Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 08.11.2013 08.11.2013

A visão apocalíptica de Enki Bilal ganha edições de luxo no Brasil

Por Marcelo Rafael
Muitos já ouviram falar de Asterix, de O Pequeno Nicolau, da revista Heavy Metal e do filme O Nome da Rosa. Todos eles têm um nome em comum: Enki Bilal. O artista servo-francês está ligado, de uma maneira ou de outra, a essas grandes obras da cultura europeia. Há pouco mais de um ano, a Nemo vem republicando seus trabalhos ou lançando títulos inéditos no Brasil em edições de luxo.
Wellington Srbek, quadrinista e editor da Nemo, do grupo Autêntica, afirma que Bilal é um dos quadrinistas europeus mais conhecidos no Brasil, particularmente pelos que gostam de ficção científica. “Suas obras têm uma qualidade artística e uma importância enquanto clássicos dos quadrinhos internacionais”, afirma.
Nascido Enes Bilal, em 7 de outubro de 1951, em Belgrado (antiga Iugoslávia), seis anos após o fim da II Guerra Mundial, Enki (diminutivo de “Enes”, em sérvio) teve sua vida marcada pela ditadura e pelas guerras. Seu pai foi alfaiate do marechal Tito, ex-ditador da Iugoslávia. Em função desse contexto, a tensão de um estado opressor e a possibilidade de um futuro sombrio estão presentes em sua obra.
Ainda criança, ele se mudou para Paris (França), onde acabou radicando-se e adotando a cidadania francesa. Foi lá que iniciou sua carreira artística. Já na adolescência, chegou a conhecer René Goscinny, criador de grandes personagens como Asterix, Lucky Luke e O Pequeno Nicolau.
Incentivado a desenhar, enviou seus rabiscos para a revista onde ícones do quadrinho francês eram publicados, a Pilote, mas foi recusado logo de cara.
Três órfãos dos bombardeios a Sarajevo, em 1993, tentam reconstruir suas vidas no século 21
No entanto, em 1971, foi aceito e começou a colaborar com o periódico, desenhando políticos da época. Em 1972, publicou sua primeira história, A Taça Maldita, pela Pilote. Foi o início de uma prolífica carreira que se espalhou dos quadrinhos para o cinema e proporcionou vários prêmios, entre eles o Grand Prix de la Ville d’Angoulême, do Festival de Quadrinhos de Angoulême, em 1987.
Nos anos 1980, o caráter pesado de sua narrativa e suas pinceladas sombrias identificavam-no com o cyberpunk apocalíptico surgido na época. Vitrine desse estilo e bastião da fantasia e da ficção científica, a revista francesa Métal Hurlant (mais conhecida no Brasil por seu nome em inglês Heavy Metal) passou a contar com a colaboração de Bilal no fim dos anos 1970.
Exterminador 17 foi lançado pela primeira vez em 1977, pela Métal Hurlant. Foi publicado também no Brasil, em 1992, pela Editora Globo. Nesta época, Heitor Pitombo, jornalista especializado em quadrinhos, teve contato com sua obra.
Foi durante a I Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro, em novembro de 1991, em que não somente Bilal, mas também outro mestre da fantasia e do sci-fi, Moebius, viriam ao país.
“Acabou que Bilal não veio, mas [foi realizada] uma enorme exposição dele. Inclusive com uma estátua gigantesca do Hórus (antigo deus da religião egípcia). Era um negócio bem acachapante. Era uma exposição de quadrinhos dele com uma cenografia muito bacana.”
Hórus e outros deuses egípcios estão presentes na primeira história de A Trilogia Nikopol, intitulada A Feira dos Imortais. O exílio e os problemas de seu antigo lar, a Iugoslávia, ficam evidentes quando, por exemplo, os deuses barganham, no século 21, com ditadores fascistas.
Astronautas e deuses egípcios se misturam em A Trilogia Nikopol
“Acho a Trilogia Nikopol o trabalho mais denso dele. Acredito que a Mulher Armadilha e Os Imortais são álbuns mais densos no sentido de que ele trabalhou o roteiro com mais cuidado”, avalia Pitombo.
Nos anos 1990, veio a Guerra dos Bálcãs, que retalhou a antiga Iugoslávia e provocou genocídios na região. A falta de rumo e o caos marcaram a Tetralogia Monstro, em que os personagens Nike, Leyla e Almir, sobreviventes dos bombardeios a Sarajevo nos anos 1990, tentam, em 2026, reencontrar suas própria identidades como pessoas. Essa obra, inédita no Brasil, foi publicada em setembro pela Nemo.
Assim como a Trilogia Nikopol, a Tetralogia levou tempo para ser concluída. “Bilal trabalha de uma forma muito lenta, não é um cara que lança álbum todo ano”, pondera o jornalista especializado em quadrinhos.
Entre a Feira dos Imortais (1980) e Frio Equador (1993), primeira e última histórias da Trilogia, foram 13 anos. Entre O Sono do Monstro (1998) e Quatro? (2007), início e fim da Tetralogia, foram mais nove anos.
Mas, no meio de tudo isso, ele não ficava parado e tocava sua carreira também no cinema. Entre seus trabalhos, estão três filmes (Bunker Palace Hôtel, Tykho MoonSegredos da Eternidade e Immortel, uma livre desconstrução da Triologia Nikopol).
Sua colaboração mais famosa, porém, sequer foi creditada: a pesquisa gráfica para a adaptação cinematográfica do romance best-seller O Nome da Rosa, do italiano Umberto Eco.
Desenho de Bilal para uma das cenas do filme O Nome da Rosa
Os traços frios, os tons pastéis, a complexidade do mundo e o pesar da vida, marcantes na obra do artista, espalham-se por seus trabalhos, apesar de uma pequena dose de humor. “É uma obra que espelha um lado meio negro da humanidade. Uma ideia de futuro meio pessimista”, comenta Pitombo sobre Bilal.
Srbek concorda: “Creio que as origens dele na ex-Iugoslávia, sob a ditadura comunista, contribuíram para o tom sombrio e o clima aparentemente pessimista de suas obras”.
Mas acrescenta: “O interessante é que, tendo como contraponto esse pano de fundo desesperançoso, vemos nas HQs de Enki Bilal personagens que lutam por liberdade e que vivem histórias de amor. Ou seja, encontramos indivíduos que se destacam do cenário cinzento e apocalíptico, para nos mostrar que a esperança pode ser um poderoso motor, mesmo nas situações mais adversas”.
Booktrailer de A Trilogia Nikopol:

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