Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.10.2010 21.10.2010

A vida dos livros

 

A editora Thereza Christina Rocque da Motta publica em livro suas crônicas sobre o ofício de editar livros.

A vida dos livros (Ibis Libris, 2010) Dedicado a leitores, autores e editores, além dos que poderão aproveitar os conselhos, relatos e experiências editoriais narrados no livro, os textos apareceram primeiro em seu blog, Ibis Libris Book Log, onde a autora passou a registrar o dia-a-dia da editora, com todas as suas idas e vindas, publicando igualmente os comentários dos amigos e incentivadores. Leia duas das crôncias de  Thereza.



Livro é um ser vivo

Estava eu posta emsossego sábado à noite, quando me liga Pedro Lago, desesperado:
– Já mandou o arquivo do livro para a gráfica?
Eu respondi:
– Sim, claro.
– Ih, encontrei outro erro.
– Onde?
– Na citação de Balzac. Tem um R a mais numa palavra e nós não vimos…
– Esse é um erro fácil de passar, depois de tantos que já pegamos…

O livro passou por três provas de gráfica, fora as duas antes de mandarmos osarquivos para impressão. Mas não adianta: quantos mais erros houver nooriginal, mais tempo levaremos para pegar todos, isto é, se quisermos pegartodos. Pois o olho não funciona como instrumento de precisão. O olho é vago.Ele vê o que quer e o que ele não quer ver, descarta. Oblitera. Sublima.
Assim, toda revisão tem de ser feita de modo regular, periódico, sistemático e,se possível, por quem nunca tenha visto o texto antes.

– Como você encontrou o erro?
– Pedi a meu amigo para ler a citação em voz alta e aí ele viu que estavaerrado.
Eu disse:
– Pois é, você acabou de experienciar o livro dizendo para você onde aindahavia um erro. De onde tirou a ideia de pedir para ler justamente a citação?
– Sei lá.
– É assim mesmo. O livro só consegue nos fazer enxergar os erros que passaramao acaso, não tem outro jeito, pois nossa leitura é sempre falha. A não ser quetenhamos todo o tempo do mundo. Mas queremos ver o livro pronto, por isso nãotemos paciência para revisar.
– Entendi…

Pedro acabara de viver na pele como isso acontece. Pode ser que algum outroerrinho ainda tenha escapado. Nas sucessivas leituras que fizemos, eu e ele,sempre encontrávamos algo a mais que não tínhamos visto antes. E este(negligenciado por justamente estar logo na frente, e isso é comum) não poderiapassar. Desse modo, de forma sutil, o livro indicou onde estava o erro,pedindo: “”Leia-me.””

Liguei imediatamente para Elô, a dona da gráfica, em Blumenau, no celular, eperguntei se o miolo já havia sido impresso. Por sorte, ela me disse que não.Então, pedi que esperasse até eu mandar a página, na segunda-feira, trocando acitação onde o autor encontrara um erro na última hora. O livro foi salvo pelogongo. Se tivesse sido impresso, teríamos de mandar reimprimir aquele caderno.Isso pode acontecer, mas não foi necessário desta vez. Sorte nossa e sorte dolivro (como se ele não soubesse…)

Hoje topei com uma citação de Anaïs Nin: “”Lemos aquilo que precisamos. Háquase uma força obscura que nos guia para determinado livro””.

Isso eu experimento toda vez que entro numa livraria. O livro me””chama””, seja lá onde ele estiver na prateleira. Realmente, é umaforça estranha que entra em ação, me chamando para o livro onde ele está,embaixo de um, ao lado de outro. Meu olhar busca o livro onde ele estiverescondido, e só pára no momento em que o encontra.

É uma mágica que se instala na atração irresistível de um livro chamando seuleitor: “”Leia-me””, da mesma forma que ele pede para ser corrigidoantes de ficar pronto. É um apelo, um grito, uma dor, como se dissesse:””Corrija-me, por favor””.

O antes e o depois de um livro ficar pronto cria uma energia elástica, umasintonia plástica entre aquele que faz o livro e quem o compra para ler. Existeuma tensão entre aquilo que foi escrito e quem precisa lê-lo. E todas as forçasentram em ação para que o objeto atinja seu destino e encontre seu leitor.

“”Lemos o que precisamos””. Nem mais, nem menos. Se não sabe o que ler,espere: o livro o encontrará.

O espírito dos livros

José Mindlin, imortale bibliófilo, falecido há duas semanas, deixou-nos um legado perene: perpetuaros livros, pois, para ele, “”os livros não desaparecerão jamais””. Jáoutro bibliófilo, semiólogo e escritor italiano, Umberto Eco, os 30.000 livrosde sua biblioteca são “”os que ainda irá ler, senão, por que osguardaria?””

