Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.10.2010 18.10.2010

Antônio Xerxenesky, obsessões literárias

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

Antônio Xerxenesky é escritor. Mas, aos 25 anos, ainda não se sente confortável com o título. Ele também atua como editor na Não Editora, onde organiza a revista online de crítica literária Cadernos de Não-Ficção. E, entre tantas leituras, mantém suas obsessões literárias: Julio Cortázar, Roberto Bolaño, Thomas Pynchon, Javier Marías, André Sant'Anna…

Gaúcho de Porto Alegre, filho de pais leitores, Xerxenesky acaba de relançar seu primeiro romance, Areia nos dentes, pela editora Rocco num contrato que consiste, ainda, a publicação de dois novos livros. Um trabalho realizado em paralelo a constante reflexão sobre o ofício. O romance é um faroeste com zumbis, narrado por um bêbado mexicano, inspirado no Alone in the Dark 3, o jogo de videogame. Uma prosa repleta de referências cinematográficas como Sergio Leone e Sam Peckinpah, além de um forte diálogo com a literatura de Cormac McCarthy, autor de Onde os velhos não têm vez (Alfaguara, 2006), que virou o premiado filme dos irmãos Coen. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Antônio Xerxenesky fala com paixão sobre a dedicação à escrita.

 

Você se formou em Letras e está cursando mestrado em Literatura Comparada. Como você concilia os estudos acadêmicos com o ofício da escrita?

Antônio Xerxenesky. Bom, acabei virando "escritor". Me sinto ainda esquisito com o rótulo "escritor". Acho esquisito uma pessoa de 25 anos se dizer escritor. Me tornei escritor porque eu lia muito. Sou, antes de tudo, um leitor. Escrever é consequencia. Como é que me tornei um leitor? A câmera não pega, mas estou na casa dos meus pais, minha mãe tem uma biblioteca enorme. Três quartos aqui da casa são forrados de livros. Ela é formada em Crítica Literária. Desde criança vivi cercado de livros, meus pais sempre leram muito. É quase natural, para alguém que vê pessoas lendo, um dia querer descobrir o que tem de tão emocionante nesse "objeto-livro". Algum dia começa com um livrinho besta, mas alguma tem que roubar um livro do [Julio] Cortázar e descobrir o que é que tem de bom. E quando tu vês não consegue mais parar de ler, meio que uma doença. [risos] Escrever acaba sendo consequencia. Se a pessoa ler demais, ela acaba pirando com isso e querendo escrever. Foi o que aconteceu comigo. E também por isso que entrei na faculdade de Letras e agora estou no mestrado de Literatura Comparada. Mas quanto mais tempo passo na academia mais eu vejo que isso não é para mim.

O conhecimento acadêmico não ajuda ao seu processo de escrita ficcional?

Xerxenesky. A vida acadêmica me tirou muitas ingenuidades quanto à escrita. Quando vejo um escritor falando: "Tenho uma ideia, inspiração, as mãos não param…" Se eu tinha a chance de fazer esse tipo de escrita, ela acabou para mim. Minha escrita é totalmente racional, desenhando mil esquemas, pensado todas as reflexões teóricas que podem até surgir do livro… Acaba se tornando uma escrita um pouco empedrada, mas eu tento contrapor com alguma leveza, algum humor. Acho que dá certo. Se a minha ficção deu certo foi por causa disso. A academia não aborda a literatura do jeito que eu gosto de abordar enquanto leitor. Não pretendo seguir carreira acadêmica, a não ser que tudo dê errado na minha vida. [risos] Se eu estiver muito desesperado, volto e faço um doutorado… A academia faz ler os livros de uma forma diferente, o que é muito interessante. Ela vai contra o senso comum, isso é muito importante. Mas, de certa forma, ela drena o prazer da leitura. E o prazer da leitura nunca se pode tirar. Se vai se falar de leitura tem que se falar sobre o prazer que é ler um livro. Isso é sagrado pra mim.

Na descoberta da biblioteca de seus pais, que autores despertaram seu interesse pela escrita?

Xerxenesky. As primeiras grandes descobertas para mim foram Cortázar e, curiosamente, o Daniel Galera. Porque eu era adolescente, tinha 16 anos, quando saiu Dentes guardados(Livros do Mal, 2002), o primeiro livro de contos do Galera. Que, lendo em retrospecto, acho um livro bem fraco, acho que ele também concordaria que é um livro fraco. Mas um livro muito importante para mim. Um livro que aqui no Rio Grande do Sul chamamos de um "livro de guri", que tu escreves quando está naquela idade que transmite uma gama de sensações. E aquilo me marcou muito, mostrar uma pessoa que vivia numa situação parecida com a minha – Porto Alegre, classe média – podia escrever algo esteticamente tão interessante. Depois, obviamente, surgiram outros escritores que marcaram muito: Thomas Pynchon, que me ensinou tudo que eu sei sobre o que se costuma chamar de "pós-modernismo", onde supostamente o que escrevo se encaixa; e o [Roberto] Bolaño, que foi a descoberta mais recente, com quem trabalho na faculdade.

