Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.08.2010 02.08.2010

Arquivo-Museu de Literatura Brasileira

     
Por Bruno Dorigatti e Ramon Mello 
Fotos de
Tomás
Rangel, Marcos Dantas e Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (FCRB) 

Quempassa em frente ao velho casarão, sede da Fundação Casa de Rui Barbosa, na ruaSão Clemente, em  Botafogo, por vezesignora que lá exista o fruto de um sonho do poeta Carlos Drummond de Andrade.No fundo do silencioso quintal, próximo ao jardim da moradia do ilustrediplomata, onde atualmente mães e babás fazem passeios diários com seuscarrinhos de bebês, está localizado o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. 

“OArquivo-Museu foi criado por sugestão do poeta Carlos Drummond de Andrade.Quando Drummond foi procurado por Dona Lili Brant para autografar um caderno emcapa dura com anotações e recortes de textos de escritores, ele percebeu queaquilo servia como um micro arquivo-museu pessoal. Em seguida, publicou umacrônica no Jornal do Brasil [em julho de 1972] referindo-se à ‘velha fantasia’de criar um museu de literatura que reunisse papéis e objetos relacionados àcriação e à vida dos escritores brasileiros”, diz Eduardo Coelho, chefe doArquivo-Museu de Literatura da FCRB, cujo cargo já foi ocupado por Plínio Doylee Eliane Vasconcellos. 

Drummonde seus contemporâneos reuniam-se aos sábados em encontros na biblioteca da casado advogado Plínio Doyle, em meados dos anos 1960. Na famosa reunião, batizadade Sabadoyle, Carlos Drummond deu prosseguimento ao seu sonho. Plínio Doyleapelou aos amigos escritores e intelectuais: “Para evitar que se perca ou sedisperse a preciosa documentação da nossa história literária, mandem para aCasa de Rui Barbosa todo tipo de material que sirva à nossa finalidadeespecífica”. Ele foi atendido prontamente, e assim juntou em 15dias mais de 500 documentos.

AméricoLacombe, então presidente da Casa de Rui Barbosa, frequentador das tertúlias,logo aderiu à empreitada, recebendo o apoio de escritores como Paulo MendesCampos, Murilo Araújo, Wilson Martins, Aurélio Buarque de Holanda, AlphonsusGuimaraens Filho, Pedro Nava, Afonso Arinos, Raul Bopp, Ciro dos Anjos ePeregrino Júnior. Em 28 de dezembro de 1972, a Fundação Casa de Rui Barbosainstalou em sua sede o Arquivo-Museu de Literatura, inaugurado com a exposiçãoCamoniana, comemorativa do quarto centenário de Os Lusíadas, e com umaamostra com cerca de cem documentos do recém-criado arquivo.

 

Acervos e coleções 

Nestecentro de memória e informação, através do Arquivo-Museu de LiteraturaBrasileira, são preservados e divulgados alguns dos mais expressivos acervosdocumentais de escritores brasileiros, entre eles Clarice Lispector, ManuelBandeira, Antonio Callado, Lúcio Cardoso, Pedro Nava, Plínio Doyle, Adalgisa Nery,Fernando Sabino, Cacaso, Vinicius de Moraes, Helio Pellegrino, Rubem Braga,Osman Lins, Caio Fernando Abreu e Carlos Drummond de Andrade. 

“OArquivo-Museu é constituído de arquivos e de coleções. Os arquivos reúnemacervos de escritores que são titulares desses arquivos, ou seja, tudo que foiacumulado pelo próprio autor, o titular. Por exemplo, o arquivo do Drummondpossui documentos que ele próprio guardou ao longo de sua vida. E as coleçõesagrupam documentos doados por pessoas distintas. Já temos cerca de 124 acervosde escritores brasileiros, além de coleções com mais de 600 pastas, entredocumentos avulsos, diversos originais e coleções de recortes de jornais”,explica Coelho, que completa: 

“Háarquivos antigos como o de Machado de Assis, José de Alencar, Cruz e Sousa. E,nas coleções temos as mais representativas, como a do Guimarães Rosa. A coleçãode Lauro Escorel, por exemplo, é pouco estudada, mas tem documentos extremamenteimportantes. Uma das boa s qualidades de Escorel era a curiosidade, eleperguntava muito aos autores sobre os processos construtivos. Então, por meiodessa coleção seria possível fazer o mapeamento da constituição do planopoético no Brasil”. 

