Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.02.2011 25.02.2011

Afinal, o que querem as mulheres?

Por Bruno Duarte
Fotos de divulgação

Não vem de hoje a estreita relação da obra do diretor Luiz Fernando Carvalho com as letras. Com um currículo repleto de adaptações de grandes nomes da literatura de língua portuguesa para televisão e cinema, o diretor apresentou no final do ano passado seu mais recente projeto e, desta vez, a inspiração não partiu de uma obra, mas de uma pergunta deixada sem resposta pelo pai da psicanálise – Sigmund Freud: Afinal, o que querem as mulheres? A minissérie foi ao ar pela Rede Globo entre novembro e dezembro de 2010, com Michel Melamed no papel de André Newmann – o escritor atormentado, terminando de escrever sua tese de doutorado em psicologia, que pretende responder à pergunta freudiana e, finalmente, entender o mundo feminino. O roteiro da atração, escrito por João Paulo Cuenca, com a colaboração de Cecilia Gianetti e do próprio Melamed, com texto final assinado pelo próprio diretor, chega às livrarias pelo selo Barba Negra/LeYaCult, parceria das editoras Barba Negra e Leya Brasil, junto com a Globo Marcas.

 
A transposição da série para o livro foi realizada em cuidadoso e ousado projeto gráfico – fazendo jus ao trabalho inovador de Carvalho na sua produção televisiva. Se fotografia e narrativa se destacavam nas telas, estes elementos não deixam a desejar nos livros, não existem folhas em branco, nem comerciais. A edição contém seis livretos, cada um deles traz o roteiro de um episódio, todos reunidos em uma caixa especial. O material, ricamente ilustrado com imagens da série, tem diagramação sofisticada, que fazem referências à linguagem das graphic novels e fotonovelas. Na arte das capas dos livros e do box, ilustrações do artista plástico alemão Olaf Hajek, que apareceram na vinheta de abertura da série na televisão. Os desenhos são representações do que se passa na cabeça dos homens a respeito das mulheres. Serpentes, pássaros bicando frutos que pingam sangue e logo se transformam em diamantes, flores e pernas em tintas carregadas de paixão, culpa, desejo e traição.
Enquanto procura terminar sua tese, André é atribulado pelas mulheres que rondam sua vida – sua mãe; a namorada que o deixa; as entrevistadas; a secretária de seu psicólogo; entre tantas outras. O personagem também é assolado pela figura do doutor Freud, que constantemente aparece como uma animação para aconselhar o rapaz. Como uma sátira sobre a indústria cultural, o resultado da tese é publicado, vira best seller, e é adaptado para a televisão – com direito a atuação de Rodrigo Santoro, que vive ele mesmo, como o ator que interpretará André na série dentro da série. Maior metalinguagem ainda é o lançamento da série de verdade em livro, fazendo o caminho oposto da trama que narra em suas páginas. 
A direção de fotografia, um de seus pontos altos, é assinada por Adran Teijido, argentino naturalizado brasileiro. O fotógrafo já trabalhou com Luiz Fernando Carvalho nas séries Capitu, adaptação para a TV do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, exibida em 2008, ano do centenário de sua morte. A microssérie A pedra do reino, realizada a partir da obra de Ariano Suassuna, foi exibida em 2007, em homenagem aos 80 anos do escritor paraibano. O diretor vem desenvolvendo seu estilo peculiar, aliando acurado senso estético à narrativa ágil, onde se vêem desde referências à cultura pop, como em Afinal, o que querem as mulheres? – com alusões à narrativa de cineastas como o italinano Frederico Fellini, em Oito e meio, ao cinema de apelo aos sentidos de Wong Kar Wai e à referência direta ao filme 2001: uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick – até a reunião de diversos elementos de tradições regionais, como na série Hoje é dia de Maria (2005), que trabalhava com lendas do folclore, literatura de cordel e música popular.
Em Lavoura arcaica (2001), seu primeiro longa-metragem, Luiz Fernando Carvalho, dirigiu a transposição fiel para as telas do livro homônimo do escritor paulista Raduan Nassar. Além disso – ele, que já adaptou obras de Eça de Queirós e Machado de Assis para a televisão – pretende rodar ainda as adaptações dos romances Dois irmãos, do escritor amazonense Milton Hatoum, e Dançar tango em Porto Alegre, do gaúcho Sérgio Faraco – dentro do Projeto Quadrante, no qual já realizou A pedra do reino e Capitu.
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