Já leu as 852 páginas do 2666 (Companhia das Letras, 2010)?

Xerxenesky. 2666? Li faz tempo, em espanhol. O Bolaño é uma paixão recente, contrária a tudo que eu gostava antigamente na literatura… Porque acho a prosa dele extremamente política. Não do sentido "sou de esquerda contra a ditadura". Essa é uma visão muito reducionista do Bolaño. Mas o Bolaño tenta pensar qual é a importância da literatura. E, de certa forma, conclui em tom decepcionado que a literatura não serve para muita coisa. Mas ainda sim é tudo que nós, obcecados por literatura, temos. Tive uma identificação muito forte com esse personagem do Bolaño, que é, ao mesmo tempo, um herói, que tenta escrever a todo custo, e um idiota, porque aquilo não serve para absolutamente nada.

Para que serve a literatura para você?

Xerxenesky. Eu estou nessa com o Bolaño. Livros não vão mais mudar o mundo. E dificilmente vão mudar muitas pessoas. Se tu escreves, tu escreves para um gueto. Não é um gueto econômico… Alguns escritores, pouco literatos que simplesmente gostam de ler. O alcance da literatura é mínimo, sempre foi mínimo. Não está diminuindo, eu diria. Diria até que está aumentando, nunca se leu tanto no Brasil. Não adianta, se a pessoa gosta realmente de ler, ela não tem saída… Inevitavelmente você vai ler muito, inevitavelmente você vai querer escrever. Mas não serve para nada no final das contas. Cômico, trágico.

Além de autor, você é editor da Não Editora. Como é essa experiência?

Xerxenesky. A Não Editora começou assim… Um grupo de amigos percebeu que tinha tudo para montar uma editora: um revisor, um diagramador, um designer gráfico, uma assessora de imprensa… E tinha eu, que não faço nada, mas que conheço todo mundo. [risos] A gente pensou: "Temos tudo para montar uma editora! Vamos combinar nossos 'talentos' para publicar os nossos textos e das pessoas que a gente gosta. E vamos fazer edições realmente bonitas que devam convencer as pessoas a comprar. As livrarias não querem livros feios". A Não Editora surgiu nesse sentido. E, agora, alguns de nossos autores foram para grandes editoras, como a Carol Bensimon [autora do livro de contos Pó de parede (Não Editora, 2008) e do romance Sinuca debaixo d’água(Companhia das Letras, 2009)]. As editoras pequenas têm a função meio cretina no mercado literário: descobrir os novos autores. As grandes editoras estão esperando que a gente faça esse trabalho de descobrir quem é que está escrevendo bem na cidade e publique. Depois elas: "Esse aqui é realmente é muito bom, para o segundo livro vamos chamar ele…"

"Olha quem estamos lançando!"

Xerxenesky. Enfim, é complicado. Mas é assim que funciona mundo.

Você acaba de republicar seu livro Areia nos dentes, cuja primeira edição foi lançada pela Não Editora, em 2008.

Xerxenesky. A Rocco me contratou para três livros. A reedição do Areia, que acabei mudando muita coisa, tem cinco páginas a mais de texto e um monte de frases, que estavam feias, eu ajeitei… O próximo livro, não está com o título definido, é de contos. Não porque eu não consigo escrever um romance, voltei aos contos com intenção de escrever um bom conto. É uma carta de amor cheia de ironia e deboches, bem sarcástica.

E o terceiro livro?

Xerxenesky. Eu não tenho ideia. [risos] Mas tenho um prazo, isso que é o pior. O Areia nos dentes nasceu de uma forma meio sofrida. Quem está acostumado a escrever contos, que não precisa de muito fôlego, sofre para escrever um romance. Romance precisa da disciplina. E ainda mais um romance como o meu, que, boa parte dele, se passa no Velho Oeste. Tinha várias vezes que eu acordava de manhã e não queria escrever uma história no Velho Oeste… Eu queria escrever alguém pedindo uma Coca-Cola, fazendo alguma coisa que não seria possível no Velho Oeste. O romance tem essa disciplina de te obrigar a permanecer naquele universo, com aqueles personagens. Então, foi sofrido. O primeiro romance deve ser um sofrimento para todos os escritores. O Areia nos dentes tem uma ideia, muita gente achou original, que é faroeste com zumbis. É isso que ele é na essência dele. Na verdade isso veio do videogame porque sou um gamer inveterado. Tem um jogo chamado Alone in the Dark 3, que é um faroeste com zumbis. Eu roubei descaradamente disso, mas, ao mesmo tempo, é um livro muito literário. Não só por causa das referências, tem toda uma meditação sobre qual a função da literatura; qual a "intenção" da literatura; por que alguém vai narrar uma história. Todo narrador tem um motivo, consciente ou inconsciente. Mais do que um faroeste com zumbis, eu tentei pensar sobre o fazer literário. A relação com o cinema é muito evidente no Areia nos dentes

