Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.06.2014 13.06.2014

’Antes que eu Morra’: o divã de Luis Erlanger

Por Cintia Lopes
O jornalista Luis Erlanger é o típico leitor ávido de ficção que nunca havia pensado em escrever. Mas há anos mantinha o hábito de fazer anotações aleatórias sobre os mais variados temas. Guardava tudo até que resolveu agrupar as ideias em textos. Rapidamente chegou a 40, a maioria escrita nos finais de semana em Secretário, cidade a 100 quilômetros do Rio, onde Erlanger mantém um sítio.
Assim surgiu Antes Que Eu Morra, da editora Record, seu livro de estreia na literatura. Um thriller policial com narrativa diferenciada e que mescla fatos verídicos com informações distorcidas justamente com a intenção de confundir o leitor. “Acho que comecei a escrever porque coincidentemente fiz uma operação de recuperação de audição no ouvido direito no mesmo período em que eu estava fazendo formação psicanalítica. Tenho a impressão que eu abri uma tampa na minha cabeça”, explica.
Com 40 anos de jornalismo e passagens marcantes como repórter e editor de política do jornal O Globo nos anos 90, o atual diretor da Central Globo de Análise e Controle de Qualidade de Conteúdo queria mesmo era fazer uma autêntica “pegadinha” literária com a verdade dos fatos. “Foi a minha grande vingança nesses 40 anos de carreira sempre correndo atrás de notícia e precisão. Então é uma farra você mentir descaradamente e disfarçadamente”, explica, com uma sonora gargalhada.
Segundo Erlanger, criar essa espécie de desserviço à informação foi bastante complexo. “Esse meu exercício de distorcer e desinformar foi mais trabalhoso do que uma apuração metódica”, compara.
Tanto que resolveu fazer essa brincadeira de “verdade x mentira” influenciado pela formação como executivo na área da Comunicação. “Hoje a gente é inundado por tanta informação que não temos capacidade de processar isso tudo. Muito menos de averiguar. Até mesmo em veículos sérios a informação virou algo meio supérfluo”, acredita.
Para isso, criou um protagonista sem nome que expõe seus conflitos para o psicanalista Bernardo Genuss. Calculou uma média de duas sessões de análise por semana e inseriu nas falas do personagem as suas citações preferidas da literatura universal. “Tem uma passagem em que o cara fala sobre a personalidade dele. Então ele cita um trecho do Lobo da Estepe, do Hermann Hesse. Para descrever a ação da heroína no sistema circulatório, por exemplo, lembra de Riacho do Navio, do Luiz Gonzaga”, exemplifica.
A história, um verdadeiro thriller policial regado a cenas de drogas, sexo e rock’n’roll, mescla uma trama de suspense que envolve homicídio, perseguição e que segue para um sofisticado esquema de prostituição e corrupção ligado à política de Brasília.
 
                 Leonardo Aversa
Livro de estreia do jornalista e diretor de Análise e Controle de Qualidade da Globo mescla suspense, corrupção, drogas e rock’n’roll com informações distorcidas para confundir o leitor
A ambientação na capital federal não foi à toa. Trata-se da cidade na qual Erlanger morou por vários anos e que foi palco das coberturas jornalísticas mais significativas de sua carreira, como o movimento das Diretas Já e o impeachment do ex-presidente Fernando Collor.
Erlanger não esconde que os anos vividos por lá serviram de influência para a trama recheada de corrupção. “Fui repórter de política a vida toda. Não tem como eu não ter projetado coisas da minha experiência. Mas a decisão de colocar corrupção política foi racional e em busca de um tema da atualidade”, frisa.
E se a trama apresentada em Antes Que Eu Morra fosse um retrato de uma história verídica, qual seria a manchete no jornal? “Sem dúvida,algo como: ‘Esquema de corrupção de senador envolvia até rede de prostituição’. Acho que isso venderia jornal pra caramba”, aposta.
Erlanger lembra que demorou um pouco a tomar a decisão de lançar um livro. “Uma das coisas que eu sempre avaliava é que não havia nada que a ficção pudesse tratar que a realidade não tivesse abordado antes”, lembra.
E para alguém que começou a carreira como assistente de editoração da editora Jorge Zahar, tornar-se autor literário era algo impensável no passado. “O que muda em termos de perspectiva é que eu não tinha a mínima noção de quanto é trabalhoso escrever e quanto trabalho eu daria aos assistentes de edição”, conta, entre risos.
A veia jornalística de Erlanger é incessante. Nesses 40 anos de jornalismo, não titubeia em apontar a maior história já registrada. E não tem a ver com política. Aconteceu no final da década de 70, quando um casal de amantes sexagenários vai ao circo. O espetáculo começa. Vem uma bala perdida do alto do Morro São Carlos, no Rio de Janeiro, e atinge o senhor, que morre na hora. Graças à foto que fizeram um pouco antes, é descoberta a identidade dele.
E quando a imprensa vai escutar o marido traído, ele responde: “Não tenho ódio de ninguém. Porque ele, que eu achava que era meu amigo, está morto, e ela destruída”. “Isso é Shakespeare puro. Tem todos os elementos do romance, traição, tragédia… Não existe nada mais absurdo que a realidade”, acredita Erlanger.
 
                                                                                        Leonardo Aversa
“Hoje a gente é inundado por tanta informação que não temos capacidade de processar isso tudo. Muito menos de averiguar. Até mesmo em veículos sérios a informação virou algo meio supérfluo”
 
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