Épossível ainda encontrar originais datiloscritos de Água viva, deClarice Lispector, antes intitulado de Objecto gritante.  No rico acervo de Pedro Nava estão osoriginais de Balão cativo, peças raras, com desenhos artísticosilustrando suas memórias. E pode-se pesquisar, por exemplo, a correspondênciaentre Adalgisa Nery e o casal de artistas Diego Rivera e Frida Khalo, noperíodo em que a poeta foi embaixatriz no México ao lado do segundo marido,Lourival Fontes. Também estão na Casa de Rui cartas do então jovem poetaVinicius de Moraes. Por exemplo, uma carta de 1938, quando Vinicius,recém-chegado a Londres, se correspondia com Rodrigo de Mello Franco sobre aliteratura inglesa e a obra de Aleijadinho (abaixo, foto do poeta ao pé de uma escultura em Congonhas (MG), 1938). Além disso, destaca-se também arara coleção bibliográfica com revistas e jornais literários dos séculos XIX eXX , organizada pelo bibliófilo Plínio Doyle (foto abaixo), fundador do Sindicato dosEscritores do Rio de Janeiro. 

Alémdos acervos e coleções, integram o Arquivo-Museu aproximadamente 1.200 peças,entre móveis, canetas, óculos, medalhas, caixas de músicas, esculturas e telas.Pode-se relacionar esses objetos com elementos das obras dos autores, porexemplo, a tela A menina morta (autoria anônima, 1890), queprovavelmente inspirou o quarto romance, homônimo, de Cornélio Pena.

Oacervo Clarice Lispector é o mais valorizado. Duas exposições jáforam realizadas sobre a escritora a partir deste acervo: Clarice Lispector — ahora da estrela, de 2007, que correu o país depois de produzida pelo Museu daLíngua Portuguesa, em São Paulo, e Clarice Pintora, de 2009, que exibiu noInstituto Moreira Salles as telas da escritora, entre elas Sem sentido,de 1975, descrita no livro Um sopro de vida (1978). 


Arquivosvirtuais, o desafio

Umdos principais desafios do Arquivo-Museu é como tratar e catalogar o acervo,com arquivos enormes e que crescem todos os anos. E com o surgimento das novastecnologias, a preservação se torna uma questão cada vez mais desafiadora. Comopreservar os arquivos digitais? Como comprovar a autoria dos textos digitais? Oque fica da geração de escritores que trabalham com o computador, na web? 

“Tentamoscriar pontos de diálogo com o pesquisador comprometido com aquele arquivo enossos trabalhos de preservação. O setor público ainda está atrasado na questãoda preservação de acervos digitais. Estamos interessados em colher acervosdigitais de alguns autores contemporâneos, como Rodrigo de Souza Leão, paracriar essa frente de trabalho. Hoje em dia os manuscritos estão praticamente emdesuso. Não há respostas, há buscas por soluções. Temos que encarar a superaçãodas tecnologias, esse é o grande desafio”, afirma Ana Pessoa,diretora do Centro de Memória e Informação da FCRB, que também enfrenta asupervalorização dos acervos: 

“Asfamílias acham melhor reter para si na subestimação completa do que seja oprocesso de arquivamento. Há uma mística sobre os inéditos, é bom esclarecerque quando um acervo é recolhido não se fere os direitos autorais, quecontinuam sendo da família. Nós temos acervos digitalizados que não foramdisponibilizados na internet porque as famílias têm receio de perder o controledo acervo”, diz. 

Noentanto, há exemplos positivos em relação à disponibilização virtual dosacervos, como a iniciativa da família do poeta Vinicius de Moraes, quedigitalizou e publicou a coleção doada por José Mindlin – projeto que, em abrildeste ano, inaugurou o Simpósio Internacional de Políticas Públicas paraAcervos Digitais, realizado pelo Ministério da Cultura. “Suzana de Moraes, aodigitalizar todo acervo de seu pai, Vinicius, ajuda a provar que não é umrisco. Ao digitalizar, cria-se uma rede de leitores em torno do autor, quebusca o livro como anteparo de uma ferramenta mais acessível do que a web”,explica Eduardo Coelho.


Preservar é preciso 

Otrabalho de preservação exige muita modéstia de quem faz, e ao mesmo tempo previsãode futuro em termos históricos. Arquivistas e especialistas em literaturabrasileira têm se dedicado à melhoria do Arquivo-Museu. “O padrão é perder,dispersar. Todo projeto de preservação é a eleição de alguma coisa que estariaperdida. O Arquivo-Museu de Literatura Brasileira é fundamental, paradigmático.Ele é a matriz do tratamento de coleções pessoais de literatos. A partir deleforam gerados outros arquivos-museus no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, SãoPaulo… É um padrão, uma referência para os demais arquivos”, defende AnaPessoa. 

 

Serviço 

Arquivo-Museu de Literatura Brasileira 
Fundação Casa de RuiBarbosa

Rua São Clemente, 134 – Botafogo – Rio de Janeiro, RJ
Tel.: (21) 3289-4600
Atendimento: 2ª a 6ª feira, de 9 às 18h, com a últimaentrada 45 minutos antes do fechamento.

> Leia a crônica de Carlos Drummond de Andrade, onde o poeta fala pela primeira vez do seu sonho de criar um arquivo-museu da literatura brasileira

> Assista à entrevista exclusiva com Eduardo Coelho e Ana Pessoa da Fundação Casa de Rui Barbosa

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