Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.10.2010 28.10.2010

Arthur Dapieve, no ritmo das palavras

Por Ramon Mello
Foto de divulgação 

As palavras do escritor e jornalista Arthur Dapieve tem ritmo. Conhecedor e fã de música popular e erudita, podemos constatar a musicalidade de seus textos nas crônicas que escreve semanalmente para o Segundo Caderno d´O Globo e, melhor, nos romances De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva, 2004) e Black Music (Objetiva, 2008).

Sua trajetória se cruza com diversos personagens da cultura brasileira, mas é na escrita, junto com os mestres Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, que entendemos mais de sua escolha pelo ofício. Exímio observador, Dapieve mediou um encontro histórico entre os dois ícones da crônica jornalística no Brasil – registrado no livro Conversa sobre o tempo (Ediouro/Agir, 2010) –, fazendo de uma simples conversa uma profunda reflexão sobre o tempo.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, durante a Festa Literária Internacional de Paraty 2010, Dapieve contou sobre os bastidores de seu trabalho, relembrando suas escolhas profissionais e suas paixões pela música e pela escrita.

> Assista à entrevista exclusiva com Arthur Dapieve ao SaraivaConteúdo

Como surgiu a ideia do livro Conversa sobre o tempo (Ediouro/Agir, 2010), um encontro com Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo?

Arthur Dapieve. A editora da Agir, Helena Carone, pensou assim: “Queria colocar os dois para conversar…” O Zuenir e o Verissimo são amigos e tem pontos de contato: idade, trajetória e tudo. E ela queria um entrevistador, pensou em mim por conta de eu ter trabalhado com o Zuenir, de conhecê-lo há 25 anos praticamente. Conheci o Verissimo mais recentemente por conta, não só da distância geográfica, mas do meu temperamento e do dele. Deu certo, não é? É o primeiro título de uma série. Eles [os editores] pretendem fazer uma conversa sobre a fé e ciência, entre Frei Beto e Marcelo Gleiser, o físico, mediada pelo Valdemar Falcão.

Na apresentação desse livro, você conta uma história sobre um encontro com Zuenir Ventura no início da sua trajetória no jornalismo…

Dapieve –Eu já era formado e tinha trabalhado com o Mauro Ventura, filho dele. Conheci o Mauro quando ele nem era jornalista, era estudante de engenharia. Depois estudamos e fizemos um frila[trabalho free lancer] juntos, propiciado por professores da própria PUC [Rio]. Um dia ele falou: "Meu pai é professor também, adora descobrir gente jovem… Passa lá no JB [Jornal do Brasil], já falei com ele de você…" Fui. Tinha uma lista de proposta de matérias. Tive uma conversa com ele, que o ponto alto, acho, foi ele ter me perguntado o que eu entendia. Respondi que entendia de literatura, de música e de cinema. Ele deu um risinho que levei pelo menos 10 anos para entender. Só alguém que tem 21 anos acha que entende de literatura, de música e de cinema, né? Claro, estava numa entrevista de emprego, de trabalho… Mas eu realmente achava que entendia disso. Hoje em dia a minha resposta seria diferente: "Acho que, talvez, eu entendo um pouquinho de música. E do resto, menos…" Uma dessas pautas vingou, sobre o primeiro LP da Plebe Rude, O concreto já rachou. Foi um primeiro trabalho, que gerou outro trabalho, e outro… E, alguns meses depois, quando o próprio Zuenir criou e editou o Caderno Ideias, no JB, eu e três colaboradores, que estávamos mais ou menos nessa mesma situação, fomos convidados para constituir a primeira equipe do caderno. O Zuenir supervisionava, era o editor tanto do [Caderno] B quando do Ideias. A Vivian Wyler, que trabalha na Rocco, era a editora do Ideias. E eu, Luciano Trigo e Toni Marques éramos colaboradores, fazíamos resenhas de livros, matérias… Aí que começamos a trabalhar propriamente na redação.

Você consegue avaliar a trajetória do jovem que começou no Jornal do Brasil e hoje é um professor universitário e colunista d’ O Globo?

