Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.11.-0001 30.11.-0001

Adaptação de “”A estrada”” tem escolhas editoriais acertas

Dizer preguiçosamente que um filme é menos rico do que o livro, como no caso da adaptação de “A estrada”, que estréia hoje, é realmente partir do princípio de que as recepções de uma história lida e da mesma história narrada audiovisualmente são comparáveis. Não são. Claro que é possível estabelecer, nos casos “graves”, em que grau a versão trai ou não o original, ou ainda se o extrapola. Mas… menos rico? Ainda não tem “”Avatar”” que se compare à capacidade fantasiosa, criativa, representativa e sutil da cabeça do leitor, e de sua respectiva leitura. Esteja ele sóbrio ou não.

A adaptação pode, porém, valer-se de escolhas acertadas para transpor para tela com eficiência os principais temas de um livro, provocando sentimentos e reflexão. Baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy, que ganhou o Pulitzer pelo título, “A estrada” se vale de boas escolhas para contar a história de um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee), que juntos tentam sobreviver ao caos de um mundo pós-apocalíptico. No livro, o “abandono” da mãe, a falta e disputa por comida, o perigo diante do canibalismo, tudo serve de pano de fundo para um estudo da relação entre pai e filho – aí embutidos o sentimento de continuidade e a própria concepção de humanidade (valores, princípios etc.).

Para a adaptação, o diretor John Hillcoat escolheu cenários “devastados” dos EUA (regiões vulcânicas, desérticas etc.), chamou o espanhol Javier Aguirresarobe para conceber a fotografia carregada dos tons cinza sugeridos na narrativa de McCarthy, e encomendou trilha sonora do sombrio Nick Cave, para quem dirigiu vários vídeos. São elementos que, alinhavados no roteiro de John Penhall (experiente em adaptações de livros como “Amor para sempre”, de Ian McEwan), não se sobrepõem aos temas propostos por McCarthy, pelo contrário, sublinham.

Os diálogos quase sussurrados, imagens que colam na retina como quedas sucessivas de árvores mortas e a frustrante visão de uma praia devastada, quando deveria representar uma “”saída””, tudo isso ressalta a relação entre pai e filho, como sugerida literalmente pelo autor: um representa o mundo do outro. E nessa relação, não importa tanto se a realidade inspira esperança. Ela deve, antes de tudo, impulsionar o desejo de permanência.

Entre as três mais famosas adaptações da obra de Cormac McCarthy, “A estrada” merece um bom segundo lugar, em termos de seu resultado na tela. Supera de longe “Espírito selvagem” (2000), de Billy Bob Thornton, mas não bate “Onde os fracos não têm vez” (2007), da dupla Joen e Ethan Coen, produção que levou quatro Oscars. O longa foi indicado ao Leão de Ouro em Veneza e rendeu uma indicação ao Bafta de melhor fotografia. A Academia teve preguiça.  

Veja abaixo um trailer legendado do filme:

 

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