Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.10.2010 19.10.2010

Arthur Omar, de volta a outro Afeganistão

Por Bruno Dorigatti
Fotos de Arthur Omar

 

Arthur Omar esteve no Afeganistão. Não agora, mas no começo de 2002, tão logo o país foi ocupado pelos Estados Unidos após o 11 de setembro, em 2001. Quando efetivamente começava o século XXI. É fato que após os bombardeios, iniciados em outubro e que duraram pouco mais de um mês, aquele era é um momento de “suspensão das hostilidades”, como o próprio artista define. Embora se tratando de Afeganistão, não custa ressaltar que, dadas as condições a que está submetido o povo afegão desde o final dos anos 1970, quando ocorreu a invasão soviética, hostil e escasso são adjetivos que desde então têm sido associados àquele distante país asiático que tem se tornado mais próximo de nós, ainda que pelos lugares comuns através do noticiário rasteiro, sempre relacionado à guerra, à violência, ao comércio de ópio etc.

O convite para visitar o país foi feito pela Bienal de Artes de São Paulo e a missão era recuperar um pedaço das enormes estátuas do Buda que existia até março 2001, na região central do país, em Bamiyan, antes de ser implodida pelos Talibans. Mais que isso, o livro editado agora pela Cosac Naify, Viagem ao Afeganistão, refaz a trajetória de Omar, e revela o país que pouco vemos e temos acesso aqui do outro lado do mundo ao reunir 600 das 1.800 imagens tratadas, recombinadas e ampliadas. Retratos de homens, mulheres, crianças, senhores encarando a câmera, curiosos, atenciosos, ternos até, sorridentes ou compenetrados. Homens com o rosto maquiado, as unhas pintadas, mulheres fortes, algumas com véu, burca, outras sem medo de encarar a câmera, num momento em que a recusa de usar a burca poderia ser fatal, um homossexual corajoso o suficiente para mostrar a cara em um país onde o preconceito toma ares de cultura (seja contra eles ou contra as mulheres). 

Conhecemos também outra Cabul, com seus açougues, peixarias e floriculturas ao ar livre, lambe-lambes e estúdios fotográficos que enchem uma rua inteira (não custa lembrar que os talibans haviam proibido a fotografia, assim como a escola para meninas), um menino que vende papel higiênico rosa em uma bandeja e outro que procura passar adiante um caixa de BP-5, compact food ou, como explica a tradução em espanhol (e francês, árabe…) “ración de emergencia”. Claro que a o cenário de destruição procura engolir tudo, tomar conta das imagens, até pela associação primária que fazemos com o país, aquilo que nosso cérebro procura instintivamente por já saber que vai encontrar. São prédios, casas encharcados de bala, desmoronados ou quase. São tanques em posição de defesa ou enferrujados, servindo de cenário para as crianças brincarem. São armas e munição, postas de lado para um dos momentos da oração diária. Porém, Omar transpassa este olhar e nos traz cenas cotidianas, ainda que neste cenário penoso, como as orações sufis, o buzcachi, jogo de combate entre cavaleiros disputando uma carcaça de bode decepada, origem do elitista jogo de pólo, e uma apresentação teatral, a princípio realizada especialmente para o comboio, que acabou sendo tomada pelas crianças, sobretudo meninas, de uma escola próxima. 

Para ele, um dos momentos marcantes da viagem: “Era a segunda vez que o grupo teatral se apresentava. Em princípio, era só para a gente, mas as crianças das escolas locais se juntaram ali – era basicamente uma escola de meninas – e foram invadindo as ruínas do teatro, que já não tinha teto, estava totalmente destruído, bombardeado. E as pessoas foram se reunindo atrás e a gente não sabia. Quando olhei, as pessoas estavam aplaudindo, gritando, foi, talvez, um dos momentos mais emocionantes de toda a viagem, ver esse encontro de um público, de uma juventude, com uma cultura sendo representada num palco totalmente improvisado, destruído e bombardeado, mas que voltava como um ato de resistência cultural e demonstração da pujança de uma cultura”, conta Omar nesta entrevista ao SaraivaConteúdo

Resistente. Esta é uma palavra que salta ao pensarmos o país que sai das páginas de Viagem ao Afeganistão. Que resiste, apesar de tudo o que vem sendo imposto, apesar de tudo o que vem atravessando na últimas três décadas. E provoca impactos profundos, conforme relata abaixo Omar, para quem a viagem dividiu sua vida no meio, praticamente. 

