Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.08.2009 24.08.2009

AMOSTRAGEM COMPLEXA, NOVO LIVRO DE SIMONE CAMPOS

A escritora carioca Simone Campos lança seu terceiro livro, Amostragem complexa (7Letras). O livro de contos foi contemplado pelo programa Petrobras Cultural e conta com o apoio da Lei Rouanet. 

Simone circula entre fábulas, mangás, Mishima, Borges, arquétipos e tabus, aliando essas peças para formar um painel humano de fortes contrastes. 
                               
>>> Leia trechos dos doze contos de Simone Campos:
Mousmé (conto japonês)
Você lê história e alguns livros e já sabe como fazer tudo certo. Não cair na lábia de canalhas com Anna Karenina, não emprestar nem tomar emprestado com Shakespeare, não ser totalitário com Orwell e assim por diante. Só que iluminismo não adianta se todos correm de volta pro escuro.
Você sabe as coisas sem ter, ao menos uma vez, pensado que sabia. Você não consegue nem começar a pensar em se entregar à doce burrice. Lucidez férrea é puro horror.
Herói
Então. Vou fazer 30 anos. A idade das festas passou. Cansado do apogeu dos egos após a oitava tulipa, de pegar casal recém-formado transando no banheiro, do mal-estar na hora de fechar a conta porque ninguém lembrou de deixar os 10%, esse ano só quero me enfurnar em algum canto bem distante da civilização com todo o conforto que a civilização pode oferecer. E Raquel.
Senhora, Senhorita
Nem tinha lhe passado pela cabeça a possibilidade de não usar porta-seios, mas agora via que podia. Todas estavam à l’aise e seus próprios seios estavam se portando sozinhos. De novo.
Desceu a escadaria do metrô sorrindo. Passinhos que só lépidos; água descendo a cachoeira. As mãozinhas, em suspenso. As pessoas se viravam para olhá-la, uma mulher sorriu como quem acata a piada. E a nova moça sorria por dentro ao pensar que as pessoas pensavam que ela se vestia retrô.
Composição
Perlac era uma loja direcionada para clientes impossíveis. Zee, consciente da missão, afofava perucas escuras sobre a cabeça gessal das manecas – uma mel, uma café, outra preto-graúna, um quase-ruivo acolá – mas imaginando e sabendo que as verdadeiras clientes da Perlac estariam mais para quarentonas de 1,62m com cortes médios desidratados do que para andróides chanéis magras e frias.
Ao cubo
Sozinhos um com o outro, impressionava sua intimidade impessoal. Um para cada lado do sofá, olhos na TV, no meio as mãos, uma sobre a outra. Um no computador outro na lavanderia, um na biblioteca outro jantando.
O nome da doença era esquizoidia. Odiavam socializar. Iam em festas por causa da música. Melhor se fossem festas propensas ao fracasso, com menor probabilidade de cotovelos cutucantes.
Segundo andar
Quando saía com Olívia, tinha que explicar sua mágica. Como vivia sem emprego e sem bolsa? Como comprava seus discos e livros com salário mínimo? Como pedia comida em casa?
– Quem disse que não dá para viver com salário mínimo? – redarguia Susana.
(Estava certo. Susana ganhava dois salários mínimos.)
Vinte e dois reais de condomínio (desconto do síndico). 
Dezoito reais de gás. Celular pré-pago. 70 reais de luz. A água do prédio, 100 reais. Plano de saúde jovem, 80 reais. Transporte, 80 reais. Sobrava um estipêndio para comida, roupas e despesas acessórias. Comia até chocolate.
Eu sou uma dona-de-prédio.

Sexo em Anegue (conto africano)
Eu queria mesmo era poder entrar em outra pessoa e espiar o que elas estão sentindo sobre elas mesmas. Porque aqui dentro eu já sei como é; e também já consigo sair e me ver como elas me vêem. Mas queria saber como elas se vêem, de verdade, por dentro. Saber se elas também se sentem tão mal assim quando pensam em si mesmas e, se sim, como conseguem disfarçar e levantar a cada dia e ir trabalhar, ou estudar, ou pelo menos andar pela rua sem que ninguém pense: lá vai a coisa toda errada. Assim pelo menos eu não me sentiria sozinha.

Tabu
A Biblioteca Nacional nunca tinha ouvido falar daquele veículo – nem os milhares de contatos do professor Sobral. Mas conforme alvitrado por George Sable, o artigo existia. E estava nas mãos dela. Apenas Maiara não conseguia decifrar o texto – excesso de tinta, tipo pequeno, vista um pouco cansada, vai ver, ficando míope; a luz das quatro horas era pouca e caía morta sobre o carpete climatizado, bem longe das pernas congeladas de Maiara. Congeladas mesmo: nenhuma das duas parecia capaz de se mexer. Excesso de concentração. Não – câimbra. Não. A ordem para mexer a perna fora dada e ela não sentia movimento.
– O que está acontecendo, pensou sem inflexão
Olhou para baixo. É claro que sentia frio com aquela sucuri enovelada até o joelho. Sentiu-a deslizar, garantindo o nó. Quase um conforto.

