Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 18.07.2014 18.07.2014

“Aprendi a conhecer mais o Brasil”, diz Carlos Saldanha sobre Rio 2

Por Carolina Cunha*
 
Depois de levar as cores do Rio de Janeiro para a telona em versão animada, o diretor brasileiro Carlos Saldanha repetiu a dose, dessa vez na Amazônia e com uma maior diversidade musical. Na animação Rio 2, sequência do bem recebido Rio, o protagonista Blu agora é o pai de uma simpática família de araras-azuis que vai fazer uma viagem inesquecível para a Amazônia. 
 
Após o sucesso no cinema, a animação chega agora em DVD e blu-ray. Em entrevista por telefone, Saldanha falou um pouco mais sobre a produção do filme e sobre seu próximo projeto: a animação com a história do Touro Ferdinando, escrita em meados de 1930. Veja abaixo.
 
O que você queria contar nesse segundo filme?
Carlos Saldanha. No primeiro filme tive vontade de mostrar os personagens no Rio, o lugar de onde eu sou. Queria mostrar um lado do Brasil, minha cultura e o orgulho que sinto dela, e que as pessoas se conectassem com essas histórias. Foi um projeto muito pessoal. Com o segundo, eu quis expandir esse universo e contar a historia além da fronteira do Rio. Quis mostrar o Brasil como um todo e seu maior patrimônio natural que é a Floresta Amazônica. Eu sempre quis conhecer a Amazônia desde pequeno e esse era um sonho meu que foi realizado.
 
Qual foi o desafio de mostrar outras partes do Brasil e a Amazônia?
Carlos Saldanha. Nesse filme eu também aprendi a conhecer mais o Brasil. A jornada dos personagens cruza outras regiões e cidades do país até chegar na Amazônia. Eu tinha que dar uma noção da geografia do país e símbolos de algumas cidades como Salvador e Brasília. No primeiro filme o desafio foi como mostrar o Rio de Janeiro, a gente estilizou, mas sem deturpar a realidade da cidade, mostrando as praias, asfalto e morro. No segundo, eu queria criar um estilo pra a Amazônia, mas sem deturpar também. Viajei para lá e fui conhecer como era a floresta.
 
Aí entrou a parte mais complicada?
Carlos Saldanha. Me preocupei muito em retratar os tipos de árvores, plantas e animais que fazem a Amazônia ser o que é. Na verdade, mais difícil do que recriar uma cidade é recriar uma floresta, pois a natureza é muito rica e singular. Como a Amazônia é muito verde, a gente pensou que ia ficar uma cor monocromática na tela e por isso eu prestei muita atenção na variação de cores e plantas. Mas a Amazônia não é monocromática. Quando se olha de fora é um mar de verde, mas lá dentro é uma verdadeira palheta de cores.
 
O filme traz novos personagens. Foi um reflexo do novo contexto?
Carlos Saldanha. O legal de termos ido para Amazônia é que tivemos a oportunidade de criar personagens novos que não são pássaros. Aí criamos a Gabi, uma sapinha venenosa e que adora cantar. Ela é um dos meus personagens favoritos. Conseguimos colocar também outros animais como o boto cor de rosa, o bicho preguiça, o tamanduá e a capivara. 
 
Gabi, personagem de Rio 2
 
Neste segundo filme o Nigel tem um papel de maior relevância.
Carlos Saldanha. O Nigel é um meio-vilão, ele é um dos meus personagens favoritos mesmo no primeiro filme. No segundo eu quis uma participação maior dele. Ele merecia! Foi muito divertido poder criar o personagem junto com personagens novos, como a Gabi. A gente cria uma conexão entre os dois, uma Love story totalmente “shakesperiana” e com ares teatrais e dramáticos. A gente se divertiu muito fazendo isso.
 
Rio 2 tem mais cenas musicais. Como foi esse trabalho?
Carlos Saldanha. No primeiro filme eu estava confinado no universo do carnaval. Este segundo já tem um sabor de um Brasil mais amplo. A gente tentou buscar novas inspirações criativas, mas mantendo a diversão nos números musicais e buscando compor um visual bonito. Eu pude trazer músicos de outros lugares como o Barbatuques, Milton Nascimento e Carlinhos Brown, além de ritmos da região Norte, como o carimbó, e do Nordeste, como o maracatu. Isso fez com que a parte musical ficasse mais rica.
 
A questão ambiental é muito presente no primeiro Rio. Existe alguma mensagem que você quis transmitir nesse segundo?
Carlos Saldanha. Acho importante que os filmes carreguem alguma mensagem. O primeiro filme fala sobre a extinção de espécies e o segundo sobre devastação da floresta. É impossível falar da Amazônia sem tocar nesses assuntos. Não é um filme ecológico, mas o desmatamento é um dos elementos de conflito da história. Eu acho válido falar, mas tem que ser uma mensagem que traga uma curiosidade no público e que pense em soluções para o problema. Eu quero que as crianças sejam positivas em relação ao futuro. O Blu é um personagem que traz esse lado sensível e puro. Ele carrega uma ética muito forte e que eu acho muito importante. Ele tem a essência de um personagem que está aí para fazer o bem. Ele é um cara meio desengonçado, mas é um personagem honesto em tudo que faz.
 
Podemos esperar um Rio 3?
Carlos Saldanha. Ainda é difícil saber. O filme está saindo agora em DVD e ainda está bombando aí fora. Estamos na expectativa de deixar poeira baixar.
 
Um de seus próximos projetos é uma animação sobre Touro Ferdinando. O que despertou seu interesse por essa história?
Carlos Saldanha. O livro traz uma história muito simples, mas muito forte e muito relevante para hoje em dia. Apesar de ter sido escrito nos anos 1930, a temática ainda é muito atual. O livro fala da importância de você ser verdadeiro com aquilo que você realmente é. Que você não precisa mudar para se adaptar aos outros. A história é sobre você ter esse autoconhecimento e percepção e autoestima. Hoje existe muito a pressão do bullying. O próprio nome em inglês vem de bull, que significa “touro”. É uma temática que vem dos touros. A história me pegou de verdade. O Ferdinando é um personagem puro, honesto, gigante. Ele nasceu pré-determinado para ser um lutador feroz, mas ele é um touro forte e gentil.
 

Blu e sua turma agora na Amazônia
 
*Matéria originalmente publicada no Almanaque Saraiva, edição 98 – Julho de 2014.
 
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