A seguir, o artista e fotógrafo fala sobre a viagem feita junto com o cinegrafista Sérgio Gilz, da TV Globo, ao país, a relação com o povo afegão, o livro que levou os últimos três anos organizando. Uma volta ao país ainda não está confirmada, mas já está em seus planos, ele nos diz. É preciso sempre voltar àquilo que nos traz mais perguntas que respostas. 

Na apresentação do livro, você fala do Afeganistão como “o lugar mais distante do mundo, onde tudo era alheio, uma estranheza máxima.” Como é que isso agiu e age em você durante todo esse processo de edição e organização deste material, que levou oito anos? 

Arthur Omar. Todos os meus trabalhos se distribuem ao longo do tempo e vão se transformando. Em um trabalho fotográfico, por exemplo, nunca considero o simples momento de captar a imagem como o final. E normalmente deixo esse trabalho agir em mim durante um longo tempo, em que vou passando a utilizar este material captado como se fosse uma nova realidade, e diante da qual eu tenho que reagir emocionalmente. Então foi um processo longo em que eu, somente agora, na verdade, oito anos depois da viagem realizada, posso dar como terminado esse trabalho de descoberta de coisas, formas, relações entre imagens e pessoas dentro dos slides. 

Passei, para realizar este livro, os últimos três anos inteiramente dedicado e focado no escaneamento, tratamento e exame das imagens. Foram mais de 1.800 imagens escaneadas e tratadas. A partir das imagens, o problema era como dar uma organização ao livro. Acabei chegando a uma estrutura que você absorve de uma forma fácil, mas que foi extremamente difícil para construir esse resultado final. O livro todo funciona como uma viagem. E deveria, na verdade, ser visto, folheado na ordem das páginas mesmo, da primeira à última. Porque ali você vai passando através de lugares, coisas, situações até chegar ao final. É um livro onde todas as imagens estão organizadas em função de um deslocamento espacial. De uma página à outra, a medida que você vira, vai te dando essa possibilidade de você realmente fazer a viagem propriamente dita. Essa é a ideia. 

E o objetivo original da viagem era ir até o Afeganistão central, onde havia, no rochedo da região de Bamiyan – região dos azaras, etnia de origem mongol, uma entre as muitas etnias do Afeganistão – essas estátuas do Buda, explodidas pelos talibans em março de 2001, num ato que chamou a atenção do mundo inteiro, foi filmado, difundido etc. 

Então, a missão dada pela Bienal de Artes de São Paulo era ir até lá e trazer um pedaço do Buda. Uma missão impossível, mas motivou essa viagem, que passou a ter uma finalidade em si mesma. E no livro, o rochedo onde existia o Buda está praticamente no centro, mais ou menos, divide o livro em dois, entre ir ate lá e a volta. Você sai de Cabul [capital afegã], tem a estrada, as paisagens, até a chegada lá e a volta. O livro tem esse sentido da viagem, dividida em dois. 

Tem muitos retratos onde a sensação que dá é que as pessoas estão interessadas naquela interação contigo. Fale um pouco dessa receptividade, ou da falta de receptividade em algumas situações, do povo afegão. 

Arthur Omar. Olha só, o povo afegão me surpreendeu porque a gente tem uma imagem de Afeganistão como uma coisa muito violenta, agressiva, sempre negativa. E o povo afegão, em especial, me surpreendeu pela grande comunicatividade. E uma simpatia, uma doçura, uma abertura para o outro muito grande. Em todos os lugares onde o nosso comboio passava era objeto de curiosidade e respeito. E uma grande curiosidade também pelos instrumentos fotográficos, as câmeras, os visores. Havia um interesse muito grande pela gente e em poucas ocasiões fomos tratados como estrangeiros ou de forma agressiva. Foi uma coisa muito legal essa interação. Eu diria até surpreendente, uma coisa inesperada. 

E paisagens, retratos fazem parte do meu trabalho fotográfico anterior, que está nos livros Antropologia da face gloriosa (Cosac Naify, 2003) e O esplendor dos contrários (Cosac Naify, 2003). Então ali pude exercer uma série de estruturas estéticas, formas que eu havia aplicado em outros trabalhos. Pude explorá-las de uma maneira nova, o que não quer dizer que seja uma maneira desconstrutiva. Ali, procurei oferecer estas paisagens, estes rostos, este lado humano do Afeganistão de uma maneira como a gente não vê nos noticiários, que estão sempre pautados por um assunto atual, a guerra, o bombardeio, a violência, enfim, todas essas coisas que fazem parte da realidade. Mas existe uma outra zona… procurei focar o meu olhar para captar aquilo que estava diante de mim. É uma experiência intensa de troca de olhares com o meu objeto, onde procuro captar toda a humanidade e a complexidade daquele personagem, sem me deixar levar por um filtro que vai simplesmente reduzir aquela figura a um emblema de um assunto que está no noticiário internacional. Essa é a proposta. 