Elidu ou Como se fosse 1995
Naquela noite, com aquela disposição de despedida, até o lugar de sempre era palatável.
O corpo de Sil não descia até o chão como mandava a música. A dona dele tinha decidido poupar as costas para o dia seguinte, poltrona de avião. Ondeava o corpo de um jeito que sabia desde a puberdade e sempre impressionava as amigas.
– Cê tomou a droga errada… tá dançando igual lacraia.
Silvânia virou-se para ver quem falava.
– É verdade que você vai embora? – pergunta ele em seguida.
O último dia
Em uma das salas, alguém pediu uma folha em branco para desenhar. A professora foi até o armário e mandou que pegassem uma e passassem adiante. E assim foi feito, até a vez da Ana Paula. Ana Paula pegou mais de uma, escondendo mas nem tanto, e esperou a professora notar; ela notou e deixou cair os braços. Olhou para o armário e olhou para Ana Paula. Olhou para o armário de novo e para Ana Paula de novo. Suspirou. As provas já tinham acabado, não?
Dos armários do fundo da classe emergiram papel crepom, massinha e cartolina. Pilhas de cartolina de todas as cores (menos da vermelha, da qual por algum motivo as professoras gostavam tanto) foram rapidamente desbaratadas. Isso as outras filiais não haveriam de herdar.
Tão bonito que dói
Estou no terceiro cigarro da noite e ainda não vi ninguém que preste. Circulo, dou uma volta pelo primeiro andar, acabo pedindo alguma coisa do bar.
Há uma menina maquiada como uma boneca e metida em uma blusa cheia de babadinhos, toda branquela e acompanhada. A biba amiga dela saltita até o DJ que resmunga ao ouvir o pedido por Kraftwerk: vou ver.
Algum rock depois, o DJ aquiesce a tocar The model modificada, com uma base de guitarra emprestada do Garbage. É o tom. Me aproximo do braço da lolita gótica com o cigarro aceso. Fsst. As células se degeneram sob a brasa. Logo se formará uma bolha. Não, esperem: ela percebeu; esfregou. Assim fica marca.
Ela olha pro braço e olha pra mim. Olha pro braço. Pra mim.
– Porra, toma cuidado!
Só isso. Os olhos assassinos demoram um pouco para desgrudarem de mim; vejo que ela captou o propósito – eu parado na frente dela, não com cara de desculpas, não submisso e bêbado, mas sóbrio, sonso e segurando o cigarro no mesmo lugar do contato incendiário – só que não quer se perder nessa. Prefere sua vidinha de simulacro. Mas está marcada.
Wifi
Lia não deveria ser anunciada em qualquer biboca. Precisava de um canal exclusivo, de um boca-a-boca sagaz. Sabia exatamente quem devia procurar, mas relutou muito em fazê-lo. Afinal, o cara era um crápula. Um crápula engenhoso e conhecido no mercado. Mexia com a fila de transplantes, repassando fígados e córneas para gente que podia pagar. Relativizou a si e a ele até se aproximarem o suficiente para uma conversa ser marcada. Foi difícil convencê-lo a vir. Teve de abdicar de algumas precauções a que se propusera antes, como a de não mencionar do que se tratava ao telefone. Mas também não entregou o ouro; disse apenas que
– É um método infalível para fazer qualquer ameba passar em concurso.
– Infalível. – replicou o interlocutor, cético.
– Como a justiça divina, Jacques.
Uma pausa de efeito. Ou talvez Jacques estivesse fazendo outra coisa ao mesmo tempo.
– Vai falando.
– Vamos grampear o concurso.
– É fácil falar.
– O grampo estará num candidato.
– Da mesma forma.
– Jacques, o grampo vai ser o candidato.
– ?
– Mas preciso de documentos para ela.
– Ela?
– Ela.
Simone Campos estreou na literatura aos 17 anos com o romance No shopping  (7Letras, 2000). Desde então, participou de diversas antologias e coletâneas – entre elas, Geração 90: os transgressores (Boitempo Editorial / Org. Nelson de Oliveira) e 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura (Record / Org. Luiz Ruffato). Cursou jornalismo e produção editorial na UFRJ. Em 2006, publicou seu segundo romance em papel, A feia noite (7Letras), e em 2007 a ficção científica on-line Penados Y rebeldes
>>> Saiba mais sobre Simone Campos, AQUI!
>>> Leia o artigo “”Dinheiro não traz inspiração. Mas ajuda””, de Simone Campos. 


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