Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 28.11.2011 28.11.2011

Artistas com problemas psiquiátricos se expressam melhor nas artes?

por Luma Pereira

Na Idade Média, acreditava-se que os doentes mentais tinham uma pedra na cabeça que precisava ser retirada. O quadro do pintor flamengo Hieronymus Bosch, porém, mostra uma tulipa sendo removida da cabeça de um paciente.

Foi assim que eles ficaram conhecidos como “cabeças de tulipa”. Entretanto, além de fazer com que os pacientes tenham crises psiquiátricas, a flor parece ter outro efeito até hoje ainda misterioso para a ciência.

Artistas com problemas psiquiátricos se expressam tão bem nas artes que essa questão é objeto de pesquisas no mundo todo. São inúmeros os exemplos na literatura, na música, na pintura.

“A noção de que a genialidade e a loucura estariam intimamente relacionadas remonta a mais de 2000 anos”, afirma Suzana Azoubel, psiquiatra Supervisora da Residência de Psiquiatria do Hospital Ulysses Pernambucano.

“Porém, só recentemente as pesquisas passaram a ter o rigor necessário para que recebessem devida credibilidade”, diz. Não há uma prova incontestável de que tal ligação exista, mas sim evidências que se acumulam e sustentam a teoria.

Loucos de tulipa

Virginia Woolf, Vincent Van Gogh, Robert Schumann, Friedrich Nietzsche e Francisco de Goya. E casos brasileiros, como Ernesto Nazareth, José Joaquim de Campos Leão, Lima Barreto, Arthur Bispo do Rosário e Rodrigo de Souza Leão.

O que todos esses artistas têm em comum? O fato de terem problemas psiquiátricos e muita criatividade. O escritor Lima Barreto foi diagnosticado com neurastenia e sofria de depressão. Bispo do Rosário, artista plástico, tinha esquizofrenia-paranóide e foi internado em hospitais psiquiátricos.

Nesse período de isolamento, começou a tecer, com fios de sua própria roupa, o Manto da Apresentação, que tinha a intenção de vestir no dia do Juízo Final. Fazia trabalhos com lixo e sucata, à moda do Pop Art de Andy Warhol, embora sem consciência disso.

Dizia sobre a loucura: “Os doentes mentais são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão”. Em O Senhor do Labirinto (Motta, 2010), Flávio Bauraqui interpreta Bispo do Rosário – e, de novo, o cinema empresta esse tema do gênio louco.

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Nos episódios de crise, Virginia dizia estar “mergulhada em águas profundas”. “Ela era bipolar e alternava períodos de melancolia a outros altamente criativos e saudáveis”, conta a psiquiatra. É considerada uma das principais escritoras da literatura inglesa.

O poeta brasileiro Rodrigo de Souza Leão foi internado várias vezes em clínicas psiquiátricas devido às crises que tinha, até morrer vítima de um ataque cardíaco, em 2009. Costumava dizer que o mundo estava pequeno demais para ele.

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Vincent Van Gogh foi interpretado por Gero Camilo na peça A Casa Amarela. O pintor, dono de um enorme talento para as artes, tinha problemas psiquiátricos e chegou a cortar um pedaço da própria orelha num das crises.

“Esses indivíduos, em geral, são mais reativos emocionalmente, e essa intensidade afetiva também corroboraria para a produção de idéias inovadoras e para o talento na música, literatura e artes plásticas”, afirma Suzana.

Loucura no cinema

Mas não foi apenas a ciência que percebeu o fato, ele já fazia parte também do senso comum. “Indivíduos que fogem dos padrões costumam ser chamarizes para a fantasia popular em todas as sociedades”, acredita a psiquiatra.

A imagem de “gênio louco” é tão atraente que foi retratada na Sétima Arte. “O cinema pode representar artisticamente indivíduos geniais que têm problemas graves, basta fugir dos estereótipos e das simplificações”, diz Carlos Gerbase, cineasta brasileiro.

As Horas (Daldry, 2001) conta a vida de Virginia Woolf, mostrando os períodos de crise e de produção artística da autora – o sofrimento e a escrita. Borboletas Negras (Oest, 2011) fala de Ingrid Jonker, poetisa sul-africana maníaco-depressiva.

Para Gerbase, o cinema é uma poderosa máquina de imaginar e representar o mundo. E os problemas psiquiátricos fazem algo parecido com o paciente, que vive “outra vida”, imaginada.

“Isso explica o fascínio dos cineastas pelos doentes mentais: os primeiros usam a imaginação para criar um universo, e os segundos são ‘usados’ por ela e vivem num outro mundo”, comenta o cineasta.

“Nossa atenção é atraída pelo novo, pelo exótico, pelo diferente. O apelo dramático é bem mais forte do que o de retratar um ser genial que, de resto, seja igual a qualquer outra pessoa com quem se cruze na rua”, afirma a psiquiatra.

Com ou sem tulipas?

“Aqueles que se destacam por seus talentos ao ponto de serem tidos como gênios nos intrigam e instigam a buscar explicações para tal”, comenta Suzana.

Mas a genialidade pode ser resultado de outros fatores, como a hereditariedade. “Ser ‘louco’ – entre muitas aspas – não é condição sine qua non para a eminência”, completa.

A artista plástica contemporânea Kim Noble sofre de transtorno dissociativo. Foi abusada sexualmente na infância e, para se proteger dessas lembranças, sua mente se fragmentou em diversas personalidades – 14 das quais são pintoras de estilos diferentes.

“Mas não há, que seja de meu conhecimento, associação leiga ou científica entre transtornos dissociativos e aumento de criatividade”, afirma Suzana.

Não se sabe se existe de fato uma relação entre problemas psiquiátricos e a genialidade – há muitos estudos e evidências. Talvez não sejam as tulipas da Idade Média que fornecem esses talentos, mas, que esses artistas são especiais, isso é inegável.

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