Outro registro interessante que você faz é dos lambe-lambes, o pouco do que eles têm de produção de imagem, comparado com a gente, do mundo ocidental, é algo muito escasso. Como é essa relação com essa escassez na produção de imagens, de se ver, se registrar, algo que quase não existe lá e é superabundante aqui? 

Arthur Omar. Pois é, um dos temas da viagem era a iconoclastia, já que o que motivou a ida a Bamiyan era resgatar um pedaço do Buda, que desapareceu por um ato de destruição de uma figura sagrada, milenar, construída no século VI, da civilização Gandara, antes do islamismo. A gente tem essa ideia do islã como sendo contra a representação da figura humana, mas é um clichê, porque não é bem assim, embora na religião islâmica não haja representação. Então o ato de explodir aquela estátua tinha, aparentemente, um sentido iconoclástico, de destruição da imagem. Fui lá para buscar um pedaço dessa imagem. E, ao mesmo tempo, para refletir sobre a maneira como a imagem aparece, é utilizada neste país, neste contexto do Afeganistão. A imagem, não só artística, mas fotográfica. E descobri que em Cabul, por exemplo, havia um interesse e um respeito muito grande pela fotografia. E a fotografia havia sido, na época do Taliban, proibida. Você não podia ser fotografado, os estúdios foram fechados. Quando, na verdade, é um país que adora imagem. Pelo menos, em Cabul, onde você tem uma rua, representada no livro, só com estúdios fotográficos, onde se fazem 3×4, reproduções fotográficas de pôsteres, de tudo, já que lá a indústria gráfica é fraca, não há tinta. Eles usam a fotografia para reproduzir coisas que normalmente seriam reproduzidas em impressão normal. Ao menos na época, a fotografia tinha este sentido. Cartão-postal, por exemplo, era fotográfico. E ao longo dessa rua com estúdios, havia muitos lambe-lambes, dezenas, na rua inteira. É uma coisa que aqui você não tem mais. Eu mesmo fiz fotografias ali, me deixei fotografar em vários momentos. 

A câmera de filmar também era vista com muito interesse. Em torno da câmera de vídeo, com seu visor aberto e mostrando ali a realidade ao vivo, naquele momento, as pessoas demonstravam uma grande curiosidade e um grande prazer em se ver naquelas imagens. Muitas fotos foram feitas a partir dessa atração que a própria câmera desencadeou. Foi interessante todo esse processo. 

O livro procura mostrar estes vários aspectos. Tem o buzcachi, que é aquele jogo de combate entre cavaleiros disputando uma carcaça de bode decepada, que depois iria dar origem ao jogo de pólo. É um jogo secular e que também tinha sido proibido pelo Taliban, mas voltou, acho que a gente assistiu à segunda ou terceira vez em que o estádio era aberto para jogos. Uma série de coisas proibidas estava voltando a ser realizada. O teatro entre elas. Houve uma encenação teatral feita para nós que foi emocionante. Era a segunda vez que o grupo teatral se apresentava. Em princípio, era só para a gente, mas as crianças das escolas locais se juntaram ali – era basicamente uma escola de meninas – e foram invadindo as ruínas do teatro, que já não tinha teto, estava totalmente destruído, bombardeado. E as pessoas foram se reunindo atrás e a gente não sabia. Quando olhei, as crianças estavam aplaudindo, gritando, foi, talvez, um dos momentos mais emocionantes de toda a viagem, ver esse encontro de um público, de uma juventude, com uma cultura sendo representada num palco totalmente improvisado, destruído e bombardeado, mas que voltava como um ato de resistência cultural e demonstração da pujança de uma cultura. 

Ao final do livro, tem um ritual sufi presenciado em uma favela, em Cabul, e que, provavelmente, deve conservar uma tradição que vem desde o século XII, num tipo de prática, respiração, oração coletiva e movimentos que não correspondem àquela nossa ideia do sufi de irmandades na Turquia, por exemplo, com aqueles dervixes giratórios, que se apresentam já como quase coreografia, balé mesmo, nos teatros da França. Ali não, era outra prática, com eles sentados em círculo, fazendo “exercícios” respiratórios e de oração, e aquilo, em certo momento, atingia um êxtase impressionante, que me comunicou uma emoção grande. 

