Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 27.07.2010 27.07.2010

Allan Sieber, tudo mais ou menos verdade

Por Ramon Mello*
Foto de Vânia Laranjeira

 

O premiado quadrinista gaúcho Allan Sieber é conhecido por suas tiras de humor ácido, que abordam temas como religião e sexo – o que está em volta tem possibilidade de se transformar em quadrinhos, inclusive a própria vida do autor. “É tudo mentira”, afirma, embora confesse que muitos das histórias sejam autobiográficos. Seu livro mais recente, É tudo mais ou menos verdade (Desiderata, 2009), reúne o jornalismo investigativo, tendencioso e ficcional de Allan, ou seja, reportagens em quadrinhos, histórias autobiográficas e relatos mais ou menos mentirosos ou mais ou menos verdadeiros que o autor fez para veículos comoPlayboy e Piauí, além e material inédito.

Há 10 anos morando no Rio de Janeiro, fugindo da correria de uma megalópole como São Paulo, Sieber leva uma vida tranquila rodeado dos amigos boêmios, a maioria autores como ele. No sossego do seu estúdio, numa recolhida vila em Copacabana, entre guimbas de cigarros, manchetes de jornais e brinquedos de personagens de desenhos animados, Allan Sieber cria suas histórias.

Oséias, de Vida de estagiário, personagem mais famoso do quadrinista, ganhará vida em breve numa série de TV. Ele já tinha aparecido no curta Os idiotas mesmo, ambientado em uma agência de publicidade. A produtora de Allan, Toscographics, é responsável pela premiada série Deus é pai, de 1999, e outras curtas animados, como Onde andará Petrúcio Felker? e Santa de casa, baseado em conto de Aldir Blanc. Pela Tosco também saiu o documentário sobre as mulheres no funk carioca, Sou feia mas tô na moda, de Denise Garcia. Há anos, Allan tenta finalizar o documentário, Pereio, eu te odeio, com críticas nada louváveis ao ator e grande canalha Paulo César Pereio. Allan também já lançou outros livros com seus cartuns, charges e tiras, como Preto no branco (Conrad, 2004), Vida de estágiário (Conrad, 2005), Sem comentários (Casa XXI, 2005), Assim rasteja a humanidade (Desiderata, 2006) e Mais preto no branco (Desiderata, 2007).

Em tempo, numa parceria com o quadrinista Arnaldo Branco, Allan colabora como roteirista do programa Casseta & Planeta. Essas e outras histórias de sua carreira, você confere na entrevista abaixo.

 

Você chegou ao Rio de Janeiro em 1999. Por que sai de Porto Alegre e decidiu morar no Rio?

Allan Sieber – O natural é que os gaúchos saiam para São Paulo porque o mercado de quadrinhos é muito maior, todas as revistas estão lá. O Rio já foi a capital cultural.  Mas, para começo de conversa, eu não dirijo, não tenho carro. São Paulo é muito infernal com aquele trânsito, megalópole demais. Eu não tenho noção da diferença de Barra Funda e Higionópolis, apesar de ter muitos amigos em São Paulo. E a Zona Sul do Rio é uma cidade de interior, é ridículo de tão pequena, mas com a vantagem de ter cinemas, livrarias, blábláblá… O calor que é triste! Não suporto calor, precisamos de uma estação fria nessa cidade. Não acha?

De que forma essas cidades interferem em seu trabalho?

AS – Qualquer cidade grande tem seus estereótipos, neuroses e pessoas deprimidas. Meu trabalho é muito de voyeur, observar as pessoas para utilizá-las em meus desenhos. Está tudo ao redor, as pessoas falam muitas besteiras. Mas não sei precisar as interferências dessas cidades no meu trabalho. Não sei dizer se interfere no jeito que olho para essas coisas.

Quais estereótipos são apontados em seus quadrinhos?

AS – Vários. São os estereótipos humanos: a dinâmica de relacionamento, que todos já escreveram. Porque as pessoas insistem em relacionamentos fracassados? Sou uma pessoa de relacionamentos longos, são acordos mais saudáveis de liberdade. Não temos controle da nossa vida e queremos tomar conta dos outros? Esse é o meu material. Outro exemplo: o clichê dos cariocas: “Me liga, hein!” E eles nem sequer passam o número do telefone. (risos)

Você tem de ler o texto ‘Indireto afetivo na linguagem carioca’, de Francisco Bosco. Fala exatamente sobre esse comportamento.

