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Ana Moura é do fado, é fadista

Por Priscila Roque

Ela tem pouco mais de 30 anos e uma voz tão versátil que foi capaz de impressionar até os músicos da banda inglesa Rolling Stones.
Para dar início ao especial sobre fado contemporâneo do SaraivaConteúdo, escolhemos essa cantora: Ana Moura
 
Ana possui uma beleza notória, mas quando entoa as notas iniciais de um dos seus primeiros temas, “Sou do Fado, Sou Fadista”, do disco Guarda-me a Vida na Mão, a paixão é que se destaca.
Natural de Santarém, a cerca de 80 quilômetros de Lisboa, a fadista soma quatro álbuns de estúdio lançados – Guarda-me a Vida na Mão (2003), Aconteceu (2004), Para Além da Saudade (2007) e Leva-me aos Fados (2009) –, além de um registro ao vivo – Coliseu (2008). 
 
No ano passado, ela esteve no Brasil para participar do festival Back2Black e dividiu o palco com Gilberto Gil para cantar “A Novidade”.
O fado entrou naturalmente em sua vida. Ainda na infância, sentia a influência do estilo pelos discos que seus pais ouviam. Entretanto, as primeiras músicas que cantou profissionalmente eram de pop rock.
O que Ana Moura não imaginava é que mesmo migrando definitivamente para o fado, ainda seria convidada por Mick Jagger e companhia para cantar duas músicas do repertório da banda, à sua maneira.
O SaraivaConteúdo a convidou para contar mais sobre essa experiência e a aceitação do fado por culturas do resto do mundo.
A sua estreia foi em uma casa de fado. Entretanto, hoje você lota casas de shows no mundo todo e até já se apresentou em estádios de futebol. Há um local ideal para se cantar o fado?
Ana Moura. Não defendo que exista um lugar ideal para cantar fado. Normalmente, dizemos que o fado acontece e pode ser nos espaços mais inesperados. É uma questão de alma e do momento que se cria entre os fadistas, músicos e o público presente.
Todos os seus discos são compostos de canções em português. Nos próximos, você pensa em gravar em uma nova língua, já que tem fãs espalhados pelo mundo?
Ana Moura. É uma possibilidade que não posso excluir. Eu sou fadista e defino-me como tal, mas acho que a minha música e o fado só têm a ganhar com o cruzamento de outras linguagens musicais e até, porque não, com outros idiomas.
Como você observa esse interesse tão grande pelo fado de povos com culturas tão diferentes da portuguesa?
Ana Moura. O fado é uma alternativa a quem procura música que foge ao que mais se escuta e se faz no mundo inteiro. O fato de ser um gênero com particularidades diferentes, nomeadamente o som da guitarra portuguesa e a interpretação intensa e profunda do fadista, acaba por atrair muita gente.
Como é trabalhar com Jorge Fernando, um dos maiores compositores da música portuguesa, que esteve tantos anos com Amália Rodrigues?
Ana Moura. O Jorge Fernando é um músico completo: compõe grandes músicas, poemas, é responsável por alguns dos clássicos que já pertencem à historia do fado, é um belíssimo cantor e um excelente produtor. Ele trabalhou com as vozes que mais marcaram a geração anterior, como Amália Rodrigues e Fernando Mauricio. Fazendo parte de uma geração mais recente, ainda conseguiu trazer aos fadistas da atualidade, como eu e o Camané, a bagagem que os artistas anteriores lhe ensinaram, mas com uma roupagem mais fresca.
Você cantou ao lado dos Rolling Stones as músicas “Brown Sugar” e “No Expectations” em um show da banda em Portugal, além de ter gravado as mesmas canções para o saxofonista Tim Ries. O que um projeto como esse significa em sua trajetória?
Ana Moura. Para mim, significa o apreço que, cada vez mais, músicos de áreas completamente distintas têm pelo nosso fado. E, na minha trajetória, tem-se traduzido nas influências que me trouxeram e fazendo com que um público não muito atento ao fado me conheça e me siga cada vez mais de perto.
O fado saiu de Portugal com Amália Rodrigues e, a cada década, ganhou um espaço diferente no mundo. O que mudou nessa transformação do fado moderno para o contemporâneo?
Ana Moura. Todas as gerações sofrem evoluções naturais. O fado vive muito da escolha da poesia e, sendo esta mais contemporânea, faz com que haja uma mudança e, obviamente, como tudo o que vemos, sentimos, experimentamos, nos influencia musicalmente e acaba por haver também uma evolução e transformação naturais.
Diversos fadistas passam mais tempo em turnê no exterior do que em Portugal. O fado poderia ter um espaço diferente no país?
Ana Moura. O fado tem muito espaço em Portugal. Os portugueses gostam muito de fado, e as tabelas de vendas dizem isso mesmo. Eu, por exemplo, não posso me queixar da forma como o meu país me trata. Acontece que o fado também é muito querido um pouco por todo o mundo, e isso faz com que, no meu caso concreto, nem sempre possa atuar em Portugal porque passo, de fato, muito tempo em concertos no estrangeiro.
No ano passado, você dividiu o palco com Gilberto Gil. A música brasileira faz parte de suas influências?
Ana Moura. A música brasileira faz grande parte das minhas influências. Os meus pais sempre tiveram muita música brasileira em casa e tive logo o privilégio de iniciar o meu gosto pela música com a preponderância de grandes artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Nana Caymmi e muitos outros.
O que o fado significa hoje em sua vida?
Ana Moura. O fado sempre esteve muito presente na minha vida, começou por ser partilhado pelos meus pais nas tertúlias que faziam com os amigos ao fim de semana e, como foi um gênero que me marcou muito, mesmo cantando outros estilos, o fado estava sempre lá. Hoje, o fado é a minha forma de estar na vida, não consigo dissociar o fato de ser fadista em nada do que faço ou sou.
 
 
Assista ao vídeo de “Leva-me aos Fados”, gravado em 2009:
 
Essa entrevista faz parte do especial sobre fado contemporâneo do SaraivaConteúdo, do qual também participam Cristina BrancoMísiaPedro MoutinhoMafalda ArnauthMarco RodriguesMargarida Guerreiro e Camané – cantor que encerra o especial.
 
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