Cheguei lá em janeiro de 2002, logo após a guerra propriamente dita. [Os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão um mês após o 11 de setembro] Era um momento de uma suspensão de hostilidades, mas a havia um receio muito grande, de risco de vida. Só se falava de morte de jornalista, ninguém viajava impunemente, era muito perigoso. 


 

E como você falou e fica bem claro no livro, o objetivo era fugir destes clichês de morte e guerra. Mas chegou a presenciar alguma coisa, alguma situação?

Arthur Omar. Não, situação de guerra propriamente dita, combate, tiroteio, não. Naquele momento você não tinha isso, mas, sim, uma grande tensão. A gente viajou com uma escolta armada. 

E sobre como o Afeganistão age na sua memória, você falou que um pedaço seu ficou lá e outro veio contigo… 

Arthur Omar. É verdade. Essa viagem ao Afeganistão, para mim, foi uma coisa marcante porque ela praticamente dividiu a minha vida em dois, no sentido de que não foi uma simples viagem, como seria a de um correspondente internacional, que faz uma viagem dessas por semana, onde a profissão dele é exatamente aquele. O meu trabalho artístico – como é algo voltado para as transformações emocionais, conscientes e inconscientes – procura trabalhar e explorar as primeiras sensações num determinado local de maneira intensa, e que só pode acontecer ao longo de anos. Devido à estranheza da situação daquele local, eu vejo que nas imagens e associações que tenho na minha mente, uma série de coisas ainda pode ser explorada e investigada, já que o sentido delas não está totalmente claro, liberado e explícito. Eu não me contento com um simples registro de uma certa imagem, mas uma situação dessas é um pretexto para que novas experiências a partir de lá – mas não necessariamente com uma volta para lá – se estabeleça, se faça. 

Mas tem esse desejo de retornar um dia, rever algumas coisas que conheceu por lá?

Arthur Omar. Tenho, até já tive vendo se isso é possível. Talvez seja. Gostaria de voltar lá, para explorar outras experiências, outras zonas que ainda ficaram um pouco obscuras para mim. Queria realmente trabalhar esse lado religioso, dos sufis, encontrar artistas. Era uma missão quando fui, encontrei alguns artistas. Mas o país tem uma cultura de séculos e séculos, que resiste, complexa, com várias etnias, muitas vezes conflitantes entre si. Tinha vontade de explorar a densidade cultural e experiencial mesmo da mente afegã. E avançar mais nestes estudos referentes à imagem, representação, que comecei naquela época. Essa seria uma proposta, mas não tenho nenhum plano. 

Outro lugar que gostei muito foi o próprio Paquistão, de onde também só chegam notícias ruins, desagradáveis. Mas o Paquistão é até mais rico e complexo culturalmente. Adoro a música paquistanesa. Aliás, trouxe mais de 100 CDs, sempre gostei de música indiana, paquistanesa. A música do Afeganistão é até um pouco menos documentada. E estou agora trabalhando no material original em vídeo, que foi colhido lá. Pretendo desenvolver um longa-metragem, trouxe muitas horas de fita. E tenho realizado uma série de trabalhos a partir destes vídeos, onde há uma grande exploração deste potencial da imagem. Apresentei na exposição que inaugurou Oi Futuro, na exposição Corpos Virtuais, uma instalação grande em vídeo, chamada Dervixxx, feita a partir da experiência com os sufis neste local em Cabul. E estreei um vídeo novo em setembro, com bastante experimentação, o Alquimia da velocidade, também feito com imagens de lá. Então um pequeno fragmento colhido no Afeganistão às vezes pode gerar um trabalho longo, porque o meu estilo de trabalho é exatamente explorar o potencial de uma imagem. 

Não considero o material que colhi no Afeganistão como algo acabado, pelo contrário. Vou voltar a ele por muito tempo, estou voltando. O livro saiu na hora certa, pois é o momento que dei por concluído o trabalho sobre as imagens, que não poderia ser feito imediatamente após a minha chegada aqui. O tempo foi necessário para classificação, montagem, combinação, seleção, transformação, ampliação. Muitas das imagens do livro são compósitos, com duas, três imagens dentro de uma só.  

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