Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.02.2011 17.02.2011

A vida imortal de Henrietta Lacks

Por Daniel Louzada

O livro que a Companhia das Letras lançará em março bem poderia pertencer àficção ou, talvez, a um subgênero próximo, a ficção científica. A vida imortal de Henrietta Lacks,da jornalista Rebecca Skloot, no entanto, é a história real de uma pessoa comotantas que viveram no século XX; a história extraordinária de uma mulhercomum. 

1951. Henrietta Lacks, uma norte-americana negra e pobre, vai aohospital Johns Hopkins na cidade de Baltimore, estado de Maryland, alegandosentir um “caroço” no útero, algo de que reclama há mais de um ano comparentes. Examinada pelo ginecologista, comprova ter um tumor cervical. Lackscomparece ao Hopkins várias vezes naquele ano para submeter-se à radioterapia.O diagnóstico não é preciso, o que influi no tratamento recebido. Objetode contínua negligência, em junho, apesar de seus sintomas, os médicos afirmamque ela está bem. Isso um mês antes de, no mesmo hospital, informarem quenão há mais nada a fazer. Em 4 de outubro de 1951, Henrietta Lacks,invadida pelo câncer, morre. Aos 31 anos, deixa cinco filhos.

2011. Linhagem celular mais utilizada para pesquisa no mundo, seenfileiradas, as HeLa dão algo como três voltas em torno da Terra. A partirdelas, boa parte das descobertas e experimentos científicos pôde ser realizada.A lista é longa. Incluam-se aí coisas tão diferentes quanto a vacina contra apoliomielite, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro, desenvolvimento deremédios, testes de produtos e impacto da gravidade no homem.

Primeiras células “imortais”, as HeLa caracterizam-se pela capacidade desobrevivência e expansão ilimitada. Após décadas de tentativas em laboratório,uma vez colocadas num meio de cultura duplicam-se em 24 horas. HeLa foi o nomedado às células cancerígenas extraídas de Henrietta Lacks, sem seu conhecimentoou de seus familiares, naqueles dias no hospital Johns Hopkins. Publicamenteignorada, a história que Skloot conta era desconhecida mesmo nos meios acadêmicos. Afinal, quem foi a mulher por trás das células? Em quecontexto social tudo isso aconteceu? Quais as relações entre ciência esociedade no período?

O panorama revelado é surpreendente. Embora se trate de assuntocientífico, com o consequente uso de terminologia médica, o que dá o tom daobra é uma espécie de biografia de Henrietta Lacks e de seus filhos, sobretudo.Isso configura o cenário das relações raciais nos Estados Unidos. Os Lacksforam mais uma das famílias negras descendentes de escravos que cultivaramtabaco nos campos do estado da Virgínia. Pressionados pelas dificuldadeseconômicas, aos poucos quase todos se mudaram para centros industriais,inclusive Henrietta na década de 1940. A trajetória dos Lacks foi similara das outras famílias negras e pobres da época: aperto financeiro, muitosfilhos e ocasional envolvimento de alguns membros com o crime.

Retirar a névoa da história das células HeLa foi também ir a fundo narelação com a família Lacks e a escritora revela o processo de construção dolivro nessa perspectiva. Muitas vezes conflituosa, a interação com os filhos deHenrietta ganha relevo. Eles sempre se sentiram ludibriados pelos brancos, semdireito a conhecer o que aconteceu com as células da mãe e por isso foramrefratários à  aproximação de Skloot. Somente em 1973 os filhos ouviram ahistória das células pela primeira vez e até mais ou menos esta data oscientistas envolvidos na extração do tecido de Henrietta  Lacks atribuíramo nome HeLa a uma fictícia Helen Lane. A contradição entre a importância da mãepara a ciência e o fato de nenhum deles ter sequer um seguro-saúdecorroborava a sensação de injustiça que perseguia os negros norte-americanos.

A autora relata, neste sentido, episódios sobre a utilização de pobres enegros de enfermarias públicas, presídios e entidades psiquiátricas comocobaias de experiências científicas e procedimentos médicos nãoautorizados que expunham a infecções e à morte. Lembre-se que no séculopassado ainda havia forte segregação legalizada em vários estados do país.

Utilizar o que seria parte do corpo de um indivíduo sem seuconsentimento para conduzir experimentos e, eventualmente, lucrar, é oprincipal tema do livro. Objeto de disputa jurídica nos Estados Unidos e com umcrescente movimento de ativistas pelo direito dos pacientes à informação,o fato é que tecidos humanos já produziram bilhões de dólares e que os lucrosresultantes foram apropriados, mas não por seus doadores, voluntários ou não. Sentenças judiciaiscontrárias aos pacientes basearam-se na justificativa de que a prevalência da decisão individual criaria entraves à pesquisa científica,ao incentivo econômico para fazê-la que naturalmente existe sob ocapitalismo. Argumento questionável, já que o enfoque puramente mercantiltambém pode inibir o avanço da ciência.

O caso das patentes de genes ilustra bem o imbróglio: não se trata de bloquear o acesso a uma invenção,mas a um gene único que, por exemplo, provoca determinado tipo de câncer.Quem controla a propriedade desse gene controla todas as pesquisas, testes enovas terapias para o câncer a que ele se vincula. Ou seja, a distânciaentre viver e morrer resume-se a pagar o preço certo.

A vida imortal de Henrietta Lacks saiu em 2010 nos Estados Unidos. Agoraem português, sua leitura será uma grande oportunidade para o públicobrasileiro refletir sobre as implicações do debate científico contemporâneo. Aepígrafe escolhida por Rebecca Skloot, do escritor romeno de origem judaicaElie Wiesel, traduz o espírito da coisa: “Nenhuma pessoa deve ser encaradacomo uma abstração. Antes, é preciso enxergar em cada pessoa um universocom seus próprios segredos, com seus próprios tesouros, com suas própriasfontes de angústia e com certa dose de triunfo”.

Recomendamos para você