Dapieve. Tem um ponto dessa trajetória pessoal e profissional indissociável. Porque, apesar dessa pretensão, dessa arrogância da minha declaração ao Zuenir, é uma coisa que marcou muito a ele: eu era muito tímido. O Zuenir voltou para casa e disse: "Mauro, ele pode ser um gênio como você diz. Mas ele não fala!" A própria profissão acabou me fazendo falar. Não que o temperamento inicial desapareça, não é isso. Não se aprende a falar, se aprende a se virar numa situação aparentemente adversa. Jornalismo é isso. E, ao mesmo tempo, o trabalho cotidiano nos jornais, a ralação toda daquilo: redações, plantões, pescoções etc. E mais, o entendimento melhor da realidade, pela experiência, pelo aprendizado, me fizeram ver que realmente se aprende um pouquinho daquilo que a gente gosta. Eu responderia hoje “um pouquinho de música”. Quanto mais escuto música mais descubro que tem coisas que nunca escutei, ou que nunca escutei com a devida atenção, que merecem minha atenção. Entender do assunto é estar exposto continuamente à sua ignorância sobre ele. A gente conhece, mas as bifurcações das formas de arte são tantas que você nunca dá conta de tudo. Nos últimos tempos, voltei a prestar atenção para uma área da música pop que deixei meio de lado que é o metal, heavy metal.Conhecia o básico, mas eu sacava que tinha um underground e mais um overgroundtambém… Algumas coisas que não prestava atenção. Minha atenção se voltou muito para isso. Coisas incríveis que eu não tinha ideia que existiam. E aí essas coisas incríveis me direcionam para outras coisas que acho incríveis, e outras nem tão incríveis, mas que direcionam… É sempre infinito esse processo. Aquela frase do Sócrates, "Só sei que nada sei", é real. Quanto mais você se enfronha num assunto mais percebe sua pequenez diante dele.

O encontro com o Zuenir e o Verissimo, duas figuras representativas do jornalismo no Brasil, ficou registrado em livro. Mas o que realmente ficou dessa experiência?

Dapieve. Foi uma experiência, sobretudo humana, importante. São dois ídolos, que aprendi a respeitar por razões diversas. O Zuenir, por trabalhar muito com ele, e ter percebido o jeito que ele tem de lidar com as pessoas, sempre com muita gentileza, sempre muito atento ao que as pessoas falam, muito gentil. E sendo um chefe que você respeita. E o Zuenir, antes disso, era um dos dois caras que eu lia loucamente no jornal. Ele o Carlos Eduardo Novaes eram os cronistas do JB que eu mais apreciava. Tem um ponto em comum: os três torcem pelo Botafogo. O Verissimo é colorado. Então é a humanidade daquele encontro, eles não tinham a pretensão de ter explicação da vida. Não tinha essa pretensão totalizante de uma biografia, eles estavam contando estimulados, ou mesmo espontaneamente, sobre pedaços da vida deles que foram relevantes.

Ultimamente as editoras tem lançado muitos livros de entrevistas com escritores. Enquanto escritor e jornalista, como você entende a publicação desses diálogos?

Dapieve. É uma maneira de ampliar, popularizar, aquilo que se faz, por exemplo, aqui na Flip [a entrevista foi realizada na Festa Literária Internacional de Paraty 2010, em agosto], milhares de pessoas recorrem à cidade para ver escritores falarem de processos criativos, de suas vidas etc. Só que dura poucos dias, nem todo mundo pode vir… Um livro aumenta enormemente esse universo, embora as conversas possam ter um teor ligeiramente diferente, é mais ou menos a mesma coisa. Se você gosta do livro, você se interessa pelo autor. Não significa que você goste do autor. Porque tem autores perfeitamente canalhas e desprezíveis que escreveram obras-primas.

Falando sobre essa relação com profissão, o que te levou à escrita?

