Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 26.01.2010 26.01.2010

Ana Cañas, do jazz ao rock

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Ana Cañas ao SaraivaConteúdo 

Ana Cañas dormiu pouco nos dois últimos dias, quando esteve no Festival de Verão, em Salvador, e seguiu direto no dia seguinte para tocar no Humaitá pra Peixe, na Lapa carioca. Mesmo assim, não aparenta cansaço após a passagem de som no Circo Voador para o show no último sábado, 23 de janeiro. A cantora lançou em 2009 seu segundo disco, Hein?, produzido por Liminha e com participação de Arnaldo Antunes, parceiro em cinco das 12 músicas do disco, que conta com a versão de “Chuck Berry fields forever”, de Gilberto Gil. 

Bem humorada, Cañas falou, entre outras coisas, sobre o começo, quando se endividou para poder bancar dois shows, e a paixão pelo jazz e, mais tarde, pelo rock, tônica desse segundo álbum. Comentou ainda a oportunidade de compor e tocar com Arnaldo Antunes e de trabalhar com Liminha, ex-integrante d’ Os Mutantes, banda fundamental para a cantora e compositora que completa 30 anos em 2010.

Acompanhe alguns dos melhores momentos dessa entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo
 

 

O jazz e as divas 

“Tinha 22 anos e nunca tinha ouvido nada de jazz. Na época [2002], ouvi a Ella Fizgerald cantar e minha relação com a música mudou. Fui uma adolescente muito radiofônica, ouvia muito rádio FM, Jovem Pan, Transamérica, não tinha ninguém na minha família que fosse mias musical, tocasse um instrumento ou que cultivasse essa coisa da cultura musical dentro de casa. Quando ouvi a Ella improvisando com a voz, foi um choque. Me lembro, até hoje, da sensação que eu tive. E, de repente, eu percebi que aquilo era uma forma de expressão muito pessoal. Comecei a correr atrás, e a ouvir todas as coisas, essa monomania que tenho, de ficar ouvindo o mesmo estilo durante muito tempo. Aí fui para Billie Holliday, Sarah Vaughan, Carmen McRae, Nina Simone. Comecei a ouvir jazz instrumental, Miles Davis, John Coltrane, Ben Webster, essa turma toda que adoro. Por conseqüência, fui ouvir música brasileira, Tom Jobim, Chico Buarque. Me apaixonei por esse lance e comecei a cantar. Na época, estava duríssima, precisando de grana, fazendo faculdade, pagando aluguel e comecei a cantar na noite, com amigos que tocavam violão. 

Não sou uma jazzista, né? Não toco nenhum instrumento. Violão, tenho aprendido há pouco tempo, não leio partitura e nunca estudei música formalmente. Então era uma jazzista cara-de-pau, de ficar ouvindo os temas, decorando as melodias. E era difícil, porque cada cantora tem uma melodia diferente. No jazz, a verdadeira forma de improvisação é a modificação, a criação do seu jeito pessoal de fazer. Isso ampliou a minha maneira de entender música, e fui desenvolvendo minha musicalidade cantando na noite, que é uma grande escola.”
  

O primeiro disco, Amor e caos

“Depois de dois anos pagando dívida de shows [um no Teatro da USP, outro no Crowne Plaza], financiados no Finasa, eu falei ‘agora eu vou gravar um disco’. Cantava de segunda a segunda, para poder juntar uma grana para produzir meu disco. E fui por esse caminho autoral, muito sem saber fazer. Comecei a compor e acabou virando esse disco. Ele foi pago por mim, foi muito difícil, levei seis meses para produzi-lo. E a Sony entrou aos 45 do segundo tempo. Eles gostaram do disco, estavam procurando uma cantora que também compusesse, e me deram a liberdade artística e estética, que é muito importante para mim. É um disco muito influenciado pela vivência da noite, foram cinco anos intensos, cantando jazz, MPB e bossa nova. Antes do Bareto [no Hotel Fasano], cantei na Vila Madalena, no Itaim Bibi. O rock veio só depois.”
 

O rock

“Descobrir Beatles teve a mesma importância que a Ella Fitzgerald, abriu todo um portal dimensional, de loucura. Comecei a desvincular essa coisa de ser só o jazz e a entender o rock na sua simplicidade. Mas, você ser simples e não ser óbvio é uma das coisas mais difíceis. E o rock tem essa forma direta de expressão, de atitude, de influenciar uma grande quantidade de pessoas. E o jazz é outra pegada.”
  

O segundo, Hein? 

