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Alê Siqueira abre caminho para Mariene sem anular baianidade nagô da tabaroinha

Por Mauro Ferreira do Blog Notas Musicais
 
Resenha de CD
Título: Tabaroinha
Artista: Mariene de Castro
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * * 1/2
 
Produtor do segundo disco de estúdio de Mariene de Castro, Tabaroinha, Alê Siqueira abre caminho para a artista no mercado sem anular a baianidade nagô dessa cantora de voz luminosa.
 
Habilidoso na confecção de um CD alvo de expectativas comerciais por parte da gravadora Universal Music, o produtor atenua a carga afro-brasileira do repertório inicial de Mariene – ou seja, a louvação de santos e orixás feita na obra de Roque Ferreira, compositor até então dominante na discografia da intérprete – sem tirar a cantora da roda.
 
Contudo, o ijexá Ponto de Nanã (Roque Ferreira) – gravado por Fabiana Cozza no álbum Quando o Céu Clarear (2007) e rebobinado por Mariene em Tabaroinha com apropriada citação do Cordeiro de Nanã (Tincoãs) – expõe essa identidade afro-brasileira no tom sereno da interpretação adotada pela cantora em parte das 13 faixas do álbum.
 
Impregnado de brasilidade vivaz, Tabaroinha se revela coerente com a estrada pavimentada por Mariene de Castro nos discos Abre Caminho (2004) e Santo de Casa ao Vivo (2010). Musicalmente, o disco extrapola a fronteira baiana e segue a rota rítmica do Nordeste.
 
 
Mariene trilha serena a poética Estrada de Canindé (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950), solta Foguete (Roque Ferreira e J. Velloso) em ritmo de xote – o mesmo Foguete disparado por Maria Bethânia em registro do DVD Tempo Tempo Tempo Tempo (2005) – e se banha na levada do maracatu ao regravar o samba Filha do Mar (Flávia Wenceslau, 2010). Mas é a baianidade nagô de Mariene que pontua o disco.
 
A cantora põe na sua roda até um samba carioca de Arlindo Cruz, Jr. Dom e Babi – A Pureza da Flor, gravado pelo Grupo Revelação no álbum Velocidade da Luz (2006) – enquanto apresenta grande samba romântico da lavra do compositor baiano Nelson Rufino, Amuleto da Sorte, à altura dos sucessos de Zeca Pagodinho no gênero.
 
Referência máxima da música baiana, Dorival Caymmi (1914 – 2008) está (bem) representado em Tabaroinha pela lembrança de Tia Anastácia (Cantiga pro Sinhozinho), faixa de espírito lúdico que vem a ser a adaptação infantil (feita nos anos 70) de História pro Sinhozinho, tema lançado em 1945 nas vozes do Trio de Ouro. Há ecos de Caymmi também no universo praieiro de Marujo (Roberto Mendes e Nizaldo Costa), faixa levada somente pelo violão de Mendes e pelas palmas da cantora e do compositor. É neste mar baianíssimo que a preta retratada em Orixá de Frente (Roque Ferreira) vai botar presente para a rainha das águas.
 
Que dengo tem a voz de Mariene nesta regravação que resulta tão especial quanto a feita por Roberta Sá com o Trio Madeira Brasil no CD Quando o Canto É Reza (2010)! É com este dengo que Mariene repagina em tom de samba amaxixado o seminal lundu Isto É Bom – composto pelo baiano Xisto Bahia (1841 – 1894) e gravado em 1902 – e que avisa que pode permanecer na roda no samba Não Vou Pra Casa (Antonio Almeida e Roberto Riberti, 1941), fecho coerente deste irretocável disco em que Mariene recorre mais uma vez ao repertório de Alcione, de quem já gravou Ilha de Maré (Walmir Lima e Lupa, 1977).
 
Do repertório da Marrom, Mariene rebobina Roda Ciranda (Martinho da Vila) – com providencial reverência à gravação feita por Alcione com Maria Bethânia em 1984 – e ilumina com luz própria o samba Um Ser de Luz (João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), lançado pela Marrom em 1983 para saudar Clara Nunes (1942 – 1983), cantora a que Mariene vem sendo comparada justamente pela luminosidade que irradia de sua voz.
 
Em Tabaroinha, a saudação a Clara é feita no toque dos atabaques em clima quase sagrado no qual se ambienta a voz de Mateus Aleluia, convidado da faixa. Repleto de percussões e vozes femininas, Tabaroinha é álbum que honra o legado de Clara Nunes e que, apesar do teor de regravações do repertório ser demasiadamente alto, consolida o canto de Mariene de Castro. Que os caminhos do mercado musical se abram, enfim, para a tabaroinha!
 
 
 
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