Dapieve.O que me levou a fazer jornalismo [no vestibular] foi porque eu sabia que queria escrever. Eu não sabia mais fazer mais nada. Tinha cogitado fazer outras coisas, pensei em fazer direito… Mas cheguei à conclusão que não era isso, queria escrever outro tipo de coisa. Prestei vestibular para Letras e Comunicação. E eu nem sabia que seria jornalismo, era Comunicação. Talvez pudesse ser publicidade… Eu sabia que era algo que me forçaria a escrever. A escrita é exercício, ela só melhora se você exercita. A escrita não é algo abstrato. O que torna o texto melhor, ou menos pior, é o fato de ter burilado aquela linguagem, o estilo. O curso de jornalismo me proporcionou isso, me colocou para escrever. Mas, ao mesmo tempo, me afastou do meu objetivo inicial. Porque quando você entra numa redação é um moedor de carne de tal forma… Não interessa se você quer escrever um livro ou escrever outra coisa. Você está escrevendo a matéria do dia-a-dia e está feliz com isso. Eu me formei em 1985 e dez anos depois fui fazer um livro sobre Rock no Brasil nos anos 1980 [BRock (Editora 34, 1995)]. Meu objetivo inicial não era escrever ficção, esse livro era um desdobramento do trabalho de jornalismo. O primeiro livro de ficção só saiu em 2004 [De cada amor tu herdarás só o cinismo(Objetiva)]. Então, foi um desvio longo. Mas eu sei que foi importante, para esse livro de ficção, ter ralado em redações, escrevendo jornalisticamente esse tempo todo. E quando fui fazer Comunicação não tinha ideia que poderia escrever sobre música em variadas formas. Quando comecei a trabalhar, vi que não tinha sido em vão todos aqueles cruzeiros, cruzados, que pedia, esmolava da minha mãe para comprar LPs. Aquilo ali não era só uma perversão, uma perda de tempo, eu tinha me dado um patrimônio cultural importante. Ela tinha compreendido isso. Eu podia utilizar aquelas informações todas que discutia com os amigos.

Você é jornalista e escritor. Há diferença entre os dois ofícios?

Dapieve.A [escrita] ficcional exige um planejamento maior, sei como vai ser a história, monto um organograma e vou preenchendo aquelas lacunas. A [escrita] jornalística é muito feita em cima do laço porque precisa ter uma quentura diferente. Embora, às vezes, eu até planeje alguns textos com antecedência, quando o assunto não é tão quente. Quando comecei a escrever ficção, finalmente, tive um grande problema de me desvencilhar da linguagem jornalística, que é muito explicadinha… É muito pautada por datas, eventos, lugares. Quem, quando, onde, como, por quê… Aquele negócio do jornalismo. O primeiro romance é muito mais assim, parece muito mais um reportagem em alguns aspectos, de tal forma que muita gente acreditou, ou acredita, que é uma história minha na qual troquei nomes. Não é. Porque tem botequins e garçons reais mencionados, como o Manoel, do Nova Capela [na Lapa carioca], que está no livro. No segundo livro [Black Music (Objetiva, 2008], consegui me desvencilhar dessa carga estilística, jornalística. Embora se passe no Rio de Janeiro, numa data precisa, a história é muito mais maluca do que meramente uma coisa que poderia ter acontecido.

O Rio de Janeiro é quase personagem de suas histórias.

Dapieve. Eu sempre penso naquela história: cante a sua aldeia e você cantará o universo, do Tolstói. É um pouco isso. É uma proeza literária e intelectual o que o Chico Buarque fez com Budapeste (Companhia das Letras, 2003). Não que Budapeste seja um personagem do livro dele, mas um estado de espírito. No meu [o Rio de Janeiro] é um personagem, como você disse, e é também o estado de espírito. Tem uma geografia sentimental da cidade. E também uma geografia amorosa musical dessa cidade, áreas da cidade que evocam um determinado tipo de música.

A música é muito presente em sua trajetória, inclusive em sua literatura. Os seus livros de ficção – De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva, 2004) e Black Music (Objetiva, 2008) – muito estão ligados a musica, desde o título ao ritmo da narrativa. Você se lembra do início dessa relação? Seus pais incentivaram?

Dapieve. Meus pais não eram melômanos de forma alguma, poucos discos em casa. Meu pai era amigo de botequim do Jorge Ben. Sempre gostei muito do Jorge Ben, talvez até estimulado por isso, sabia que meu pai conhecia, sem que eu conhecesse. Eu não tinha idade para frequentar o botequim, lá na [Rua] Paula Freitas, em Copacabana. Em determinado ponto, por alguma razão, não me lembro qual foi a razão inicial, pedi um violão para o meu pai.

Você tinha quantos anos?

