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“Achei que fosse pegadinha”, diz Cris Peter, a primeira brasileira indicada a um prêmio Eisner

Por Andréia Silva
O prêmio Will Eisner, o mais importante da indústria dos quadrinhos internacional, anda generoso com os brasileiros.
 
Todos os anos eles são destaque na premiação e, em 2011, levaram todas as categorias em que foram indicados: melhor série nova, melhor minissérie e melhor colorização.
 
Se este ano repetirmos a dose na última categoria, o fato será inédito: a aposta desta vez é a gaúcha Cris Peter, 29, a primeira brasileira a ser indicada ao prêmio em toda a sua história.

Cris foi indicada por seu trabalho de colorização nas publicações Casanova: Avaritia e Casanova: Gula, de Matt Fraction, com desenhos de Gabriel Bá e Fábio Moon, a dupla de brasileiros que saiu consagrada da mesma premiação no ano passado com a graphic novel Daytripper.

O que começou como um trabalho despretensioso, ainda na adolescência, hoje já virou uma carreira bem-sucedida, reconhecida por grandes editoras americanas de quadrinhos, como a Marvel e a DC Comics.

“Comecei a colorir muito cedo, com uns 17 anos. Eu sempre gostei de colorir, e quando aprendi a mexer no Photoshop foi muito divertido colorir meus próprios desenhos. Alguns amigos meus tinham uma empresa que prestava serviços de ilustração, e com o aumento da demanda de trabalho, começaram a me oferecer uns bicos de colorização, mas não levava aquilo a sério como uma carreira”, conta ela.

Em 2005, por meio de uma editora árabe para a qual ela trabalhava, foi pela primeira vez à San Diego Comic Con, a maior feira de cultura pop do mundo, onde os quadrinhos têm lugar especial. Ela conta que lá teve “uma visão real do que era o mercado de quadrinhos nos Estados Unidos”.

“Depois que voltei (já estava na faculdade na época), comparar o mercado de publicidade com o de quadrinhos foi inevitável, e depois de uma tentativa de estágio em uma empresa de design gráfico, eu fiz minha escolha: seria colorista de quadrinhos”.

Os concorrentes de Cris este ano são Laura Allred (por iZombie, da Vertigo/DC; Madman All-New Giant-Size Super-Ginchy Special, da Image); Bill Crabtree (por The Sixth Gun, da Oni); Ian Herring e Ramón K. Pérez (por Jim Henson’s Tale of Sand, da Archaia); e Victor Kalvachev (por Blue Estate, da Image).
 
A votação do prêmio é online no site eisnervote.com, mas só convidados votam. O resultado sai no dia 13 de julho, durante a San Diego Comic Con.
 

Abaixo, confira a entrevista que Cris concedeu ao SaraivaConteúdo falando um pouco mais da carreira e da sensação de “pegadinha “ que teve ao receber a notícia da indicação, um dia depois do 1º de abril.

 
Cris Peter
Como você reagiu ao ver seu nome na lista de indicados?
 
Cris Peter. O Matt Fraction havia nos comunicado da indicação no dia 2 de abril, e eu fiquei histérica. Mas como 1º de abril tinha sido no dia anterior, eu ainda estava desconfiada, pensando que fosse pegadinha ou que ele poderia ter se enganado ou coisa assim. Ver a lista no dia 4 foi uma confirmação! Fiquei muito feliz, e a melhor parte foi gritar aos quatro ventos que eu havia sido indicada! (risos)

Quem procurou você para o trabalho em Casanova? Foi seu primeiro trabalho com os gêmeos e o Matt?

Cris Peter. Foi o Gabriel Bá que me ligou e fez o convite. Eles (os gêmeos) estavam procurando um colorista brasileiro, com quem poderiam trocar ideias mais claras (e em bom português) sobre o que eles queriam do título. Se não me engano, foi o Rod Reis (colorista e ilustrador) que indicou o meu nome para eles, mas nós já nos conhecíamos das convenções. Sempre batíamos papo, mas nunca tive a oportunidade de mostrar meu trabalho a eles até que o convite foi feito.
 
Páginas de Casanova Avaritia, colorida por Cris Peter com arte de Gabriel Bá

 

Você escreveu que nunca foi muito fã de quadrinhos. Quando isso começou a mudar? Alguma história ou personagem fez você olhar para as HQs com outros olhos?
Cris Peter. Eu nunca fui muito próxima dos quadrinhos, até que comecei a ver animes (desenhos japoneses). Na minha época, eles não eram tão populares como hoje. Encontrar mangás era uma missão impossível, especialmente pra quem mora em Porto Alegre. Acho que meu primeiro mangá foi uma edição do Yu Yu Hakusho, era em japonês, eu não fazia ideia do assunto da história, mas comprei igual (risos).

Como autoras, as mulheres são minoria no universo das HQs. Mas e como coloristas, há muitas trabalhando nessa área?

Cris Peter. Mesmo no ramo de colorização as mulheres são uma minoria, e não é porque o mercado é machista ou coisa assim. Acho que, simplesmente, não são muitas as mulheres que percebem que seguir o ramo de quadrinhos é uma possibilidade. Existem coloristas mulheres fantásticas! Minhas favoritas são a Laura Martin e a Trish Mulvihill, o trabalho delas é fantástico. Até o trabalho da minha companheira de indicação, Laura Allred, com o seu estilo clássico, é lindo demais.

O que você considera fundamental para quem trabalha com as cores nas HQs?

Cris Peter. Saber combinar as cores e comunicar através delas. Muitos acham que basta saber usar o Photoshop, e essa é a parte mais fácil do processo. O mais complicado, além de saber aplicar luz e sombra, é comunicar usando as cores e fazer isso combinando elas entre si. Cor é algo tão elementar que as pessoas pararam de prestar atenção na sua utilização. As cores comunicam e dão sentimento, e é importante saber utilizar isso. E esse conhecimento não é essencial somente na colorização de histórias em quadrinhos. Quem gostaria de comprar um amaciante em uma embalagem vermelho-sangue? Quem confiaria no serviço de uma lavanderia com o logo em marrom? Quem sentiria medo de um filme de terror que utiliza cores vibrantes e alegres?

Fora as HQs, você trabalha com outros tipos de publicação?

Cris Peter. Ainda não. Estou negociando a publicação de alguns livros. Gosto muito de escrever. Tenho minha coluna no portal Rio Comic Con e quero muito publicar meus conhecimentos um dia.

Você já arriscou criar alguma história sua, desenhar personagens? Ou você gosta mesmo de colorir as histórias dos outros?

Cris Peter. Desenhar definitivamente não é comigo. Eu ainda rabisco, mas seria um sacrifício desenhar quadrinhos. Não tenho paciência pra isso. Mas gosto de escrever e inventar histórias. Já tentei publicar uns contos na internet, mas o trabalho de colorização sempre acaba atrapalhando a minha dedicação. Meu futuro, com certeza, inclui a publicação de projetos próprios, sejam livros, quadrinhos ou filmes. Gosto muito de colorir quadrinhos, mas com toda a certeza não quero parar por aqui.
No que você está trabalhando agora?
Cris Peter. Estamos fechando a última edição do terceiro arco do Casanova e rumo ao quarto arco! Também estou fazendo umas participações em alguns títulos da DarkHorse e comecei a colorir uma série para a Marvel cujo o título é bem familiar para o pessoal. Infelizmente não posso divulgar os nomes ainda. Segredinhos.
 
 
 
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