Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.03.2012 20.03.2012

Apocalipse Zumbi coloca os zumbis na rota da literatura brasileira

Por Andréia Silva

Uma civilização entra em colapso em um mundo beirando o caos. Os poucos sobreviventes tentam escapar dos chamados “contaminados”, loucos para caçar os que ainda habitam o universo da normalidade.

 
Estamos falando de mais uma história envolvendo os zumbis, a ala de personagens mais pop do momento, mas que, ao contrário da maioria, não vem de fora do Brasil, e sim da imaginação do escritor Alexandre Callari. 
 
Apocalipse Zumbi — Os Primeiros Anos (Editora Évora) chama atenção por dois motivos: envolve um projeto que vai além do livro e dá ao tema a sua primeira obra de ficção na literatura brasileira.
 
Antes de Callari, houve um livro de ficção envolvendo zumbis que chamou atenção. Porém, na obra, o foco não eram essas criaturas.
 
Trata-se de Areia nos Dentes (Rocco, 2010), de Antonio Xerxenesky. Ambientado no faroeste, o romance fala sobre um escritor que tenta passar para o papel parte de sua história.
 
Aficionado por zumbis desde criança, Callari diz que começou a pegar gosto pelo tema ao assistir A Volta dos Mortos Vivos, em 1985. “Foi uma experiência assustadora para um jovem de 10 anos em meados dos anos 80”, diz o escritor. A influência do cinema não terminaria aí.
 
“Levou alguns anos até eu tomar contato com outros expoentes do gênero, Re-Animator (filme de 1985), os filmes italianos e, claro, os clássicos de George Romero. Foi por meio da obra desse sensacional diretor que comecei a compreender a profundidade que um filme com o tema ‘zumbis’ poderia ter, destacada do evidente aspecto ‘horror’”, completa.
Com tudo isso na cabeça, Callari foi pesquisando e esperando o tempo certo para lançar uma obra sobre o tema. “Quando surgiu a possibilidade de escrever meu primeiro romance (ele já lançou outros quatro livros), procurei fugir do que já era consagrado no Brasil, como o Andre Vianco e os vampiros, e do que achava que não teria muito apelo junto ao público – lobisomens, múmias, trolls, etc. ‘Zumbis’ era um tema que estava crescendo e era atrativo também pelo fator ineditismo. Parecia ser, de fato, a escolha mais certa”, conta.

O resultado foi um projeto grande. Apocalipse Zumbi é, na verdade, uma trilogia, com direito a trilha sonora composta pelo próprio Callari e que acompanha a obra, além de uma HQ contando parte da história que antecede o que está nos livros.

 
Dos dois próximos volumes da trilogia, ainda sem nome oficial, um está previsto para sair no segundo semestre deste ano e outro em 2013. Já a HQ chega ainda neste primeiro semestre, com ilustrações de Bruner Franklim e Mau Vasconcellos.
Alexandre Callari
Na história, Manes tenta manter a salvo os que ainda não foram contaminados pelos zumbis, abrigando-os no Quartel, seu esconderijo.
 
Mas a chegada do enigmático Dujas abala severamente o equilíbrio do Quartel, colocando em risco a vida de todos. Começa aí a busca pela cura e pela sobrevivência.
 
A opção de complementar o livro usando uma HQ parecia óbvia. Callari tem uma coleção de mais de 13 mil revistas e edita alguns títulos da DC Comics no Brasil, sem contar o efeito visual que as ilustrações dariam à história, ajudando a construir aqueles personagens e o ambiente no imaginário do leitor.
 
A prova da paixão do autor pelo universo dos quadrinhos também pode ser percebida nos nomes dados aos personagens.
 
Quem folhear Apocalipse Zumbi vai ver nomes como Conan, Espartano, Zenóbia, Hulk, todos saídos de HQs. Resta ao leitor conseguir identificar a relação entre esses personagens e os do livro, que podem render algumas pistas sobre a narrativa.
 
Outra curiosidade no livro são as categorias de zumbis criadas por Callari. Ao contrário do que vemos em filmes e séries – onde, quando se é mordido por um desses seres, você vira um deles e ponto final –, o autor criou tipos de zumbis baseado na própria vida real, onde cada doença se manifesta de um jeito em diferentes organismos. Na obra, há desde aqueles que apenas transportam o vírus aos que já deixaram de ser humanos.
 
