Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.03.2010 25.03.2010

AfroReggae e sua batalha para inglês ver

Por Vinicius Valente
Foto de divulgação

Dia de sol noRio de Janeiro não é novidade, assim como tampouco é inusitada a cena que vemacompanhada com os raios ultravioletas. Basta caminhar pela Zona Sul da cidade parase deparar com a imagem: jipes parados no trânsito com as caçambas lotadas depessoas extremamente brancas e de olhos claros, que buscam uma sombra debaixodo abrigo de chapéus, bonés e tolhas, numa tentativa de evitar a radiaçãosolar. O destino é o mesmo de sempre, as favelas cariocas situadas na parte nobre da cidade, mais “”tranqüilas”” se comparadas às comunidades que formam Complexos do Alemão e da Maré, por exemplo. A tranqüilidade do “FavelaTour” pode ser atrativa para os turistas gringos que têm vontade de conhecera parte pobre da cidade, porém ela, muitas vezes, maquia a realidade violentados morros, velha conhecida dos brasileiros. É justamente este ambiente que compõeo cenário da história do AfroReggae, exposta agora mundo afora sob o olhar dedois estrangeiros, que não visaram dar voz aos criminosos, mas sim expor omovimento que serve de exemplo ao proporcionar alternativas para jovens semperspectiva.

O livro Cultura é a nossa arma: AfroReggae nas favelas do Rio apresenta um relatodo cotidiano de violência e aflição das favelas cariocas e do trabalho da ONGAfroReggae, criada em Vigário Geral – favela situada entre a Av. Brasil e a Linha Vermelha, próxima a Duque de Caxias, no Grande Rio – após a chacina de 1993, quando 21 moradores foram executados por um grupo de extermínio. O AfroReggae proporciona atividades artísticas e educativas para jovensmoradores de comunidades dominadas pelo tráfico de drogas. Escrita pelos inglesesPatrick Neate e Damian Platt, coordenador de relações internacionais do grupo, a obra foi lançada no Brasil em 2008, pelaeditora Civilização Brasileira, e acaba de ganhar sua versão internacional, eminglês, pela Penguin Books.

Os autoresacompanharam as ações do grupo no final de 2005, entrevistando integrantes do grupo, profissionais de segurança, mídia e política.Este conteúdo está diluído em 238 páginas, juntamente com olhar deestranhamento dos autores, atento para situações intensas e características dasfavelas, que podem, muitas vezes, passar batidas, se vistas por quem convivecom a violência diariamente. Um exemplo é a simplicidade com que Leida,moradora da favela da Rocinha, conta sua operação de segurança durante a noitede ano novo. Ela e o marido festejam na laje de sua casa até as 23:55, hora emque descem para o andar mais baixo para se proteger dos tiros que dividirãoespaço no céu, juntamente com os fogos, cinco minutos mais tarde.

Entretanto, olivro não aborda somente da violência que ronda as comunidades pobres,aterrorizando mães, que temem que seus filhos sejam recrutados para acriminalidade e assassinados na guerra entre traficantes, milicianos e a polícia. A obra é otimista, porém realista ao focar no cotidiano dasfavelas, divulgando o trabalho de desenvolvimento social e educacional do grupoAfroReggae, a importância dos resultados obtidos pela ONG em cada favela eexplicando o conflito gerado pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro para osque não são familiares com a situação. Os autores se preocupam em dar um tommais pessoal ao relato, fazendo uso dos depoimentos coletados e explicando comofunciona a vida em lugares comandados por poderes paralelos. A obra utiliza umvocabulário recheado de gírias, comum no ambiente que é descrito. Na versão eminglês, algumas gírias e nomenclaturas aparecem em português, com sua traduçãono rodapé da página. Neate e Platt afirmam na “Nota do autor”, que utilizarameste recurso porque “o português possui nuances que desafiam a tradução etambém porque é melhor para se ler desta maneira”.

Além disso, osautores não deixaram de relatar episódios marcantes para a imprensa brasileira,como a mencionada, chacina de Vigário Geral, em 1993 e a morte do jornalista Tim Lopes, em2002.

