Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.11.2012 21.11.2012

As diversas faces do suicídio

Por Juliana Welling
 
Nove jovens universitários da elite carioca decidem participar de uma roleta-russa. O cenário marcado para a realização do suicídio coletivo é o porão de uma mansão em Minas Gerais, e o predominante mistério deste romance policial é: o que levou esses jovens a se matarem? A dúvida persegue o leitor até as páginas finais de Suicidas (Benvirá – Série Negra), livro de estreia do escritor carioca Raphael Montes, lançado em setembro.
A obra foi finalista do 1º Prêmio Benvirá de Literatura da Editora Saraiva, com quase dois mil inscritos, e atualmente é a única produção literária brasileira que integra a Coleção Série Negra da Benvirá, dedicada aos romances policiais.
Nesta entrevista ao SaraivaConteúdo, Montes conta que, para escrever o livro, fez uma extensa pesquisa a respeito do tema. O desafio, segundo o autor, foi tentar abordar os vários tipos de suicídio e as suas inúmeras possibilidades.
Cursando o último ano de Direito na UERJ, Montes diz que deverá lançar um romance policial por ano, mas sem repetir a fórmula de Suicidas ou de qualquer outra obra que venha a publicar. “Vou entregar o próximo livro, Dias Perfeitos, no final deste ano para ser publicado em 2013. Quero fazer diferente sempre”, afirma.
Como foi o processo de criação de Suicidas?
Raphael Montes. Demorei três anos escrevendo Suicidas, de 2006 a 2009. Quando comecei, estava com 16 anos. A ideia de escrever essa história surgiu de uma conversa com um amigo, que queria fazer cinema. Ele pediu para criar um roteiro para ele filmar. Então comecei a fazer um roteiro policial, com personagens jovens, em um local fechado, com cenas bem visuais e nada de efeitos especiais para que o orçamento saísse mais em conta. Imaginei esses jovens e quais coisas poderiam fazer nesse local. Como se trata de uma história policial, teria de existir morte. No início, pensei em criar um personagem matando os jovens. Mas se fizesse isso, viraria um clássico do gênero, aquilo que sempre é feito. Então pensei em fazê-los se matarem, e o mistério do livro policial seria o motivo do ato. Foi a partir daí que comecei a estudar e a pesquisar a respeito do tema “suicídio”.
E o que você descobriu?
Raphael Montes. Nunca sabemos de fato por que uma pessoa se matou. Podem existir especulações, mas uma certeza não há. Nas pesquisas, descobri pessoas que se mataram por motivos racionais, emotivos (o mais comum), por circunstâncias relacionadas à homossexualidade, gravidez, excessiva pressão psicológica, além da depressão. Fui colocando todas essas características nos personagens. Achei também uma matéria de um menino do Rio Grande do Sul, de 15 anos, que tinha se matado através de um site de incentivo ao suicídio. Ele se enforcou na frente da webcam. E eu vi esse vídeo e também consegui visitar esse site. Resolvi que tinha de colocar esse capítulo no livro. É o meu favorito.
Nesse capítulo, o Alessandro, um dos personagens do livro, conversa pelo chat com um participante ao visitar esse website. Isso de fato aconteceu?
Raphael Montes. Não. Aquilo é ficção. O tema da pedofilia também. Não conversei com ninguém. Só percebi que o site funcionava naquele esquema de chat, e havia a possibilidade de ligar a webcam ou conversar reservadamente. Esse capítulo é o mais inútil em termos de trama, porque não a faz andar, mas é o meu favorito, porque acho surreal que exista um website de incentivo ao suicídio. É brincar de Deus, como está descrito no livro.
Suicidas conta com três narrativas: uma é a gravação da reunião com as mães dos jovens; a outra é a leitura de um diário que relata os suicídios em tempo real; e a última revela as anotações cotidianas do Alessandro. Desde o começo a história foi pensada dessa forma?
Raphael Montes. Escrevi Suicidas como um roteiro. As cenas foram pensadas diante dessa perspectiva, tanto que o livro é bem visual. Mas ficou muito ruim. Então decidi escrever o livro, porque é o que sei fazer. No começo, o Alessandro era um cineasta frustrado e não um escritor. Ele filmava as mortes e não as escrevia. Mas no roteiro também já havia a questão das mães. A terceira e última narrativa, com as anotações do Alessandro, surgiu porque precisava de uma narrativa para apresentar os personagens no livro.
Em relação aos personagens, você se inspirou em pessoas reais?
Raphael Montes. Na verdade, tenho elementos com os quais quero trabalhar, como o personagem portador da Síndrome de Down, por exemplo, ou abordar o tema da sexualidade, com personagens gays, bissexuais. Também tinha interesse em escrever sobre a necrofilia. Em Suicidas, acho que consegui traduzir uma necrofilia razoável. Você pode ter aversão, mas consegue compreender o que está acontecendo. Por isso criei um personagem apaixonado por outro. Já o personagem do Alessandro é um pouco parecido comigo. O Zak foi quase um desafio, porque é o tipo de pessoa de que eu não gosto. A Ritinha é o tipo de mulher que me atrai. E o Lucas é um clichê visual de uma pessoa depressiva. Gosto também de abordar deficiências no geral, acho desafiador e interessante tentar compreender o que se passa na cabeça dessas pessoas.
 