Dapieve –Dez anos, talvez. Quando chegamos à loja, acho que ainda existe, perto do Largo da Carioca [no Centro do Rio], eu vi uma guitarra e disse: "Eu quero isso!" Ele disse: "Não. Você só vai ter isso se aprender a tocar isso. É mais caro, não vou fazer um investimento…" Na verdade, nunca dominei o violão. Aprendi um pouquinho, em variados surtos de vontade de tocar violão, o mais grave foi na adolescência porque tinha amigos que tocavam. Mas nunca dominei, me pareceu mais um brinquedo daqueles que você desinteressa quando entende como funciona. Demorei a entender isso. No decorrer da vida, percebi que o violão, o instrumento de cordas, não era minha praia e troquei por uma bateria. Na bateria me achei melhor. Mas a bateria exige espaço, um certo isolamento acústico… E todos os instrumentos exigem disciplina. Mas não aprendi com a experiência, vendi minha bateria e comprei timbales, aqueles dois tambores muito usados na música cubana. Aquilo, bem menor, ainda faz barulho, ocupa espaço… Antes dos timbales, por conta do Paul Desmond (1924-1977), saxofonista de jazz, parecia que era fácil ele tocando… Falei: "Vou comprar um sax alto", que é o instrumento dele. Mas a história deles [os instrumentos] é mais ou menos a mesma coisa: comecei a tocar, achei que estava começando a avançar, e caía meu nível de interesse… De vez em quando tem voltas desse negócio, voltar a ler pauta com mais atenção.

Você chegou a ter uma banda?

Dapieve.Dois amigos, um baixista profissional e um dos guitarristas, nós ensaiamos bastante. Mas nunca nos apresentamos fora dos nossos quartos. Era um hard rock um pouco punk, a partir de determinado momento bem pesado. Mas nada muito brilhante.

Entre seus livros, o mais conhecido é Renato Russo, o trovador solitário (Ediouro, 2006). Em 2010, Renato Russo completaria 50 anos; se estivesse vivo, o que ele estaria fazendo?

Dapieve. O Renato, segundo o planejamento dele, estaria fazendo cinema. Ele tinha planejado que até os 40 anos faria rock. E como o rock exige muito fisicamente, entre os 50 e 60 ele faria cinema, que exige também fisicamente, mas menos do que ser o frontman de uma banda tão popular. Então, hoje, aos 50 anos, ele seria um cineasta. Ele queria ser cineasta, já escrevia alguns roteiros. E quando completasse 60, ele queria se dedicar a escritura, simplesmente, porque demanda menos fisicamente. Ele tinha a vida toda planejada, mas aconteceu um imprevisto.

Atualmente, quem representa a importância musical e social da Legião Urbana?

Dapieve. Ninguém. A coisa mais parecida que houve em tempos recentes, e de vez em quando ainda faz shows, foi Los Hermanos. Não tanto pela mensagem das letras, que é mais intimista do que a Legião. Mas a idolatria em torno, as pessoas seguindo. O clima que eu senti quando vi Los Hermanos no Canecão é parecidíssimo, as pessoas cantando as letras todas, berrando, aquela coisa religiosa… Não fossem eles barbudos, aquela figura messiânica. Foram os que chegaram mais perto disso, não tanto pela mensagem, mas por conta de um clima que se criou entre eles e os fãs.

Enquanto professor, jornalista e escritor, o que dizer a um jovem que deseja ser escritor?

Dapieve. Primeiro, precisa ler como um condenado. Tem muita gente que tem a ilusão que para escrever precisa começar a escrever. Não, precisa começar a ler. Depois de ler bastante, você começa a escrever. Pode ser concomitante, pode ser ao mesmo tempo. A leitura tem precedência sobre a escritora. O nosso mundo interior não é por si só tão rico que se expressa de uma maneira literariamente relevante. Tem que ler pra burro. Primeiro: pessoas que você gosta. Depois, pessoas que você não gosta… Para se colocar, entender quais são os estratagemas que o autor usou, quais são os truquezinhos que ele usou para você gostar ou não gostar daquilo… Você vai incorporando ou descartando na sua própria escritura. Começa a ler pesadamente e depois comece a escrever. Ainda que depois seja na semana seguinte. Devore Moby Dick [de Herman Melville] numa semana e na semana seguinte comece a escrever alguma coisa.
 

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