Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.04.2014 25.04.2014

Ana Maria Machado: as histórias de vida por trás de uma grande contadora de histórias

por Maria Fernanda Moraes

Poderíamos começar a falar sobre a escritora Ana Maria Machado enumerando os importantes prêmios que ela já recebeu, como o Hans Christian Andersen, em 2000, uma espécie de prêmio Nobel da literatura infantil mundial. Ou então o maior prêmio literário nacional, o Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras em 2001 pelo conjunto de sua obra. Poderíamos também lembrar que ela foi eleita, em 2003, para ocupar a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, representando, pela primeira vez, um autor com uma obra literária infantil significativa para a Academia. Isso sem contar que, alguns anos mais tarde, em 2011, ela seria eleita presidente da instituição, fazendo história como a segunda mulher a dirigir a Academia Brasileira de Letras (esteve à frente dela em 2012 e 2013).

Entretanto, para os leitores, foi com as suas histórias que Ana Maria conquistou seu lugar cativo. Ao longo de seus mais de 40 anos de carreira como escritora, seus personagens já figuraram na imaginação de diferentes gerações de crianças. E ela própria concorda com essa ideia. “Meus leitores crescem, se espalham, se multiplicam por toda parte, o que me enche de alegria. Mais até do que as traduções e os prêmios em diferentes países, que evidentemente me deixam contente. Mas é para o leitor que um autor escreve. Só com um leitor é que o livro se completa”.

E, afinal, qual é o segredo por trás de uma contadora de histórias que perpassa tantas gerações? Ana Maria Machado não tira nenhum coelho da cartola; ela é apenas uma boa ouvinte das histórias dos outros. E tudo isso começou lá atrás, na infância. Nascida e criada no Rio de Janeiro, ela costumava passar os verões de sua infância na praia de Manguinhos, no Espírito Santo, como conta em sua biografia no site pessoal.

“Ficava quase três meses por ano à beira do mar, com meus avós, junto à natureza e às tradições. Como não havia eletricidade, todas as noites as pessoas se reuniam para contar e escutar histórias. Cada adulto tinha a sua especialidade, contando os mais variados tipos de história. Tenho certeza que sem os verões em Manguinhos eu escreveria bem diferente”.

Das histórias ouvidas no verão, foi um pulo até começar a ler sozinha, antes dos 5 anos. A estreia literária veio logo depois, aos 12, com o texto “Arrastão”, sobre as redes de pesca artesanal em Manguinhos, que o tio leu, gostou e apresentou à revista Folclore.

O caminho das letras, entretanto, não seria tão linear. Depois de tentar a faculdade de Geografia, formou-se em Letras e se dedicava concomitantemente à pintura. Passou a dar aulas, e foi nessa época que recebeu o convite para escrever em uma nova revista voltada para crianças, a Recreio, que acabou abrindo caminhos para a nova literatura infantil brasileira.

Durante a ditadura militar, exilou-se na Europa. Em Paris, além de trabalhar como jornalista, também dava aulas na Sorbonne. Aproveitando o tempo para estudar, tornou-se aluna da Ecole Pratique des Hautes Etudes, cujo professor era nada mais, nada menos que o famoso semiólogo Roland Barthes. Foi sob a orientação dele que ela escreveu a tese de doutorado O Recado do Nome, sobre a obra de Guimarães Rosa. A tese seria publicada logo em seguida como seu primeiro livro.

Já de volta ao Brasil, em 1972, retomou seus trabalhos como jornalista até 1980, quando decidiu se dedicar exclusivamente à literatura. Ainda no seu caminho estaria a Malasartes, uma livraria especializada em literatura infantil que abriu com uma sócia. “Durante esse período, descobri que acaba se tornando impossível tentar compatibilizar as duas coisas. Um escritor é um artista, tem que ser livre. Um livreiro é um comerciante, tem que dar sempre razão ao freguês”, recorda-se.

