Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 09.09.2011 09.09.2011

Arte que brota das cinzas

Por Bia Carrasco
Na foto ao lado a obra de Audrey Flack
A tragédia sempre gerou inspiração para correntes artísticas de diferentes épocas. Entre cinzas, gritos e olhares de desespero, o artista capta o que há de mais humano para criar a sua obra e eternizar um recorte de sua era. “Até as pessoas mais simples respondem à tragédia com a arte”, diz Arthur Danto, curador de uma mostra organizada pela Apexart, organização sem fins lucrativos destinada às artes, na baixa Manhattan (EUA), três anos após os atentados.
 
Em meio ao caos que se seguiu logo após o atentando, Arthur afirma que presenciou um raro sentimento de compaixão entre os nova-iorquinos. Fotos, orações, desenhos e santuários foram espalhados em frente a portas, janelas e espaços públicos, por toda a cidade. “No decorrer daquele dia terrível, um repórter me telefonou, perguntando o que o mundo da arte iria fazer sobre os ataques. Mas eu não conseguia imaginar que alguém que não estivesse envolvido nos resgates seria capaz de fazer qualquer coisa, exceto sentar-se paralisado em frente à televisão, vendo as torres queimarem, multidões na rua correndo em perigo e, mais tarde, pessoas caminhando através da fumaça e dos escombros em busca de alguém que conheciam. Eu pensei que a última coisa na mente de alguém seria a arte”, conta o curador.
 
Ao contrário do que Arthur pensou, momentos após as torres desmoronarem, a cidade já havia sido transformada em um grande santuário, com locais de luto improvisados. “Nessa hora, eu pensei que se artistas tivessem tentado fazer algo em resposta ao 11 de setembro, não poderiam ter feito melhor do que aqueles santuários anônimos, de pessoas que encontraram maneiras de expressar um sentimento comum, de forma que todos instantaneamente compreendiam”, observa.
 
Um ano após o atentado, Arthur foi convidado para escrever um artigo sobre a arte inspirada no incidente. Foi então que começou a pesquisar mais a fundo os artistas que estavam criando suas obras com base na tragédia. E esses artistas não eram poucos. No caso da conceituada artista americana Audrey Flack, seu primeiro impulso foi pintar no local onde as torres desabaram, mas ela imaginou que ali já havia sido feito o suficiente. Foi então que decidiu compor uma tela de um barco ancorado no porto de Montauk, em Nova Iorque. “Nessa hora eu pensei que isso poderia ser compreendido como um ato de piedade, mas ainda assim como um plano de pintura para seu próprio bem, embora a diferença fosse invisível, como atos de piedade muitas vezes são”, lembra Arthur.
 
Para o pintor Lucio Pozzi, a inspiração tomou forma através da aquarela, com duas telas de composição abstrata. “Pensei que se eu fosse fazer uma mostra sobre o 11 de setembro, eu gostaria de expor tanto as duas aquarelas de Lucio, quanto os barcos de pesca de Audrey, embora pudesse parecer que não tivessem nada a ver com o atentado. Porque é assim, como os atos religiosos: deve-se conhecer o espírito com que são realizados para compreender o seu significado cultural”, explica Arthur sobre alguns dos trabalhos que foram reunidos na mostra realizada pela Apexart.
 
Ao consultar a artista  Cindy Sherman, Arthur descobriu que ela já estava trabalhando em uma composição ligada aos ataques. "Eu estou bem, embora seja difícil pensar em que tipo de trabalho devo fazer nesse momento, que não seja escapista, decorativo ou abstrato. Acho que vou explorar uma ou todas essas coisas", disse Cindy ao curador. Ele, que afirmou não conseguir imaginar a artista produzindo algo que não fosse escapista, decorativo e muito menos abstrato, mais tarde viu uma foto de sua autoria, exibindo uma mulher com um lenço e um olhar desafiador, como em um cartaz de propaganda. “Eu não fiquei surpreso ao ver que esta deveria ser a sua resposta, esta e a sua série magnífica de palhaços”, conta Arthur.
 
Jeffrey Lohn, por sua vez, resolveu fotografar vários retratos de pessoas desaparecidas que foram espalhados pela cidade. Após a chuva, a sujeira e os dias que se passaram, a série deu origem a uma colagem de rostos desfigurados, que representavam uma segunda morte, o momento em que não havia mais nada. Para Barbara Westman, a inspiração veio após ser profundamente sensibilizada com a homenagem em forma de luzes azuis que iluminaram o local onde se encontravam as torres. O resultado foi a tela Memory Piece (Pedaço de Memória, tradução livre), que exibe uma perspectiva do local em traços suaves e tom de melancolia.
 
Esses trabalhos compostos por Audrey Flack, Lucio Pozzi, Cindy Sherman e os inúmeros outros artistas que optaram por não escancarar o sofrimento vivido por aquelas pessoas, é um assunto que tem sido tratado com atenção pelos curadores do local que lembrará os atentados. O Museu Memorial Nacional do 11 de Setembro, que será inaugurado no subsolo do "Marco Zero", em seu 11º aniversário, daqui a um ano, não pretende “traumatizar os visitantes”, segundo a sua diretora, Alice Greenwald.
 
Alguns dos itens mais perturbadores do acervo, como as imagens de pessoas se jogando dos prédios, estão sendo reservados para serem expostos em um espaço separado, que o visitante terá a opção de ver ou não. Decidir-se por expor esses momentos dolorosos, mas sem causar ainda mais tristeza, foi um dos dilemas mais difíceis que os curadores enfrentaram para dar forma ao tributo aos quase 3.000 mortos. "Não somos apenas um museu de história, somos também uma instituição memorial, então a tensão que acontece entre rememoração e documentação é um ponto contencioso", explica Alice ao afirmar que, para cada história de cortar o coração, há dez histórias sobre a bondade dos seres humanos. Os futuros visitantes do museu, segundo a diretora, "vão sair com muita coisa para pensar".
 
 
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