Suicidas é a única produção literária brasileira que integra a Coleção Série Negra, da Benvirá
Suicidas também traz passagens que procuram retratar a juventude atual e a convivência entre mães e filhos. Esses enfoques foram propositais?
Raphael Montes. Não. Criei a passagem com as mães porque gosto dessa coisa de ir e voltar no tempo. Tem uma história de reviravolta, da dor e de como as sociedades encaram as mães. Elas sempre são culpadas e se culpam também. Tratei dessas questões familiares, mas não foi o objetivo do livro. Meus personagens são jovens, porque é o que eu vivo. Meu livro nunca será, pelo menos por enquanto, sobre um casal de 40 anos que está se separando. Não passei por isso ainda, não sei o que é. Já me perguntaram também se eu era homofóbico, por conta do personagem do Otto. Tem gente que fala: “O Otto não merecia aquilo”. Acho ótimo. Uma oportunidade de mostrar como a homofobia é uma babaquice. Coloco na história um personagem gay e um homofóbico e mostro como eles convivem. E cada leitor tira a sua conclusão.
A sua meta é escrever apenas romances policiais?
Raphael Montes. Acho difícil prever isso. Comecei escrever um infantojuvenil agora, que traz uma história de mistério estilo Pedro Bandeira. Também tenho um de terror pronto, que se chama O Vilarejo. A minha meta é lançar um policial por ano. Mas, paralelamente a isso, há esses outros projetos. Vou entregar o próximo livro, Dias Perfeitos, no final deste ano para ser publicado em 2013.
Como será a história de Dias Perfeitos?
Raphael Montes. Dias Perfeitos é narrado em terceira pessoa. Ao contrário de Suicidas, a trama é linear, tem apenas dois personagens e conta a história de um amor obsessivo. Um rapaz recluso, estudante de Medicina, se encanta por uma garota que estuda História da Arte e é uma verdadeira “porra louca”. No livro, ela conta que está fazendo um roteiro chamado Dias Perfeitos, em que duas amigas viajam pelo Brasil. De uma forma pouco ortodoxa para conquistá-la, ele decide sequestrá-la, dá sedativo a ela e resolve fazer a tal viagem. O livro é um roadbook, e o título (além da referência a uma passagem final de Suicidas) é o nome do roteiro dela. Para ele, são realmente Dias Perfeitos. É um suspense psicológico na visão de um psicopata. Quero fazer diferente sempre. Isto é, sempre escrever um livro policial bom, original, que leve a minha identidade, mas que não repita a fórmula de Suicidas e de nenhum outro.
 
 
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