Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 07.01.2011 07.01.2011

Antonio Prata, o prazer da crônica

Por Felipe Pontes com a colaboração de Bruno Dorigatti

Foto de Tomás Rangel

A crônica, como o futebol, nãofoi criada no Brasil, mas é aqui que ela se desenvolveu melhor. Isso quem diz éo jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, organizador, entre outrascoisas, da criteriosa coletânea Boa Companhia – Crônicas (Companhia das Letras,2005). Antonio Prata o cita e vai além com as analogias, comparando o gênero àmodalidade futebol de salão, onde é preciso fazer dribles em um espaço curtoe chutar reto no gol, quer dizer, ir direto ao ponto. Ele continua: “Os dois esportesse desenvolveram na várzea, o futebol na várzea dos rios e a crônica na várzeada literatura, que é nesse lugar meio obscuro entre o jornalismo e aliteratura…””

Típica conversa de meiointelectual, meio de esquerda, estilo de ser personificado em Antonio Prata. Um dia estudante decinema, filosofia e ciências sociais – sem nunca concluir nenhum dos cursos -,há dois meses o jovem escritor e roteirista lançou mais uma coletânea decrônicas, dessa vez selecionadas entre as publicadas desde 2004 no jornalEstado de S. Paulo. Meio intelectual,meio de esquerda (Editora 34, 2010) veio sacramentar o que todo mundo jádesconfiava. Eis alguém apto a assumir a responsabilidade por algo que desde o séculoXIX descontrai a imprensa brasileira: o exercício de achar surpresa em coisasaparentemente singelas e óbvias do dia a dia. 

Sejam sobre tomates, meias, a barriga do Ronaldo, os comentários sobre o clima, a assinatura de umescrivão de cartório, ou, simplesmente, a própria morte – a maior obviedade detodas -, os textos de Antonio Prata chegam a lembrar a mesma espécie de feeling que encontramos em alguns mestres nessa arte sutil, como Rubem Braga, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Luis FernandoVerissimo, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto e… Mario Prata.

“Primeiro eu achava que meu paiera dono de uma fábrica de chocolates”, recorda Antonio, nascido em 1977, filhode Mario, esse sim completamente de esquerda, jovem escritor em época ideologicamentemais polarizada do que a atual. Ainda criança, Pratinha, como é chamado pelos amigos, ouvia os paisconversarem sobre uma certa Fábrica deChocolates e ficava ressentido por Prata pai não lhe presentear com o cacaudoce com a freqüência que julgava justa. Mal sabia ele que os adultos falavam deuma dentre as mais de uma dezena de peças escritas por Mario, logo uma cujotema é a tortura. “Só mais tarde fui entender que ele era escritor. Via eletrabalhando, datilografando à máquina e tal”, conta Antonio. “Muita gente achaque a literatura é uma espécie de desvio. As pessoas perguntam ‘quando vocêdecidiu ser escritor?’ quase como se eu tivesse que sair do armário, e na minhacasa esse armário já estava aberto e todo mundo já estava dentro dele ali, oufora dele, enfim”, arremata o assunto.

>Assista à entrevista de AntonioPrata ao SaraivaConteúdo

Foi aos dezenove anos que AntonioPrata encontrou numa livraria o escritor Fernando Bonassi – roterista deprogramas infantis cultuados da TV Cultura, como Castelo Rá-Tim-Bum e O Mundoda Lua, e autor de dezenas de livros – e disse que tinha uns textos prontose coisa e tal. Bonassi estranhou logo o jovem ainda não ter publicado um livro –“manda pra uma editora, eles publicam qualquer merda que a gente mandar. Não vendenada, mas publicar é fácil”, aconselhou o mais velho e experiente. Do episódio Antonioextraiu a gana para iniciar a carreira com o bem recebido livro de contos Douglas e outras histórias (Azougue,2001). Depois vieram As pernas da tiaCorália (Objetiva, 2003) e O infernoatrás da pia (Objetiva, 2004). 

Pão com queijo da maioria dos que desejam viver da escrita em terras tupiniquins, as crônicas começaram numa revista da MTV e logo surgiu o convite para escrever para a revista Capricho, onde permaneceu até 2008 e cativou toda uma geração de fãsadolescentes. As melhores crônicas desse período podem ser encontradas nascoletâneas sugestivamente entituladas Estive pensando… (MarcoZero, 2003) e Adulterado (Moderna, 2009).

Por sua vez, o título de Meio intelectual, meio de esquerda (Editora34, 2010) é extraído da primeira frase do grande hit de Antonio Prata: Bar ruim é lindo, bicho, único texto nolivro publicado primeiramente na internet, no site Blônicas, e logo espalhado como fogo em palha entre os que vestiram acarapuça. Trata-se de uma crônica que já passou ao imaginário coletivo, mas não se sabe se essa terásido a motivação para que a recém-lançada coletânea tenha sido incluída entreos dez livros brasileiros fundamentais da década, na lista composta em dezembro pela revista Bravo!

Prata demonstra lucidez em ser considerado “o melhor cronistade sua geração”: “Num país que tem uma classe média grande, a Espanha,Inglaterra ou Estados Unidos, um autor vender 50 mil exemplares diz algumacoisa. No Brasil, como ninguém vende nada, quem vende a crítica não gosta,pinçar quem é bom, quem é importante, acaba na mão de jornalistas e de críticosque escolhem esse ou esse. Fica uma geléia ali e só daqui a um tempo vamossaber quem é importante”, frisa ele. 

Enquanto esse tempo nãochega, Antonio Prata segue os trabalhos, seja adaptando um dos textos teatrais do pai – Purgatório (1984) –para o cinema, lapidando o primeiro romance, encomenda da coleçãoAmores Expressos da Companhia das Letras, ou prosseguindo com as crônicas, quea partir deste mês de janeiro passam a sair na Folha de São Paulo, no oportunocaderno Cotidiano, sempre às quartas-feiras.   

>Assista à entrevista deAntonio Prata ao SaraivaConteúdo

Recomendamos para você