as palavras que estão ao meu redor”, arremata Garfield.
 
 
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