Fui um grande cinéfilo e hoje em dia meio que abandonei de vez. Obviamente o cinema me influenciou muito no Areia nos dentes porque é totalmente baseado nos filmes do Sergio Leone e Sam Peckinpah, grandes diretores de faroeste. Mas, hoje em dia, quase não vou ao cinema. São linguagens que não se comunicam tanto. O cinema chega a lugares que a literatura não chega. E a literatura chega a lugares que o cinema não chega. Já viu uma adaptação de Ulisses [de James Joyce? Sempre fico constrangido quando vejo alguém adaptando Ulisses, fica um horror. Tenho visto cada vez menos filmes.

E as influências literárias? Areia nos dentes fala do México, faço uma associação com o Roberto Bolãno.

Xerxenesky. Obviamente, eu tinha lido Detetives selvagens (Companhia das Letras, 2006) em 2007. Para o Areia nos Dentes, as principais influências foram o Against the Day (Putnam, 2006. Não traduzido no Brasil), do Thomas Pynchon – minha grande paixão, um escritor norte-americano completamente louco que escreve calhamaços de 700, 1.200 páginas sobre tudo e tenta dar conta de um universo e sempre fracassa. E o Cormac McCarthy, que pensou como seria possível escrever um faroeste nos dias de hoje. E tenho lido coisas um pouco diferentes, com muito rigor: Roberto Bolaño; Enrique Vila-Matas, outro obcecado por literatura; e, principalmente, Javier Marías, um escritor espanhol que aqui no Brasil ainda não recebeu a atenção que merece.  Ele é um escritor de se ler em voz alta. Não sei como estão as traduções porque sempre li em espanhol. Ele é um escritor de sintaxe. Sempre que estava lendo o Coração tão branco (Companhia de Bolso, 2008), eu tinha que fechar o livro e dizer: "Esse cara á um gênio!" E tinha que ler trechos em voz alta, de tão boa que era a prosa, uma prosa crocante.

E os autores brasileiros?

Xerxenesky.  No Brasil, tenho que dizer que meu escritor favorito, vivo, é, sem dúvida, o André Sant’Anna. A minha escrita não tem absolutamente nada a ver com a do André Sant’Anna, nunca escrevi nem um conto parecido com o que ele escreve. Mas não tem ninguém empurrando as fronteiras da linguagem como o Andre Sant’Anna. O que é curioso, ele é visto como um escritor pop, meio bobão. Não faz sentido para mim, os livros deles são violentíssimos. O paraíso é bem bacana (Companhia das Letras, 2006) que, para mim, é o grande romance brasileiro, é uma reflexão sobre como a linguagem constitui o ser humano. E o livro dele é lido de maneiras bestas, como se fosse panfleto político, comentários sociais rasos… Não. André Sant’Anna é gênio. Ninguém escreve tão bem como André Sant’Anna. E o pai dele também, o Sérgio Sant’Anna, eu diria que é o segundo maior escritor vivo, brasileiro. [risos] Que família essa dos Sant’Anna.

Seu primeiro livro é um livro de contos, Entre

Xerxenesky. [risos]

Um "livro de guri"?

Xerxenesky. É. Um "livro de guri". No “inicíssimo” da minha carreira de escritor eu lancei um livro de contos chamado Entre, que é um livro de alguém que está iniciando. Ele tem boas ideias e péssimas execuções. É um livro que foi esquecido, merecidamente foi esquecido. Mas ele serviu de laboratório com que eu viria trabalhar depois. Por isso ele é minimamente relevante.

Você é otimista em relação à produção de jovens autores?

Xerxenesky. Acho que a literatura brasileira está vivendo uma fase excelente. Tem que ser muito cego para não enxergar a quantidade de escritores maravilhosos que estão publicando agora. Tem gente demais escrevendo? Tem. Qual o problema? Não é um problema. Se alguma coisa me incomoda é aquele autor novo que não leu o seu livro, mas ele quer que tu leias o dele. Não porque tu és editor, mas não sei por que insiste que vai ajudá-lo a ser publicado ou alguma coisa… Ele não leu o teu livro, não é leitor da literatura brasileira contemporânea, mas quer ser um escritor contemporâneo. Isso não faz sentido para mim, é muito comum. E me irrita. Mas a gente está vivendo um período excelente, que bom que tem tanta gente escrevendo. 

> Assista à entrevista exclusiva com Antônio Xerxenesky ao SaraivaConteúdo

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