Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.06.2010 24.06.2010

Adalgisa Nery, a musa de várias faces

Por Ramon Mello

“Adalgisa e Adaljosa,/ Parti-me para vosso amor/Que tem tantas direções/ E em nenhuma se define/ Mas em todas se resume./ Saberei multiplicar-me/ E em cada praia tereis/ Dois, três, quatro, sete corpos/ De Adalgisa, a lisa, fria/ E quente e áspera Adalgisa,/ Numerosa qual Amor.” 

Nestesversos do poema “Desdobramento de Adalgisa”, publicado em Brejo das almas (1934), Carlos Drummond de Andrade cantou asfaces de Adalgisa Nery, poeta, jornalista e política, morta há 30 anos, em 7 dejunho de 1980. Atuando em áreastradicionalmente masculinas, Adalgisa colecionou amores e, também, algunsdesafetos, mas conquistou reconhecimento e espaço na intelectualidadebrasileira. No fim da vida, Adalgisa escolheu a solidão, recolhendo-se numasilo em Jacarepaguá. 

AdalgisaNery estreou na literatura após a morte do pintor modernista Ismael Nery (1900- 1934), seu primeiro marido. Viúva, casou-se com o chefe do Departamento deImprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas, Lourival Fontes, desempenhandoum papel crucial nas relações entre o Estado Novo e os intelectuais. Em 1954,após o suicídio do presidente, já separada de Lourival, Adalgisa estreou nojornalismo, fazendo carreira no jornal de Samuel Wainer,Última hora, ao assinar a lendáriacoluna “Retrato sem retoque”, espaço em que abordava, diariamente, com tomnacionalista, assuntos de política e economia, atacando os desafetos políticos.

Tendo aelegância como marca, andando sempre com cabelos e unhas impecáveis, Adalgisaatuou no campo intelectual, transgredindo na prática o papel da mulher, desdeos anos 1930. A poeta deixou um legado para as mulheres que hoje ocupam lugarde destaque, principalmente no campo jornalístico. 

“Elaescrevia com muita personalidade e voz própria. O exercício do jornalismodiário com textos políticos foi o que elegeu a deputada Adalgisa Nery, umamulher sedutora e, ao mesmo, tempo muito dura”, afirma a escritora e jornalistaAnaArruda Callado, autora da biografia Adalgisa Nery, muito amada e muito só (Perfis do Rio, 1999), oúnico livro sobre a trajetória da poeta, que está esgotado. 

Em1960, sua carreira jornalística a projetou na política. Cercada de inimizades,como o então governador Carlos Lacerda, e herdeira política de Getúlio Vargas,Adalgisa foi deputada, pelo PTB, ao longo de três mandados, até ser cassada em1969 pelo regime militar – o que a motivou a abandonar tudo: família, amigos eliteratura.

Contemporâneadas escritoras Dinah Silveira de Queiroz e Eneidade Moraes, Adalgisa Nery foi uma mulher de personalidade forte,contraditória, que buscou inspiração em outras mulheres modernas, como aescritora feminista francesa George Sand – de quem traduziu, doinglês, a biografia. Ela também estabeleceu uma relação de amizade com FridaKahlo, que lhe dedicou uma página de seu diário. A Casa de Rui Barbosa guardacartas trocadas com o pintor Diego Rivera, marido de Frida, porquem Adalgisa foi retratada na época em que foi embaixatriz no México. 

A poetatambém foi musa de Cândido Portinari, que ilustroumuitos de seus livros. Em depoimento para a biografia escrita por Ana Arruda, aviúva do pintor, Maria Portinari, relembrou o fascínio que Adalgisa causava noshomens: “Minha filha, que impressão ela causava nos homens! E no meu maridotambém.”

Amulher bonita e sedutora, muitas vezes excêntrica, com seus chapéus enormes,causava antipatia em alguns. É o que diz Raquel de Queiroz,ainda na biografia escrita por Ana Arruda Callado: “Ela não era simpática, nemeducada. Mas era bonita. Muito bonita… Embora se achasse mais bonita do queera. Era pobre e ambiciosa […] Eu não a considerava elegante; eraextravagante nas roupas. […] Ela queria ser a deusa: a deusa da poesia, adeusa da beleza…”

Autora de inúmeros livros de poesia, cujos títulos estão reunidos no volume Mundos oscilantes (1962), Adalgisatambém se traduziu na prosa.  Todas aspublicações foram bem recebidas pela crítica da época. No entanto, os títulosestão fora de catálogo e sem previsão para reedições. Com sorte, garimpandomuito, encontra-se alguns exemplares em sebos. O esquecimento desagrada seusadmiradores, como o poeta Armando Freitas Filho.

“Adalgisa era formidável, foi uma das nossas primeiras protagonistasintelectuais. Podemos dizer que ela antecedeu Cecília Meireles,em termos de representação pública. A interpretação que faço é que ela ficoumarcada por uma ambiguidade. Sua produção em prosa teve uma recepção críticamais forte do que a poética. Além do romance A imaginária, lembro do livro de poemas Ar do deserto, publicado em 1943. Sua poesia me parecia que tinhaum eco com a de Augusto Frederico Schmidt. É fundamental que seus livros voltema circular para que os leitores conheçam sua produção intelectual”, dizArmando.