Piadas à parte, a verdade é que os livros cumprem um destino insólito: depreservar tudo o que o homem imaginou. Sem eles, nada saberíamos sobre egípciose sumérios, babilônios e gregos, isso para citar os mais antigos, pois desde ainvenção da imprensa, popularizaram-se as publicações de tal forma quepraticamente todos podem realizar o sonho de publicar um livro.

Hoje, então, nem se fala. Gutenberg fez pelo livro o mesmo que Graham Bell pelacomunicação virtual: acelerou os processos de tal forma que não imaginamos maisviver sem eles. As gráficas hoje tentam acompanhar a produção sob demanda. Alémdo papel reciclado, temos o papel de garrafa pet, o papel de plástico, que nãodobra nem amassa. Quando pensamos nos primeiros livros impressos, temos asensação de estar diante de um milagre.

Outro aspecto me chama a atenção: a sina da perseguição. Livros já foramproibidos, queimados, banidos, indexados, destruídos e, claro, lidos àsescondidas. Há um temor e um assombro em relação a eles, seja pelo que trazemou pelo que nos revelam. Ler um livro ilumina.

Por tudo isso, todos que um dia colaboraram em relação aos livros, seja criandobibliotecas, contrabandeando-os, guardando-os em lugar seguro, salvando-os deum incêndio ou de uma enchente, são dignos de um prêmio. O exemplo de Midlindeve multiplicar-se, o de Eco, proliferar-se, todos deveríamos ter 30.000livros ainda por ler.

Meus pais sempre foram bibliófilos. Sempre tinham um livro sendo lido. Antes demorrer, papai estava lendo “”As Novelas Exemplares””, de Miguel deCervantes. Mindlin também dizia que ao encontrarmos um livro, nunca devemosnegligenciá-lo, ele pode não estar mais lá quando voltarmos para buscá-lo. É oencontro de uma vida.

Um dos depoimentos mais fantásticos que ouvi foi o de um contista, Mariel Reis,ao dizer que crescera numa casa sem luz, e que se refugiava na biblioteca dobairro durante o dia para poder ler. Ali podia encontrar todos os autores quequeria: aquele era o seu paraíso. Ele escreve como poucos autorescontemporâneos que conheço. É de tirar o fôlego. A literatura salvou-o.

Ainda menina, aos dez anos, li uma crônica de Cecília Meireles e foi a primeiravez que vi o que estava escrito: chamava-se “”A arte de ser feliz”” eela descrevia a pomba que pousava num globo de louça azul que, por vezes,ficava da mesma cor do céu e assim a pomba parecia estar pousada no ar…Estava fazendo uma leitura silenciosa durante a aula no quarto ano primário doChapeuzinho Vermelho, levantei a cabeça… e vi a pomba no ar!

O que um livro contém só faz sentido para quem o lê. Esse é o espírito dolivro, que vive em nós depois que o lemos, que continua falando conosco muitotempo depois de tê-lo perdido em alguma mudança ou de uma separação. Abiblioteca semovente que nos acompanha são os livros que guardamos, os quedamos de presente, os que perdemos, os que esquecemos e só reencontramos nossebos.

Ontem, na TV, um homem anunciava que alguém havia jogado na lata de lixo emNova York uma primeira edição de “”Alice no País das Maravilhas””,encadernado em couro vermelho, com bordas douradas, que valia quinze mildólares! Quem o encontrou, guardou-o num cofre. Esta edição só não vale mais doque a feita pelo próprio Lewis Carroll para presentear a Alice Liddell.

Além do sentido para quem o lê, há para quem ouve falar do livro – por quantotempo procuramos um livro que queremos ler? Às vezes, uma vida inteira. E aoencontrá-lo, novamente volto a Mindlin, é como se encontrássemos um velho amigoque perdemos de vista há muito tempo.

Esta missão, a de guardar, a de escrever, a de publicar, a de vender livros, éa das mais sagradas, pois livros são sagrados pelo que contêm. Uma grandelivraria brasileira começou com uma senhora que emprestava os livros que haviatrazido da Europa ao fugir da guerra. Outra começou com um rapaz que veiotrabalhar em uma que fecharia uma semana depois e para não deixá-la cerrar asportas, “”tocou o negócio””. Há muitas que já fecharam depois deviverem seu período áureo. Mas sempre voltam, em outro lugar.

O espírito dos livros sempre pairou sobre as águas. E criou, à sua imagem esemelhança, os livros que lemos.

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