Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.07.2014 22.07.2014

Aldous Huxley, muito além da distopia

Por Andréia Martins
Quando se fala no escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), é inevitável não pensar no livro Admirável Mundo Novo, considerado um dos romances mais influentes do século 20 ao lado de títulos como 1984, de George Orwell, e Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Mas Huxley fez mais. Os 120 anos que o escritor completaria no dia 26 de julho são uma boa oportunidade para relembrar as ideias e obras que o colocam entre os principais autores do século passado.
Nascido em 26 de julho de 1894, em Godalming, na Inglaterra, Huxley era de uma família de classe média. Escreveu 47 livros, entre poesias, ensaios, contos e ficções, e para alguns críticos era melhor ensaísta, expondo ideias, do que ficcionista, construindo tramas para personagens.
Sua entrada na literatura aconteceu pela poesia, em 1916, com o título The Burning Wheel. A estreia nos romances viria com Cromo Amarelo, publicado em 1921. O livro combina cinismo e crítica social. Em seguida, escreveu Antic Hay (1923), Folhas Inúteis (1925) e Contraponto (1927), este último escrito após uma viagem à Índia e que causou polêmica ao exprimir sua crença na impossibilidade do amor verdadeiro em um mundo dominado pelo materialismo.
Essas ideias foram arrumando o cenário para a publicação de Admirável Mundo Novo, em 1932, trazendo uma visão distópica da sociedade do futuro. Na obra, ele apresentava conceitos como o controle psicológico de massas por regimes totalitários, obtido com o consumo de uma droga sem efeito colateral aparente chamada “soma”.
O livro, a única ficção científica de Huxley, foi elaborado no contexto anterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e serviu de inspiração para George Orwell escrever 1984. O próprio Huxley enviou uma carta parabenizando o colega escritor pela qualidade e importância da obra. Na sequência, Huxley publicou o romance pacifista Sem Olhos em Gaza, de 1936, onde voltou a abordar temas como a consequência da guerra e de massas dominadas.
Para o filósofo e ensaísta Olavo de Carvalho, que assinou prefácios de alguns livros de Huxley publicados no Brasil, “voltar a si, reconquistar perenemente o senso da verdadeira unidade e, com isso, redescobrir a luz do espírito em seus reflexos no mundo exterior – eis o sentido da vida e da literatura de Aldous Huxley. Poucos escritores, no século 20, souberam colocar a ocupação literária a serviço de finalidade tão alta e tão nobre”.
 
Capa da reedição de Admirável Mundo Novo
UM AUTOR MUITO ALÉM DA DISTOPIA
Em 1937, Huxley se mudou para os EUA e lá conheceu Gerald Heard. Ele entrou em um novo período de produção, onde deixou de escrever ficção e passou a se preocupar mais com a mente humana. O autor passou a exercer grande influência na Califórnia (EUA), onde se articularam movimentos de contestação ao racionalismo ocidental e ao modelo americano de vida, antecipando elementos da contracultura dos anos 1960 e 1970, como a rejeição do consumismo, as tendências anarquistas, o interesse pelo Oriente e as experiências místico-visionárias – entre elas, o uso indígena de substâncias alucinógenas, como a mescalina.
No contexto dessas experiências, Huxley apostou na variação entre os gêneros de não ficção, contos e ensaios ao publicar Eminência Parda (1941), A Arte de Ver (1942) – sobre o período em que enfrentou uma cegueira –, A Filosofia Perene (1946), As Portas da Percepção (1954), Céu e Inferno (1956) – nestes dois, ele escreveu sobre suas experiências com a mescalina – e A Ilha (1962), seu último livro.
“Acho que o mais interessante da obra de Huxley é que ele tem textos muito diferentes entre si”, diz a editora Ana Lima, responsável pela reedição de 15 títulos do escritor, que saem até o final do ano pela Biblioteca Azul.
Já foram republicados Admirável Mundo Novo, Contos Escolhidos, Contraponto, Os Demônios de Loudun e Sem Olhos em Gaza. Os próximos da lista devem ser: As Portas da Percepção, A Situação Humana, Folhas Inúteis, A Filosofia Perene e O Tempo Deve Parar.
Entre os livros (talvez) menos badalados pelo grande público, Ana cita A Situação Humana e Os Demônios de Loudun, nos quais o leitor pode encontrar outro tipo de texto feito por Huxley. O primeiro, publicado nos anos 1970, após a morte do escritor, “é uma reunião de palestras que ele fez falando sobre física, reciclagem, poluição, temas muito presentes hoje, onde ele cumpre o papel de intelectual que pensa sobre essas questões”, comenta Ana. Já o segundo, lançado em 1952, traz um Huxley investigador, buscando desvendar um suposto fenômeno de possessão coletiva ocorrido em um convento no interior da França, no século 17.
Para quem leu apenas o clássico de 1932 ou ainda não está familiarizado com os textos de Huxley, Ana recomenda os Contos Escolhidos, “uma coleção de textos muito representativos” do autor. Isso porque os 20 contos reunidos nesse volume foram publicados pela primeira vez em 1857, ou seja, antes de Huxley ser reconhecido por suas obras. Os textos reúnem críticas, relatos de viagem e impressões sobre a afetação intelectual da elite inglesa, um dos alvos favoritos da crítica do escritor.
 
Alguns títulos do escritor publicados pela Biblioteca Azul
Já o Huxley crítico aos EUA aparece em Também o Cisne Morre, inspirado no mesmo personagem que foi base para a concepção do filme Cidadão Kane, de Orson Welles: o magnata William Randolph Hearst, empresário, jornalista e político da Califórnia, ícone da cultura de massa.
Com relação às suas obras, muitos críticos dizem que as ideias sempre se sobressaíram mais do que as tramas e a construção de personagens, como, por exemplo, Lenina Crowne, Bernard Marx e Polly Trotsky de O Admirável Mundo Novo, ou Will Farnaby e Robert MacPhail de A Ilha.
“É nessa zona indistinta entre o discurso coletivo e a emoção autêntica, entre a macaquice intelectual e a vida pessoal efetiva que Huxley colhe seus personagens. Daí sua maior originalidade como ficcionista – sua capacidade de fazer o leitor vivenciar o jogo das ideias estereotipadas como se fosse um drama humano de verdade”, comenta Olavo.
Aldous Huxley morreu em 22 de novembro de 1963, em Los Angeles (EUA), devido a um câncer na garganta, no mesmo dia em que John Kennedy foi assassinado.
 
HUXLEY NA MÚSICA
Ao longo dos anos, Huxley vem servindo de referência para muitos artistas da música. Desde o grupo The Doors, que passou a se chamar assim por influência do livro As Portas da Percepção, à brasileira Pitty, cujo nome do disco de estreia Admirável Chip Novo (e da música homônima), de 2003, foi inspirado no título de Admirável Mundo Novo, assim como a canção “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho.
O Iron Maiden também aproveitou o nome do clássico livro de Huxley, mas em inglês, para a música “Brave New World”. “Essa coisa sobre Huxley foi simplesmente porque eu achei que ‘Brave New World’ era um bom título para o álbum, porque coloca um enigma na sua cabeça. Tipo, ‘Sobre o que é?’. Mas depois de acertado o título, eu pensei: ‘Bem, vamos escrever uma música sobre esse livro’, então eu reli e fiquei assustado com o quão exato ele era”, declarou o vocalista Bruce Dickinson.
A banda norte-americana The Strokes também levou Huxley para o álbum de estreia, Is This It (2001), na música “Soma”, mesmo nome da droga usada para controlar as massas em Admirável Mundo Novo.

 

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