Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.03.2012 15.03.2012

As cores e formas da ilustradora Ionit Zilberman

Por Andréia Silva
Tel Aviv, Israel. Primeiro era o gosto pelos bloquinhos de papel em branco que, após serem rabiscados, revelavam uma imagem, ou então a brincadeira de fechar os olhos e deixar a mão solta criar seu traço para ser surpreendida pelo resultado.Qual imagem seria revelada? Poderia ser um peixe, um pássaro, uma paisagem. Qualquer coisa.
 
Anos depois, São Paulo, Brasil. Sobre a mesa de trabalho, tinta acrílica, nanquim, papelão, embalagem de comprimidos, esmalte, sombra… Tudo misturado para dar vida e cara a histórias e palavras.
 
Embora tenha começado na ilustração infantil em 2005, a relação de Ionit Zilberman com essa arte começou lá na infância, em Tel Aviv, onde nasceu e morou até os seis anos de idade, quando se mudou para a capital paulista, onde está até hoje.
"Durante algum tempo, logo que cheguei aqui, desenhava continuamente uma árvore dividida ao meio, metade coqueiro, metade laranjeira. Do lado do coqueiro, uma baiana de saias brancas, do lado da laranjeira, um menino vestindo roupas do kibutz. Não sei se aquilo era uma imagem de criação minha ou uma 'sugestão' de alguma professora da escola. Só sei que grudei nesse desenho, e ele passou a representar, por um tempo, como eu me sentia. Não identifico, hoje, algum traço regional no meu trabalho, mas certamente minhas memórias estão nele presentes, sempre", diz ela em entrevista ao Saraiva Conteúdo.
 
De lá pra cá, Ionit se tornou um dos principais nomes no Brasil quando se fala de ilustração infantil, compondo imagens para cerca de 30 livros. O que começou como interesse despretensioso de uma criança pela poesia do traço e das imagens, hoje ela devolve aos pequenos, na tentativa de promover o mesmo encantamento.
 
"Os livros infantis foram uma espécie de ponte pra mim, uma ponte que ligava Tel Aviv a São Paulo. Minha irmã costumava enviar livros junto com fitas K7 onde ela contava a história. Me lembro até hoje das vozes e da entonação com que ela imitava personagens. Foi a forma que ela encontrou de construir um laço comigo, à distância; um laço forte e duradouro. Depois, aos 19 anos, fui trabalhar numa livraria, a Klaxon. Foi aí que pirei com os livros infantis. Paixão total. Decidi o que queria fazer", conta ela.

Mas nada foi tão simples assim. Primeiro, ela passou algum tempo criando vinhetas de livros de receitas e um longo período ilustrando revistas, até ilustrar seu primeiro livro infantil. Essa primeira experiência ela diz ser inesquecível.

Ilustração de O Zelador dos Sonhos, com texto de Regina Gulla sobre a separação dos pais
"Foi super difícil de fazer, e o resultado ficou bem ruim. Mas é legal ver a evolução do meu trabalho. Minha maior dificuldade foi desenvolver o personagem, fazer com que fosse sempre o mesmo, que pudesse ser identificado. Além disso, ainda não tinha um traço, um estilo. Cada desenho era diferente do outro. Faltava coerência", conta.
 
Com o tempo e a prática, os bons resultados vieram. Os trabalhos de Ionit chamam atenção pela vida que o desenho ganha, próximo de uma animação. Isso tudo em uma simples folha de papel.
 
Em Zoo Zureta (Cia das Letras), com poemas em homenagem aos animais escritos por Fabrício Corsaletti, as ilustrações de Ionit compõem uma espécie de teatrinho de marionetes.
 
Em uma caixa vazia, por exemplo, com dois apoios no alto, ela pendura peças – sejam personagens ou objetos –, coloca outros elementos e escolhe os fundos, montando um "palco" para cada poema.
 
Há ainda a série feita em parceria com Ilan Brenman com os livros As 14 Pérolas da Sabedoria Judaica, As 14 Pérolas Budistas e As 14 Pérolas da Índia, e também as histórias da pequena Laura (em Pai, Todos os Animais Soltam Pum?) e Silvinha (em A Cicatriz), ambos do mesmo autor.
 
Personagem de Dentro Deste Livro Moram Dois Crocodilo
Pessoalmente, ela diz preferir as histórias infantis mais universais, "aquelas onde qualquer um pode se identificar, independente da idade".
 
Um recente trabalho, Dentro Deste Livro Moram Dois Crocodilos, traz um apavorado garotinho que morre de medo de crocodilos, com texto de Claudia Souza.
 
Nesse livro, todos os materiais usados pela artista ficam bem à mostra e, a cada virada de página, a impressão é que os desenhos vão sair do papel e ganhar forma.
 
"Uso materiais muito diversificados. Quase tudo serve. Faço pintura com tinta acrílica, aquarela, nanquim a bico de pena… Agora quero usar pastel oleoso no próximo livro. Faço colagem com papéis, tecidos, lampadinhas, folhas, flores, tecido, embalagem de comprimido, caixinha de fósforo. Às vezes, faço objetos em papelão. Já fiz um mar de papel de seda com os personagens de papelão dentro e nuvens de algodão penduradas com fio de náilon… Na maior parte das vezes, isso é fotografado e assim passa para o papel", conta Ionit.
 
Para cada trabalho, o processo entre autor e ilustrador é diferente. "Cada texto pede um tratamento distinto. Pode-se ilustrar utilizando imagens que o próprio texto oferece (às vezes elas são irresistíveis), ou então dialogando com ele de outra forma, completando, interpretando, oferecendo histórias paralelas".
Entre seus próximos trabalhos estão os livros Quem é Ela?, com texto de Eliane Pimenta, pela editora Brinque-Book, e o recente A Ervilha que Não Era Torta…, com texto de Maria Amália Camargo, pela editora Caramelo. 
Ilustração de Vovó Virou Bebê, com texto de Renata Paiva
 
Outro fruto da parceria com Brenman também está a caminho, assim como um livro com a escritora Kiara Terra, pela Cia das Letras. Este último, baseado em uma história da própria Ionit, misturando a polaroide de seu pai.
“A história é sobre a polaroide do meu pai e sobre os pais que não são de 'nascimento'. E também sobre o efeito mágico que exerce uma imagem que aparece no papel, e como isso foi motor do meu processo criativo. Meu pai dizia que a máquina era mágica, e que bastava dizer as palavras mágicas para que a imagem aparecesse”, conta.
Mais detalhes das histórias que vão ganhar formas e cores, no entanto, ela ainda não revela. Talvez para preservar o gosto da surpresa.
 
 
 
Recomendamos para você