Romances, literatura infantil e até poesia. Nada escapa à autora que escreve o tempo todo e já tem mais de 100 livros publicados. “Sei muito bem que hoje em dia, com as novas tecnologias, o livro não é mais o eixo central em torno do qual gira toda a cultura. Mas acho justo que todas as pessoas possam ter acesso a tudo o que a leitura pode nos trazer”.

Além das narrativas por trás de uma legítima “escutadora de histórias”, a escritora também revela como foi inventar seus próprios personagens. Apesar dos textos curtos com sílabas simples, que permitem que o leitor entre no mundo da leitura, a compreensão de texto também dá a eles a possibilidade de identificar valores além do enredo. Junto às histórias imaginativas, com personagens tipicamente brasileiros, ela traz temas que fizeram parte da história do país, como a ditadura militar e o empoderamento e emancipação das mulheres.

Descubra um pouco da história por trás dos seus livros mais famosos:

Bento-que-Bento-é-o-Frade

“Esta é uma obra especialmente querida, porque foi o primeiro livro infantil que eu publiquei. No começo dos anos 70, eu já escrevia regularmente para a revista Recreio. Mas as histórias tinham que ser curtinhas e eu andava com muita vontade de escrever algo maior. A gente estava em plena ditadura, convivendo com autoritarismo e repressão. Então, foi natural eu escrever a história de uma menina que não gostava de ‘mandação’ e sonhava com um lugar onde pudesse fazer tudo o que quisesse. Esse título de Bento-que-bento-é-o-frade é o nome de uma brincadeira que em alguns lugares do Brasil é chamada de Boca de Forno.”

Bento que Bento É o Frade - 2ª Edição 2003

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Bisa Bia, Bisa Bel

“Quando escrevi Bisa Bia, Bisa Bel, só estava era com muita saudade de minhas avós. Vontade de falar sobre elas com meus dois filhos. Não imaginava que pouco depois ia ter uma filha e essa linhagem feminina ainda ia ficar mais significativa para mim. Nem que a história ia fazer tanto sucesso, ganhar tantos prêmios, ser escolhida como um dos dez livros infantis brasileiros essenciais, ser traduzida pelo mundo afora e, sobretudo, tocar tantos leitores.”

Bisa Bia , Bisa Bel

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Raul da Ferrugem Azul

“Também escrevi Raul da Ferrugem Azul na ditadura. Eu era jornalista e tinha sido convidada, com vários outros colegas, para um encontro de dois dias na casa do Cardeal do Rio. Achei que aquela era uma oportunidade única para protestarmos contra a censura. Para minha total surpresa, com exceção de Ziraldo e Millôr Fernandes, nenhum dos presentes topou reclamar. E eu fiquei pensando: como podem todos serem considerados entre os maiores jornalistas do país e enferrujarem sua capacidade de reagir? Voltei para casa pensando nisso, e meu filho chegou da escola revoltado porque vira um episódio num ônibus em que alguém era chamado de ‘neguinho’ de forma pejorativa e ninguém reclamou. Fui juntando as coisas e o livro começou a tomar forma.”

Raul da ferrugem azul

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Era Uma Vez um Tirano

“Este livro foi escrito em 1981, quando já tinha havido a anistia, mas ainda vigoravam as leis da ditadura. Por isso, ao contar esta história de um ditador, eu resolvi testar e não mais chamá-lo de rei, como tantos de nós, autores, tínhamos feito antes. Arrisquei dar-lhe o nome de Tirano – o que, por si só, foi considerado uma temeridade por muita gente. As proibições do Tirano, lembradas no livro, estavam na memória recente de todos. E não vigoraram apenas no Brasil. Minha proposta para vencer a situação era simbólica, naturalmente. Mas tinha a ver com o caminho em que eu acreditava: uma festa feita com a união de toda a nação, nas suas diferentes etnias e gerações, com os recursos da memória e da criatividade artística, e com a pureza e coragem das crianças.”

Era uma Vez um Tirano - 2ª Edição 2003

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