Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 17.02.2014 17.02.2014

As composições de Ary Barroso

Por Zaqueu Fogaça
 
Umas das figuras de maior relevo da música popular brasileira, Ary Barroso (1903-1964) deixou uma obra extensa, resultado da versatilidade que tinha para se expressar nas mais diversas linguagens: de locutor esportivo a roteirista de radionovela, passando por apresentador de programa de calouros, político e letrista prolífico.
No entanto, o autor de “Aquarela do Brasil” teve sua imagem retida no imaginário popular pela rigorosidade demonstrada ao comandar o programa Calouros em Desfile. Mas por trás dessa figura geniosa havia um homem irreverente, que, como locutor esportivo, preferia trocar o tradicional grito de gol pelo som estridente de uma gaita.
Neste mês, o artista mineiro é relembrado pelos 50 anos de seu falecimento, e sua obra é celebrada com a caixa Ary Barroso – Brasil Brasileiro (Novodisc), que reúne 316 fonogramas originais, compilados em 20 discos, e mais um livro que organiza todos os dados referentes à discografia do artista.
Nos bastidores desse resgate histórico está o pesquisador paulista Omar Jubran (60), que dedicou 12 anos a essa empreitada, divididos entre exaustivas pesquisas a fim de levantar e reunir as canções do artista, que se mantinham espalhadas e sem registros, e todo o processo de remasterização, realizado pelo próprio pesquisador de maneira autodidata.
Na entrevista a seguir, Omar Jubran fala sobre o resgate da obra de Ary Barroso e explica por que o considera um dos três pilares da música brasileira.
A caixa Ary Barroso – Brasil Brasileiro é resultado de 12 anos de trabalho. Como se deu o processo de resgate dessas canções?
Omar. Quando decidi fazer esse projeto, me deparei com um agravante a mais em comparação com o trabalho semelhante que fiz com Noel Rosa, chamado Noel Pela Primeira Vez. Isso porque não havia um registro pronto da discografia do Ary Barroso. Para levantar a discografia, além da ajuda de colecionadores, pesquisas em sebos e no meu próprio acervo, tive a sorte de conhecer um senhor ex-alfaiate, chamado Brasílio de Carvalho, que adorava Ary Barroso e me ajudou muito.
Toda a obra foi remasterizada pelo senhor. A que se deve essa decisão?
Omar. Remasterização é um processo muito delicado, pois retirar, hoje em dia, um chiado ou um estalido de um disco antigo é muito fácil, mas se você abusar, perde-se o timbre da gravação original. Por isso, algumas canções que integram essa caixa apresentam alguns chiados; caso contrário, o som original seria alterado. Eu também preferi assim para conferir um tom nostálgico, para que a pessoa compre a caixa como se tivesse passado em uma loja da década de 30 e comprado naquela época.
Qual o lugar ocupado por ele na música popular brasileira?
Omar. O Ary Barroso integra, junto com Noel Rosa e Lamartine Babo, os três pilares da música brasileira, pois mudaram sua lírica, deixando-a mais alegre. Anteriormente, as músicas eram tristes; se o sujeito estava apaixonado, ele se matava pela mulher, era tudo melancólico e sombrio. Noel inaugura essa lírica alegre, e Ary Barroso faz a mesma coisa, mas com uma linguagem mais rebuscada. Quando você ouve uma canção como “Três Lágrimas”, na qual Ary canta que chorou três vezes na vida, por mais que seja triste, você sai assobiando; [a música] não deixa aquela melancolia.
 
A caixa Ary Barroso – Brasil Brasileiro (Novodisc), que reúne 316 fonogramas originais, compilados em 20 discos
Ary Barroso ficou conhecido por ser rigoroso. Há outras facetas dele nessa caixa?
Omar. Culturalmente, ele é um nome de respeito. Tom Jobim respeitava Ary Barroso como um dos pilares da música para ele. Nessa caixa é possível entrar em contato com um Ary triste, alegre, gozador, irônico, entre outras facetas. Ele tem seu lado repórter, seu lado exaltação, seu lado intimista, seu lado carnavalesco. Eu considero o Ary o primeiro artista multimídia do Brasil, porque ele foi compositor, letrista, poeta, músico, político, radialista, apresentador de programas de calouros e locutor esportivo.
De que maneira a versatilidade de Ary Barroso se faz presente nas composições?
Omar. Por ser um músico de formação, pianista, ele revolucionou nas suas melodias, sendo reconhecido mundialmente. Ele foi um artista muito versátil. Nas primeiras páginas do livro que integra a caixa, eu fiz uma estatística de gêneros usados por ele. São eles: balada, batuque, canção, cateretê, choro, fantasia, foxtrote, mazurca, além das diferentes variações de samba, entre outros. Isso mostra o quanto ele era eclético.
Durante esses 12 anos dedicados ao Ary Barroso, quais foram as maiores surpresas encontradas?
Omar. Foram duas as coisas que mais me surpreenderam. A primeira foi me deparar com a versatilidade desse artista. E a outra, em termos de pesquisa, foi encontrar na coleção do Brasílio uma partitura incompleta da autoria de Ary, intitulada “Amor Fatal”. Levei-a para outro amigo músico e ele me disse que era um foxtrote. Esse amigo chamou a pianista Janete Alonso, e a música foi gravada para integrar a última faixa do último CD, uma gravação instrumental feita em abril de 2006. Dessa forma, conseguimos resgatar essa música que praticamente ninguém conhece.
Após tantas décadas, o que de atual podemos encontrar na obra dele?
Omar. Eu acho que o Ary se mantém atual em praticamente 80% de sua obra, mas, de certa forma, tudo traz algo de atual. Agora, o que eu considero fundamental nesse resgate é proporcionar, às pessoas que já gostam do Ary, conhecer coisas novas e ensejar regravações para apresentar Ary Barroso às novas gerações.
Quais os próximos artistas que pretende resgatar em trabalhos semelhantes?
Omar. Tenho dois trabalhos finalizados: a obra do Lamartine Babo e a história do carnaval brasileiro, ambos à espera de patrocínio. Este último vai de 1899, quando Chiquinha Gonzaga compõe “Ô Abre Alas”, até meados de 1980, quando as composições para carnaval diminuem. No total, serão 30 CDs, com livros e 420 músicas.
 
O pesquisador Omar Jubran
 
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