Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 18.11.2010 18.11.2010

Aline Crumb, personagem e pioneira dos quadrinhos

Por Bruno Dorigatti
 
Ela é conhecida como a mulher de Robert Crumb, mas já desenhava antes de conhecê-lo e diz pouco se importar com quem fala que teria se aproveitado disso. “Sempre fui uma artista que eu me lembre, sempre foi uma força muito poderosa dentro de mim. Não tem nada a ver com meu marido e não me importo com o que ninguém fala. Estou numa posição vulnerável a estes comentários, é óbvio que as pessoas vão falar isso. Mas não me importo nem um pouco. O primeiro quadrinho que publiquei dói antes de conhecê-lo, mas as pessoas não querem saber a verdade, preferem inventar uma história. Então podem inventar o que quiserem”, ela gargalha. 

Aline Crumb veio ao Brasil em agosto, acompanhando Robert em sua passagem pela Flip, em Paraty, e lança em breve Aline, uma autobiografia não autorizada, reunião de suas histórias em quadrinhos que tratam dela mesma, em um desenho confessadamente tosco e desproporcional e que falam de sua vidinha ordinária. Com o marido, vem fazendo histórias desde 1974, sob a alcunha de Dirty Loundry, quadrinhos que por vezes contam com a participação da filha do casal, Sophie, também pintora e quadrinista. Aline pinta desde os 8 anos e continua fazendo seus quadros e expondo em galerias na França, onde o casal mora há mais de duas décadas.

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A seguir, ela fala de como começou a publicar nos anos 1970, na Califórnia, como conheceu Robert, e da importância que aqueles quadrinhos feito por mulheres, ainda que toscos e feios, tiveram e foram fundamentais para termos hoje quadrinistas como Alison Bechdel e Marjane Sartropi, autoras de Fun Home (Conrad) e Persépolis (Cia. da Letras) respectivamente.

 

Você estudou artes. Como chegou aos quadrinhos?
 
Aline Crumb. Comecei como pintora, quando tinha 8 anos, e fiz todos meus estudos em pintura. Minha principal paixão na arte é a pintura, mas ninguém sabe disso. Nos anos 1960, quando entrei na escola de arte, se fazia e estudava um trabalho muito abstrato, expressionista. E o meu trabalho é sempre narrativo e estou sempre contando histórias. E quando vi os quadrinhos underground naquela época, eu vi um caminho por onde poderia contar minhas histórias. Eu vi a Zap Comix, o trabalho do Robert [Crumb], do Gilbert Shelton, e também o trabalho de Justin Green, Binky Brown meets the holy virgin Mary (Binky Brown encontra a santa e virgem Maria, em tradução literal). Essa história é tão poderosa para mim. Ele é judeu e católico e tem a neurose de ambos em uma pessoa só. Era incrível. E ele escreveu sobre isso, de maneira honesta e louca ao mesmo tempo. E quando vi aquilo, descobri como poderia contar a minha história. Então comecei a desenhar quadrinhos em meus cadernos e em todo lugar, guardanapos. Então decidi me mudar para São Francisco [Califórnia] quando terminei a escola de arte, porque era lá onde os quadrinhos underground estavam sendo publicados. Mudei-me para lá em 1971 e os primeiros quadrinhos feitos por mulheres estavam sendo reunidos e elas precisam de artistas, então entrei naquela revista. O trabalho era muito ruim, não havia mulheres fazendo quadrinhos e cartuns antes da gente e era algo nada profissional, mas tinha muita energia ali. Ao mesmo tempo, conheci meu marido e os demais cartunistas e me envolvi com toda a cena.
 
