Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.06.2012 21.06.2012

Ana Miranda fala sobre seu processo criativo e a repercussão da sua carreira no exterior

Por Cristina Judar e Maira Reis
 
 
Uma senhora elegantemente vestida adentra, ofegante, o espaço em que duas jornalistas do SaraivaConteúdo a esperam para a entrevista. Ela tira os óculos escuros, arruma os cabelos e sorri ao pedir desculpas pelo atraso, com uma voz suave e sutil.
 
Todo esse requinte é intensificado pelo currículo da mulher: três prêmios, sendo dois Jabutis e mais um pela Academia Brasileira de Letras.
A “madame” em questão é Ana Miranda, uma escritora além de prêmios. Sua obra é traduzida em cerca de vinte países e seu romance Desmundo foi adaptado para o cinema. No meio acadêmico, há algumas teses e monografias sobre seus escritos que valorizam o diálogo entre autores, obras e a história do Brasil. Ana Miranda é ainda colaborada da revista Caros Amigos e do Correio Brasiliense.
O que ninguém sabe é que, além de tudo isso, ela tem talentos escondidos: é desenhista e ex-atriz (do filme Como era gostoso o meu francês).
Nesta entrevista,, Ana Miranda fala sobre seu processo criativo onírico, a receptividade do seu trabalho no exterior e outros assuntos.
 
De que forma os sonhos alimentam a sua criação poética?
Ana Miranda. Tenho uma relação muito forte com os sonhos. Eu abri essa porta quando adolescente, pois tinha o costume de anotá-los, e por isso aprendi a conviver com eles. Os sonhos vêm do fundo de nós, dão muitas pistas e influenciam a vida das pessoas. Nesse universo, em que todos os elementos de sua vida se relacionam de uma forma completamente livre, você tem material para construir o que quiser.
Quais livros seus são originários de sonhos?
Ana Miranda. Boca do Inferno nasceu de um sonho com uma mulher muito velha e cega que, quando eu subia em uma torre, contava que tinha sido amante do Gregório de Matos. O outro livro, O Retrato do Rei, é resultante de um sonho em que eu estava em uma casa no século 17, com as roupas da época. A festa do meu casamento estava sendo preparada, mas meu vestido de noiva tinha sido roubado. Eu saí a cavalo e segui pela trilha do ouro atrás do vestido. Foi esse sonho que me levou à escrita do passado e ao interesse pela trilha do ouro, pela qual me apaixonei. Como a minha formação com a palavra aconteceu através da poesia, esse encontro com o vocabulário de outros tempos, por meio da pesquisa de documentos e textos antigos, fez com que eu me interessasse ainda mais por esse tipo de escrita.
De que forma a poesia está viva na sua prosa?
Ana Miranda. Eu tenho uma forte admiração por Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, assim como por Gonçalves Dias, com os quais tenho uma relação profunda e apaixonada. A poesia é a fonte linguística, tenho gosto por essa arqueologia: amo cavar as palavras, achar pepitas na língua. Ela se mantém viva na minha obra e me acompanha.
Qual é a sua relação com as palavras? Você ‘briga’ muito com elas?
Ana Miranda. Sim, eu brigo (risos). Principalmente quando não consigo encontrar a palavra certa para aquilo que quero dizer. Às vezes escrevo aquilo que não quero falar e elas me traem, mas logo faço as pazes. Tenho uma relação bastante emotiva com elas, que são muito racionais, enquanto eu sou muito intuitiva. As palavras são terríveis (risos).
Mudando de assunto, e em relação à receptividade do seu trabalho no exterior? Como tem sido?
Ana Miranda. Isso aconteceu mais em relação ao livro Boca do Inferno, um fenômeno que surpreendeu a mim e a todos e, de certa forma, abriu algumas portas nesse mercado. Mas, influenciando essa receptividade, há uma barreira, não da língua, mas do modo de expressão. Muitos norte-americanos, por exemplo, tentam compreender Guimarães Rosa, mas nunca vão senti-lo da maneira como o sentimos, pois, no modo de se comportar, é muito difícil que um escritor seja universal. Um exemplo de conquista dessa universalidade talvez seja Saramago, que conseguiu isso quando passou a escrever seus ‘romances-fábula’.
O fato de o seu livro Desmundo ter sido adaptado para o cinema fez com que sua obra se tornasse mais universal, pois alcança outro tipo de público em uma mídia diferente?
Ana Miranda. Toda literatura tem essa universalidade. No entanto, a adaptação deste livro fez com que ele se tornasse mais conhecido dentro de dois circuitos: o literário e o cinematográfico, mas não no universal – que é algo que deve estar presente no dia a dia das pessoas.
 
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