AS – Esse comportamento é engraçado. O carioca é muito solar e acaba não suportando uma pessoa deprimida. Do tipo: “Não te convido para a festa porque você está deprimido”. (risos) A lógica é inversa. Mas não quero generalizar. Gosto do espírito leve e solar do carioca.

A religião, a sexualidade e o humor negros são características muito marcantes em seu trabalho. Por quê?

AS – Não sei. Sei apenas que religião e pornografia (e suas modalidades) sempre me chamaram muita atenção. Hoje em dia um jovem tem a vida muito fácil, a vida está num Google. Sou obcecado pela obsessão das pessoas por esses assuntos.  Enfim, esse assunto toma muito tempo… (risos)

Você já foi evangélico?

AS – Adventista do 7º Dia. Minha mãe era muito católica, só uma freira era superior a ela. E eu entrei nessa onda de Igreja, por sorte saí fora. Eu era totalmente fanático para uma criança, era muito preto no branco. Ou você era adventista ou ia amargar o Juízo Final. Eu ficava o tempo inteiro fazendo suposições, horrível. Aos 13 anos fiz amigos de minha idade, então resolvi deixar a religião de lado. Optei pelos meus amigos. Tive uma epifania e saí fora, encontrei os quadrinhos. (risos)

Sobre os quadrinhos: Vida de estagiário, um dos seus trabalhos mais conhecidos, está se tornando uma série de TV.

AS – Sim. Foi através de um edital do MinC. Um amigo sugeriu escrever um projeto como sitcom, eu nunca havia pensado nisso. Tinha apenas o projeto para desenho animado. A série já está filmada, em fase de montagem. Vai passar na TV Brasil. Dos doze pilotos aprovados, parece que é o único de humor. E a vida de estagiário é universal, né?

Você chegou a ser estagiário?

AS – Não. Mas fui office boy, o que é bastante correlato: ambos ganham uma mixaria, tem uma carga enorme de trabalho, e são explorados por um chefe cretino. Oséias, o estagiário da série, não é um idiota completo, quando pode ele mata trabalho. Um pouco como eu fazia quando era obrigado a pagar contas. Se não tinha vida no banco, pagava as contas e fugia para minha casa jogar vídeo game. (risos)

Como você lida com essas ferramentas de relacionamento na Internet?

AS – A internet é ótima, você pode trabalhar em qualquer lugar do mundo. Tenho um amigo que está na Patagônia e trabalha de lá, envia as tiras para jornais e revistas. Isso é incrível. Por exemplo, já acabei um relacionamento por e-mail. (risos) E depois não preciso utilizar o telefone, que detesto. Mas esse lance de redes de relacionamento eu detesto. O que é isso? Documentar todos os passos? Tô fora. “Partiu, o bar da esquina”. Não! Eu vou para o bar, mas só quero encontrar meus amigos. Esse lance de “minha vida é um livro aberto” é uma bobagem. Que merda de vida é essa?

Você é amigo dos quadrinistas Andre Dahmer e Arnaldo Branco. Como é essa relação com o trabalho. Há competição?

AS – Sou amigos deles, mas “amigos, amigos, negócios à parte”. (risos) Brincadeira. Diferente das outras áreas – há muito companheirismo.

Inclusive você e Arnaldo estão com uma parceria no Casseta & Planeta.

AS – Sim. Estamos escrevendo alguns roteiros. Eu nunca havia escrito para televisão, mas está sendo uma experiência muito legal. Muito diferente dos quadrinhos, envio as histórias e eles montam tudo por lá.

Que autores têm como referência?

AS – Sou muito filho do Angeli, Chiclete com Bananafoi uma bíblia. (risos) E depois fui beber no Crumb, uma fonte óbvia, ele tem uma vertente muito autobiográfica. Eu também sou um pouco assim. Mas, lembre-se: É tudo mentira!

* Publicado originalmente no site da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro

 

> Confira duas animações de Deus é pai

 

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