Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 07.12.2009 07.12.2009

As antologias de Heloisa Buarque

Heloisa Buarque de Hollanda tem mais de 45 anos de magistério, onde construiu uma carreira singular. Agora, ela lança o livro Escolhas: uma autobiografia intelectual pelas editoras Língua Geral e Carpe Diem, onde é possível conhecer seu percurso que acompanha nomes e fatos importantes do pensamento e da arte do século XX. A obra se destaca também pelo seu hibridismo, mistura de ensaio e autobiografia, apego à tradição e ao futuro.

> Assista à entrevista exclusiva de Heloisa Buarque de Hollanda ao SaraivaConteúdo

Leia  a seguir um trecho da introdução de Ramon Mello, que organizou o livro, além de outro trecho de Escolhas, onde Heloisa comenta sobre as antologias que organizou.

HELÔ 7.0

Por Ramon Mello

“O que leva uma renomadaprofessora de setenta anos, com mais de quarenta e cinco anos de magistério,entregar a organização de sua biografia a um jovem poeta?”, foi o que meperguntei ao longo da organização deste livro. E ainda busco a resposta.

Através da poeta Maria Rezende edo cineasta Murilo Salles, tive o privilégio de conhecer a professora HeloisaBuarque de Hollanda, num debate sobre o universo dos blogs, o Blografias. Aocasião não poderia ser mais adequada, já que se trata de uma intelectualinquieta, curiosa com a produção contemporânea.

A certeza do nosso encontro (enão de um esbarrão) fez com que a confiança mútua resultasse numa profícuatroca de idéias. Logo trabalhamos juntos. Primeiro no Portal Literal e depoisna realização de ENTERantologia digital. Com um misto de medoe admiração, tive a ousadia de propor a Heloisa Buarque a publicação de umabiografia intelectual no ano de comemoração de seus setenta anos. Semhesitação, Helô aceitou.

Por sugestão do escritor BernardoCarneiro Horta, biógrafo de Nise da Silveira, apresentei a idéia ao editor daLíngua Geral, Eduardo Coelho, responsável pela estruturação do projeto. Escolhas — título criado por Heloisa — éum livro-memória sobre a trajetória da mais “antenada” intelectual brasileira.Uma “contemporânea da contemporaneidade”, como bem a definiu Luiz Ruffato.

A primeira parte do livro écomposta pelo memorial apresentado por Heloisa Buarque ao departamento deTeoria da Comunicação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Riode Janeiro para o concurso de provimento do cargo de professor titular no setorTeoria Crítica da Cultura, em 1993. Através de uma narrativa biográfica,Heloisa passeia por fragmentos de memórias para estruturar formalmente seutrajeto intelectual. Episódios de infância, a relação com os livros, as aulas,tudo é esmiuçado com rigor e afeto.

E a segunda parte é um textoatual de Heloisa, escrito a partir de mais de oito horas de entrevistasrealizadas em seu apartamento no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Osencontros foram aulas sobre cultura brasileira — a cada dia uma descoberta,fragmentos da memória aos poucos se transformavam numa emocionante história. Uminesquecível aprendizado. Por fim, a conversa serviu apenas como guia do textofinal que Heloisa escreveu para o segundo capítulo de sua biografia,revisitando pontos importantes do memorial e analisando os temas que estãodespertando seu interesse, principalmente a internet e a periferia.

 


ANTOLOGIAS, SINTOMA, PREGUIÇA OU COMPULSÃO?

Por Heloisa Buarque de Hollanda

(…)

A poesia para mim tem múltiplasfunções, entre elas, a função de I Ching. Quando tento compreender novastendências ainda mal definidas, novos ethos emergentes, paro tudo e leio os poetas emergentes. É provável que o própriodesprestígio da poesia como valor de mercado permita que os poetas arrisquemmais, vejam mais longe. Sem nada a perder, sem muito a ganhar, os poetas ganhamem liberdade e lucidez. E, como o eixo de meu trabalho sempre foi a identificaçãoe a análise de micro-tendências do horizonte cultural e intelectual, a poesiapode ter se tornado um instrumento operacional interessante para esse trabalho.

Mas será que as minhas antologiassão mesmo instrumentais? Provavelmente não. A eleição do campo criativo dapoesia como objeto principal de trabalho deve ter mais variáveis em jogo.Talvez o risco envolvido na identificação de novas dicções e projetos poéticostambém me atraia. Esse tipo de trabalho oferece uma margem de erro grande. Oque torna uma antologia sobre poetas emergentes um tipo de jogo de sorte.

Mas talvez tenha sido também oimpacto do lançamento do 26poetas hoje (Aeroplano) que me tenha inoculado o vírus de antologista.A poesia marginal, ou qualquer outro nome que ela possa ter, havia surgido emmeados dos anos 1970 ligada ao rock, que, num quadro de repressão política,tornou-se um dos únicos canais possíveis para a expressão do que então sechamava a geração AI-5. Essa poesia surgiu com todos os traços dacontracultura, trazendo um tom irreverente e de interpelação, recusando osistema de produção e distribuição editoriais, desafiando a tradição literária,trabalhando e vivendo em cooperativas. Como, no caso brasileiro, o panoramapolítico era substancialmente diverso daquele da contracultura européia enorte-americana, rapidamente os movimentos culturais a ela ligados viraram oespaço de expressão de uma geração marcada pelo medo e pelo silêncio.

Como já mencionei há algumaslinhas, a poesia não é uma forma de arte que tenha um impacto público significativo.Assim, ao contrário da imprensa, da TV, do cinema, teatro e música, a poesianão conheceu integralmente a mão pesada da censura. Especialmente a nova poesiaque vendia de mão em mão, publicava em folhas mimeografadas e circulava fora damídia. Com uma relativa facilidade, os poetas começaram a reunir em torno de siuma respeitável massa de jovens interessados em rock’n’roll e poesia falada.

(…)

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> Confira o site da professora, pesquisadora e editora

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