“Aproveitei o segundo disco para negar muitas coisas do primeiro, buscar um novo caminho, de certa forma. Um aprofundamento na composição, o que foi uma crise para mim. Tanto que fui buscar parceiros como Arnaldo Antunes e caras que admiro muito. Queria aprender com eles, Liminha, Dadi. Foi muito louco, porque, em vez de confirmar essa expectativa do jazz, busquei outro caminho, completamente novo, com influências de rock, que comecei a ouvir muito – Beatles, Led Zeppelin, The Clash, The Who, Patti Smith, o punk, o som feito na década de 1970, Jimi Hendrix etc. E foi um universo totalmente novo também, assim como foi com o jazz. 

Nessa época eu também estava ouvindo muito Os Mutantes, e quando conheci o Liminha [produtor do disco e ex-integrante da banda] rolou uma empatia imediata, deu muito certo. A gente ficou muito amigo, ele me ensinou muita coisa, foi um mestre. A gente gravou esse disco praticamente ao vivo, e foi uma experiência muito bacana, que pretendo repetir.”
  

Arnaldo Antunes 

“O Arnaldo é o supra-sumo dos letristas brasileiros. Quando comecei a ouvir rock, peguei os primeiros discos dos Titãs, Jesus não tem dente no país dos banguelas, Õ Blesq Blom, Cabeça dinossauro, e sempre acompanhei os Titãs. Foi inclusive o primeiro show que vi ao vivo, na época do acústico, no Palace, em São Paulo. Na época, já sem o Arnaldo, mas aquilo me marcou. Pagava pau literalmente para ele, mas nunca tinha tido coragem de chamá-lo para compor, tocar. No primeiro encontro que tive com ele, fiquei emocionada, chorei, passei mal. Fã mesmo. E o Liminha é muito próximo do Arnaldo, eu tinha umas melodias no violão, queria botar as letras e tinha umas idéias de temática. E achava que ele era o cara perfeito para fazer alguns versos, essa coisa urbana que ele tem, vive em São Paulo, gosta dessa coisa. O Liminha bateu um telefone pra ele, que topou e veio. E foi uma delícia, nos encontramos e o Arnaldo fez as letras na hora. Em “Na multidão”, eu tocava o violão e ele escreveu, e era a minha personalidade. Essa sensibilidade dele, de conseguir captar o teu universo, é muito especial. Para mim, é uma honra indescritível. Estou aqui falando dele, mas talvez o silêncio diga mais.
  

Daqui pra frente 

“Eu não sei… Tive a experiência incrível de trabalhar com o Nando Reis, gostei demais. Então podem surgir futuras parcerias com ele. Gostei muito de trampar com o Liminha também. E é muito recente, faz seis meses que lance esse disco,. Já estou compondo músicas novas, tenho algumas já. Talvez um DVD para o final do ano, mas nada definido ainda. Não estou muito com a cabeça no futuro, até porque eu não consigo. Vou descobrindo tanta coisa ao mesmo tempo. Estou sempre procurando. Agora estou envolvida com Radiohead, estou ouvindo a discografia deles, que é uma banda incrível. E aí você chega em outras coisas, no que influenciou o Thom Yorke. Por trás de um gênio existem sempre outros gênios, é uma árvore ‘gêniológica’, onde você passa um tempão. 

Estou numa fase ouvindo muito rock n’ roll. Mas eu gosto muito do jazz, é uma coisa que acho que sempre vai estar presente dentro do meu espírito musical. Mas sempre nesse esquema jazzista cara-de-pau, esse espírito de fazer sem saber fazer. E é nisso que vejo graça. Não sei se arte existe alguma receita, se alguém te ensina a fazer um filme, um documentário, uma música, sabe? É um exercício de dar a cara à tapa, não existem passos muito seguros e você está exposta. A crítica às vezes te beija, te bate. 

No momento agora, diria que o próximo disco tenha ainda bastante dessa atmosfera desse disco atual. Mas não posso garantir. Se você tivesse me entrevistado seis meses após o primeiro disco, talvez eu desse essa resposta [falando em tom de galhofa]: “Acredito que o meu segundo disco vai ser muito jazzístico, com influências de pop e MPB”. Mas você vê que saiu tudo pela culatra, tudo ao contrário. Então provavelmente esteja aqui pagando mico, dizendo que o próximo será parecido com o segundo, e eu não sei. Só espero que eu tenha a sinceridade, a vontade e a paixão para fazer um novo disco e ser honesta. Mesmo que isso signifique mudar de caminho de novo. É isso.”

> Leia mais sobre o segundo disco da cantora, Hein?

> Assista ao clipe de "Esconderijo"

> Confira o site e o MySpace da cantora 

> Ana Cañas na Saraiva.com.br

Hein? (Sony, 2009) 

Amor e Caos (Sony, 2007) 

> Assista à entrevista exclusiva de Ana Cañas ao SaraivaConteúdo

 

 

Recomendamos para você