Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.06.2014 27.06.2014

As lendas europeias pelas mãos de Tolkien

Por Marcelo Rafael

Hoje em dia, é difícil pensar em elfos e não se lembrar do longilíneo Legolas (interpretado por Orlando Bloom) ou de magos medievais e não vir à mente Gandalf (Ian McKellen). Beowulf, o herói escandinavo, apesar de adaptações cinematográficas anteriores, ficou famoso na pele de Ray Winstone, no filme de Robert Zemeckis.
O herói nórdico também foi alvo da pena criativa de J.R.R. Tolkien, o mesmo autor que cristalizou os seres do folclore europeu atualmente associados aos atores dos filmes da franquia O Senhor dos Anéis.
Agora o livro Beowulf – A Translation and Commentary chega ao Brasil em junho, em sua versão original da Harper Collins, editado por Christopher Tolkien, um dos filhos do escritor britânico.
Escrito originalmente em língua anglo-saxã, o poema épico – que narra a história do herói-título e tem origem em uma lenda oral medieval europeia – lança mão de muitas aliterações. Tolkien traduziu a história para o inglês contemporâneo, em 1926, e adicionou comentários para suas palestras sobre o tema.
“Embora [a obra] seja em prosa, ele [Tolkien] tentou trazer para o inglês moderno o conteúdo do poema da forma mais próxima possível do original”, comenta Reinaldo José Lopes, repórter e blogueiro do jornal Folha de S. Paulo e doutor em Estudos Linguísticos e Literários com foco na obra de Tolkien.
Lopes chama atenção também para o conto “Sellic Spell” (“história maravilhosa” em inglês antigo), no qual Tolkien recria a história de Beowulf “como se fosse um conto de fadas tradicional, na linha ‘Era uma vez’ mesmo, dando um efeito de distância mítica”.
O repórter acrescenta ainda que nenhum dos personagens tem nome próprio, e até o protagonista vira algo como um Mogli – criado, porém, por ursos. “Só por isso o novo livro já vale a pena”, diz.
Com Beowulf e suas outras obras, Tolkien ajudou a sedimentar algo que já fazia parte do inconsciente coletivo europeu: a lenda do dragão com um tesouro escondido. Em seus comentários na nova obra, Tolkien analisa que a lenda do herói estrangeiro que chega da Dinamarca para livrar uma tribo sueca do dragão e dos monstros que a afligem é muito mais do que uma simples alegoria.
Assim como em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis, o tesouro escondido em Beowulf não é apenas uma mera “riqueza afortunada que trará prosperidade ou o casamento com a princesa a quem achá-lo”, segundo comenta Tolkien. É algo sombrio, sinistro e cruel que remete às lendas pagãs da Idade Média.
As inspirações do autor britânico para os seus textos são inúmeras. “Ele conhecia várias línguas e mitologias europeias como a palma da mão”, comenta Lopes. Mas sua importância na fixação de lendas foi tardia se comparada a outros que lideram com os chamados “contos de fadas” no século XIX, como os irmãos Grimm na Alemanha e Charles Perrault, na França.
“O grande diferencial de Tolkien foi pegar esses dados [lendas e mitos] e não apenas registrá-los ou dar a eles o formato de contos de fadas tradicionais, mas usá-los como inspiração para uma mitologia ou ciclo de lendas totalmente novo, com aspirações literárias e épicas”, explica o doutor em Estudos Linguísticos e Literários.
No caso da lenda de Beowulf, Tolkien retirou cenas e até palavras do poema para transformá-las em partes importantes de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. “Beorn, de O Hobbit, é muito parecido com o herói Beowulf, e o nome dos dois quer dizer ‘urso’ em inglês antigo. O palácio de Heorot em Beowulf é quase idêntico ao do rei Théoden de O Senhor dos Anéis”, explica o especialista.
 
A capa do novo livro e o herói Beowulf na pele de Ray Winstone
Posteriormente a Tolkien, veio a comunicação de massa. Assim, os desenhos da Disney e séries como Harry Potter, de J.K. Rowling, ajudaram a dar outras caras a príncipes, princesas e monstros como trasgos e basiliscos.
No Brasil, a transformação de lendas e mitos ocorreu de forma sutil, graças a autores como Monteiro Lobato. “Mas ele dedicou a esses temas uma parte muito pequena de sua obra: em O Saci, por exemplo, em O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules”, acrescenta Lopes.
Para ele, não há nada na literatura nacional que se compare ao trabalho de Tolkien, porque o interesse por lendas e folclore, a seu ver, é menor aqui no Brasil do que lá na Europa. Além de Lobato, ele enxerga também em Guimarães Rosa um autor “capaz de criar esse sabor mítico em seus textos, mas obviamente por um ângulo totalmente distinto do que vemos em Tolkien”.
Seja aqui, na Europa, nos EUA, na África ou no Extremo Oriente, mitos e lendas vão sempre se reinventando e dando fôlego a novas histórias. Por mais que a Cuca e o Saci de Lobato, a Cinderela e o Gato de Botas de Perrault ou os Orcs e Halflings (Hobbits) de Tolkien não sejam os únicos da literatura, eles contribuem para que histórias fantásticas – criadas de algum modo, não se sabe muito bem como nem quando – continuem sendo ditas, ouvidas, escritas e lidas, encantando geração após geração.
 
 
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