A reedição da obra da poeta também é defendida por Eduardo Coelho, Chefe do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira daFundação Casa de Rui Barbosa, que guarda grande parte do acervo de Adalgisa(como correspondência com Drummond, Veríssimo, Jorge Amado, Manuel Bandeira,Rachel de Queiroz, entre outros documentos). 

“A poesiadela é marcada por um tom grandiloquente, fervoroso. Seus versostratam do cotidiano do homem comum e também da força do cosmo. Há ummovimento paradoxal em sua poesia, intenso, que une o natural ao sobrenatural,a preocupação social ao erotismo. Trata-se de uma obra irregular, sem qualquerdúvida, mas com excelentes poemas. Uma obra que deve ser republicada e sofreruma reavaliação crítica sobretudo em relação ao contexto da literaturabrasileira daquele período, com Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendese Vinicius de Moraes, que podem revelar alguma aproximação com a poética deAdalgisa Nery”, afirma Coelho. 

Noromance mais conhecido de Adalgisa, Aimaginária, a personagem Berenice narra o drama psicológico em suaspassagens de vida: a família pobre; o curso primário iniciado num colégio defreiras e concluído numa escola de Botafogo; os conflitos de infância eadolescência; o casamento sem consentimento da família; a convivência tristecom a família do primeiro marido; e a morte do cônjuge, aos 33 anos, vítima detuberculose.

“Até que ponto esta Berenice apaixonada e mais tarde aterrorizada, heroína doromance que foi o maior sucesso editorial da autora, é Adalgisa Nery?”,pergunta o jornalista Paulo Silveira, amigo de Adalgisa, em depoimento ao Museuda Imagem e do Som gravado em 26 de julho de 1967, questão replicada em Adalgisa Nery, muito amada e muito só,onde se lê a resposta da própria escritora: “Ali tem muita coisa deminha biografia, tem muita coisa reforçada com minha imaginação.”        

Mesmo com o passar dos anos, Adalgisa Nery, continua apaixonante, seduzindopela biografia e pela imaginação, pela personalidade e pelas palavras.

[Publicado originalmente no Prosa & Verso, O Globo, em 19/06/10]

 

Trecho do romance autobiográfico A imaginária, publicado em 1957, o sétimo livro de Adalgisa Nery

Um dia, como um dia para todaadolescente, eu senti que amava um homem. Conheci então uma nova paisagem daminha alma. Descobri nesse sentimento um senso de beleza capaz de afugentartodas as sombras acumuladas dentro do meu ser. Pela primeira vez, tive asensação exata de força e liberdade. Lembro-me que, imantada por ele, eu meintegrei totalmente em todas as partículas da vida e da natureza. Subindo os degrausde uma escada de pedra, reparei nas formigas que cruzavam e, com cuidadoespecial, procurei não esmagá-las com os meus pés. Fitei com uma ternuracuidadosa as plantas, as flores, as andorinhas, que traçavam espaço e a poeirade orvalho caída sobre as folhagens. Aprendi as cores nas luzes das manhãs enas tonalidades do anoitecer. Eu estava no processo da metamorfose. Em tudo euencontrava uma duplicidade de sentido. Estava sob a função de reminiscênciaseternas que atuavam como ligação do divino que surge no humano e com o divinoque se entende no universo.  Havia umabandono alegre no meu ser acompanhando a causa misteriosa. E, de repente, mesenti identificada com a vida. Tive a impressão de que uma grande chuva caírasobre o mundo, e agora se apresentava lavado, fresco, radiante. Creio que osmeus gestos se tornaram harmoniosos, a minha voz era o eco da música das águascantantes e a minha memória só se recordava das formas perfeitas, para essanova construção. Foi uma fase de grandeza aguda e espetacular da minha alma. Detudo emanava doçura e leveza compensadoras.

[…]

Não creio que haja nenhum períodofeliz na nossa vida. Às vezes há uma fase de inconsciência da infelicidade.Nesse espaço de tempo, julgamos estar vivendo uma época feliz. Em realidade, odescontentamento não veio à tona. Estava em gestação no acontecimento. Sónotamos quando a ocorrência vem à superfície dos nossos cinco sentidos. Porémele nunca deixou de existir. É a esse hiato entre a ignorância e o conhecimentodo desagradável que denominamos puerilmente de “época feliz”. O próprio amorque é a mais verdadeira proximidade da felicidade, não desligado jamais de umgrande subterrâneo sofrimento. Sobre as horas ardentes de uma plena satisfaçãoamorosa, estão o desgosto e o sofrimento vigiando o primeiro cansaço e oprimeiro tédio para flutuarem num tempo mais largo, com maior duração e fundasconseqüências do que o momento nos trouxe a sensação do eterno. A minhanatureza não é de mulher pessimista. Sou um ser anaglífico vivendo uma sincerafusão de duas imagens de perspectivas semelhantes. Há uma intensidade de forçasem profundidade e em extensão girando em meu redor como o ectoplasma. Daísentir-me constantemente no limbo. Essa explicação tem como finalidade desviarqualquer julgamento precipitado para classificar-me de pessimista. Apesar deter sido desde menina violentada pela vida, os meus olhos não perderam a noçãodos coloridos e dos contornos e a minha alma não esqueceu a música e aharmonia.

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