O Grupo CulturalAfroReggae foi fundando em janeiro de 1993 com o intuito de transformar arealidade de jovens moradores de favelas à partir do uso da educação, arte ecultura como instrumentos de inclusão social. O jornal AfroReggae Notícias (1992) serviu como abre-alas do projeto,distribuído gratuitamente, se tornando um canal de discussão e debate de idéiase problemas que afetavam a vida de negros e pobres. Um mês após a chacina deVigário Geral, os produtores do pequeno jornal comunitário chegaram àcomunidade oferecendo oficinas de percussão, dança afro, capoeira e reciclagemde lixo para os moradores. Desde sua criação, o AfroReggae investe no potencialdos jovens das favelas, proporcionando atividades construtivas em áreasmarcadas pela violência e o tráfico de drogas. Ao longo dos 17 anos deexistência, o projeto busca diminuir a diferença social existente entre osmoradores do Rio de Janeiro, dando acesso a aulas de percussão, teatro, circo,grafite e dança, maneiras de ocupar o tempo e o pensamento dos jovens eminimizar o contato com a criminalidade.

Atualmente, o AfroReggaeestá presente nas comunidades de Vigário Geral, Parada de Lucas, Complexo doAlemão, Cantagalo e Nova Era. A ONG desenvolve ainda o projeto “ConexõesUrbanas”, que visa integrar as favelas com o resto da cidade, por meio deatividades que valorizem a riqueza cultural da periferia e quebrando paradigmase diminuindo o preconceito. Fazem parte deste projeto uma série de shows,considerado o maior circuito gratuito nas favelas da cidade, uma revista e umprograma de televisão homônimos, no ar às 23h30 dos domingos, no canal a cabo Multishow [assista à alguns trechos abaixo] e programas de rádio no Rio de Janeiro (Oi FM, MPB FM, 107 FM,Roquette Pinto), São Paulo (Eldorado FM) e Porto Alegre (Ipanema FM).

Entre as novidades, uma é aguardada com expectativa na comunidade: o Centro Cultural Waly Salomão, que homenageia o poeta e parceiro do grupo desde o começo. Além de abrigar a sede do Núcleo do AfroReggae na comunidade, o Centro Cultural Waly Salomão será um centro de excelência e de qualificação em música, dança, teatro e batidas eletrônicas. Com quatro andares, a construção, de cerca de 1,3 mil metros quadrados, terá curadoria do sociólogo Hermano Vianna e projeto do designer Luiz Stein. O espaço contará com salas de aula, recursos multimídias, auditório, laboratório de informática (que será também uma lan-house), atendimento social e psicológico, e irá funcionar 24 horas, oferecendo uma série de opções de cultura e lazer. “”A proposta é atrair os jovens para atividades culturais e, com isso, afastá-los da ociosidade””, informa o site da ONG. 

O centro cultural conta ainda com um estúdio de gravação, uma midiateca e uma sala de cinema que vai exibir simultaneamente filmes nacionais em cartaz no circuito. Além do governo do estado, a realização das obras do CCWS contou com o patrocínio do BNDES, Petrobras e dos Institutos Unibanco e Rukha, enquanto que Adidas, Canal Futura, Natura e Red Bull serão mantenedores do espaço.

“”A idéia é que o lugar seja um centro cultural para toda a cidade e não só para Vigário Geral. Haverá uma agenda intensa de programação, para trazer pessoas de todos os cantos para cá. Uma das metas do Centro Cultural Waly Salomão é reunir, num só lugar, pessoas das mais diferentes partes da cidade””, diz o coordenador do núcleo do AfroReggae em Vigário Geral, Vitor Onofre. 


> Confira o
site oficial do AfroReggae

> AfroReggae na Saraiva.com.br

> Assista ao trecho inicial do documentário Favela rising, de Matt Mochary e Jeff Zimbalist , e disponível no Saraiva Digital


> Assista à alguns trechos do programa Conexões Urbanas



Recomendamos para você