“Esse aspecto em particular é uma criação minha. Quis dar tratamento similar aos meus zumbis, com grupos mais selvagens, convencionais (a maioria) e os que gozam ainda de uma fagulha de consciência humana. Há também os que, aparentemente, estão contaminados, mas guardam todas as suas faculdades mentais intactas. Mas o texto não dá fatos sólidos sobre isso, apenas conjecturas elaboradas – e essa é a graça de tudo. A decisão final do que está acontecendo cabe ao leitor”, conta ele.
 
Veja o trailer do livro Apocalipse Zumbi com direito à participação do autor na pele de Manes:
 
 
O mundo pop dos zumbis
Dos games para o cinema, depois os quadrinhos e agora a literatura – sem contar que, nos Estados Unidos, até curso para enfrentar zumbis já foi criado.
 
Cada vez mais na moda, histórias sobre zumbis continuam atraindo um grande número de leitores, interessados nesse submundo da humanidade.
 
Para Callari, os games deram o pontapé inicial a essa febre, já que mais de uma geração cresceu jogando com esses personagens em alguns dos melhores jogos do gênero, como Resident Evil, House of the Dead, entre outros.
 
A popularidade ainda se deve, para ele, a dois apelos comuns no gênero: a subversão de todos os valores sociais – justamente o que fisgou a atenção e Callari ainda pequeno – e o medo primal de ser devorado vivo (ainda mais canibalizado), que o homem guarda em sua psique desde os tempos das cavernas.
 
“Mas o que me instiga mesmo é a verdade por trás das lendas; toda aquela loucura que ocorreu (ou ocorre) no Haiti, relatada em The Serpent and the Rainbow. Aquilo sim é de arrepiar. Ver como os feiticeiros extraíam a tetrodoxina de peixes e moluscos em tempos idos, e utilizavam a substância para destruir a mente das pessoas, suas funções motoras e força de vontade, criando verdadeiros zumbis… Coisa de louco!”, diz um entusiasmado Callari.
 
Depois de mergulhar nesse universo, uma pergunta não pode faltar. Callari, você está pronto para uma invasão de zumbis? “Estou preparado para isso há anos. E adoraria que acontecesse. O mundo é um local muito chato!”.
 
 
Para mergulhar nos zumbis
Na TV… Atualmente, até que alguém crie um novo programa com zumbis, The Walking Dead é imbatível quando a pergunta é onde encontrar essas criaturas na TV. Em sua segunda temporada, atrai milhões de espectadores em todo o mundo, e no Brasil é exibida pela Fox, sempre às terças-feiras, às 22h. Vale lembrar que a série é baseada na HQ homônima.
No cinema… Para quem ainda não sabe, o excelente filme espanhol REC vai ganhar mais uma parte. A previsão é que o filme chegue aos cinemas em março do ano que vem.
Até lá, opções não faltam, das mais divertidas (do tipo Zumbilândia) aos clássicos de George Romero, filmografia básica para quem gosta do universo dos zumbis. Você pode começar com Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos, além, é claro, do clássico, A Noite dos Mortos Vivos.
Nos livros… Se você realmente espera uma invasão de zumbis, O Guia de Sobrevivência a Zumbis¬, de Max Brooks, tem que ser seu livro de cabeceira. Há ainda Zumbis: O Livro dos Mortos, de Jamie Russel, que é superilustrado.
Nos quadrinhos… O bom diálogo entre quadrinhos e zumbis não é de hoje. A HQ Mortos Vivos, que deu origem à série The Walking Dead, é das melhores pedidas. Outra leitura bacana é Zumbis: Mundo dos Mortos, da editora Gal, uma coletânea com várias histórias, que traz também textos inéditos de brasileiros como Gustavo Daher, Fábio Perez e Álvaro Omine. O Brasil também dá as caras com a HQ de Daniel Og, Yuri – Quarta-Feira de Cinzas. Até a Marvel se rendeu com a sua série Marvel Terror.
 
 
 
 
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