Você falou que era algo raro as mulheres fazerem quadrinhos e vocês eram poucas…
 
Aline. Não havia mulheres antes da gente. Os cartunistas homens sempre puderam olhar para os anos 1920, 1930 e ver uma tradição. Mas para as mulheres era completamente diferente. Você podia olhar para os quadrinhos dos homens e aprender algo, mas até então não era uma profissão para nós. Então para achar a sua voz nessa mídia você tinha que ser pioneira, fazer uma abordagem feminina de formas diferentes. Algumas se desenhavam como super-heroínas, como o Super-Homem, e eu fiz a mim mesma, porque não era sofisticada o suficiente para criar uma história, mas sempre quis contar as minhas, então talvez eu devesse ter sido escritora, não sei. Mas, para mim, desenhar e escrever funcionou. Senti essa necessidade de contar minha história. E tudo isso foi saindo, não pensava a respeito, não me importava, não sabia se eram boas ou não, não sabia nem mesmo fazer uma página de quadrinhos. No começo, havia uma divisão no grupo de cartunistas, porque havia as feministas que odiavam os homens e as feministas que gostavam deles. E eu sempre gostei dos homens, então nós rompemos e formamos um grupo chamado Twisted Sisters (algo como Irmãs Deformadas, Tortas em tradução literal), de onde a banda tirou o nome. Como disse, me considerava uma mulher guerreira e gostava de perseguir os homens e pegar os que queria. Gostava de estar no controle, mais ainda sim gostava e gosto dos homens. Mas as outras feministas eram raivosas que não queria saber dos homens. Outros grupos como o nosso tinham um pouco mais de humor, e zombávamos de nós mesmas. 
 
Como era para publicar naquela época, seus quadrinhos saíam pela Rip Off [editora criada por Shelton]?
 
Aline. Publiquei pela Last Gasp Comix e o editor era Ron Turner, que queria fazer sexo com o maior número possível de mulheres. Ele falava que iria nos publicar se fizéssemos sexo oral nele. A gente dizia, “esqueça, você é nojento!” E ele dizia ok, e nos publicava do mesmo jeito. Ele publicou os primeiros quadrinhos feitos por mulheres, mas eram ruins, não vendiam muito bem, mas fomos evoluindo gradualmente. E com o tempo, as mulheres foram melhorando até chegar ao que temos hoje, grandes quadrinistas como Alison Bechdel, Phoebe Gleckner, Marjane Satrapi. Agora temos mulheres sérias fazendo quadrinhos, mas creio que elas tenham sido inspiradas em nós e fico feliz com isso.
 
Como você se encontrou com Robert Crumb naquele tempo, em San Francisco?
 
Aline. Encontrei com ele em uma festa, na casa da namorada dele. Ele era casado e tinha uma namorada, isso era no começo dos anos 1970. E ele já tinha desenhado uma história onde tinha uma personagem com o meu nome, antes de me conhecer. Me chamo Kominsky, e a personagem se chamava Honey Bunch Kaminsky, em 1968. Nos conhecemos em 1971. Todos me falavam que eu parecia uma das personagens dele, tinha o mesmo nome, devia conhecê-lo. Ambos já tinham ouvido falar um do outro. Ele realmente é um cara muito meigo, enquanto que o desenho é bem forte e assustador. Ele era doce, muito tímido, e gostei disso. Mas várias mulheres cartunistas me diziam que eu era uma comerciante por me envolver com ele, um grande porco machista e sexista. 
 
E como vocês começaram a desenhar juntos as histórias que foram reunidas em Dirty Laundry?
 
Aline. Em 1974, nós morávamos no campo, no norte da Califórnia. Uma ex-namorada dele foi visitá-lo e acabamos brigando. Corri pra fora de casa e quebrei a perna. Fiquei com um gesso enorme na perna. Chovia o inverno todo, e eu estava entediada e com raiva. Então começamos a fazer essa história em quadrinhos para passar o tempo. Não tínhamos a intenção de publicar, era só para nos divertir. Mas um editor acabou vendo e mostrou interesse em publicar, mas não tínhamos um título. E um amigo nosso disse: “Como podem publicar isso? É como pendurar a sua roupa suja para todos verem”. Então eu disse: “Ah, é um bom título!” No início a história ficava solta, era apenas o nosso dia-a-dia, nada acontecia. De repente surgiam alienígenas, depois uma enchente… Em trabalhos mais recentes, tentamos fazê-los mais engraçados, mais como uma história mesmo. As histórias que fizemos para a New Yorker [republicadas no Brasil pela revista Piauí] são muito mais específicas.
 
Robert falou-me de uma história maior que estão fazendo juntos agora…
 
Aline. Estamos trabalhando nisso agora, para nosso editora americana e também francesa, reunindo trabalhos mais antigos com outros que ainda não foram vistos por muita gente, pois publicamos por editoras bem pequenas, mais os trabalhos da New Yorker, além de algumas histórias novas. Estamos trabalhando nesse livro agora, que deve sair em 2011. 
 
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