Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 03.03.2011 03.03.2011

A solidão no olhar de Juan Rulfo


   Por Bruno Dorigatti
   Fotos de Juan Rulfo

O escritor Juan Rulfo é conhecido pelo único romance que lançou, Pedro Páramo, em 1955. Além deste, lançou em vida os contos de Chão em chamas, dois anos antes. Mesmo assim, com esta obra mínima o mexicano chamou a atenção de inúmeros escritores, que o colocam entre os grandes da literatura hispano-americana e mundial, um precursor do que viria a ser o realismo mágico. Entre eles, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez. Rulfo chegou a escrever roteiros para o cinema, em parceria com outros escritores e a partir de 1962 dirigiu o departamento de publicações do Instituto Nacional Indígena do México. Mas aos livros, não retornou. 

Outra faceta não tão conhecida do aclamado escritor é a de fotógrafo. Entre os anos 1940 e 1960, o mesmo em que suas histórias e seu romance foram gestados, Rulfo viajou pelo interior do México e registrou, entre outros assuntos, a paisagem, a arquitetura, a população nativa. Diferentemente da econômica escrita, Rulfo não teve a mesma preocupação com a concisão no que diz respeito a sua obra fotográfica, que reúne em torno de 6 mil negativos. Uma pequena, porém significativa, mostra destas imagens aparece em 100 fotografias, lançado recentemente pela Cosac Naify (com tradução de Denise Bottmann e Gênese de Andrade). 

Organizado por Andrew Dampsey, pesquisador inglês do trabalho fotográfico do mexicano, e Daniele de Luigi, historiador italiano da fotografia, o livro reúne, além das belas e impactantes imagens produzidas no México em pouco mais de 20 anos, textos de ambos sobre Rulfo e sua relação com a fotografia, além de um artigo de Víctor Jiménez e dois breves textos do próprio fotógrafo e escritor. Eles versam sobre duas grandes influências em seu trabalho visual, o mexicano Nacho López e o francês Henri Cartier-Bresson. Neles, reflete sobre como via o papel da fotografia. “Devemos confrontar a certeza sinistra ou luminosa que as imagens de Nacho López nos apresentam, uma vez que a missão do fotógrafo é entregar-nos objetivamente a verdade, cruel, bela ou inumana que seja, de uma sociedade que todos fatalmente construímos ao nosso redor”, escreveu Rulfo para o catálogo da exposição de López, em 1981. Sobre Cartier-Bresson, comentou a respeito do país que o francês encontrou e registrou em meados dos anos 1930: “É o México que suas imagens expressam: pobreza, apatia e desencanto, ao lado de uma profunda solidão. O paredão de fuzilamentos permanecia ali como muda testemunha do que haviam sido a violência e a repressão. Sentia-se a hostilidade no ambiente, enquanto o país, dominado por empresas estrangeiras, não parecia encontrar um caminho de libertação”. 

A definição de Rulfo para aquele México registrado por Bresson bem poderia ser também sobre seu trabalho de fotógrafo. Em suas fotos – aqui divididas em núcleos temáticos que incluem a arquitetura, a população nativa, a paisagem mexicana e retratos de escritores, artistas, amigos e familiares –, vemos as pirâmides e totens aztecas, igrejas impassíveis, construções imponentes que remetem há séculos passados, mas muitas delas destruídas, rachadas, abandonadas, imponentes e solitárias. Algumas, transformadas igualmente em paredões de fuzilamento, assim como as viu Bresson.  

Na cidade, adentramos em cortiços e suas choupanas, observamos do alto as imponentes torres da igreja a se destacar no mar de telhados e casas. No interior, acompanhamos os indígenas em feiras, carregando madeira, proseando na entrada das casas, costurando, buscando água, barbeando, tomando refrigerante, participando de assembléias, cavando a terra, tocando tuba. Nas paisagens, planos abertos do deserto mexicano, detalhes de muros, cactos, ciprestes, cachoeiras. Entre os amigos e escritores, Efrén Hernández e José Gorostiza, além da mulher Clara e da filha Claudia, ainda bebê. 

Não importa o tema, a região, o enquadramento, Rulfo consegue transmitir com suas imagens o mesmo vigor que alcançou com as poucas palavras que nos legou. Não estamos aqui a frente do escritor que fotografava. Suas fotos não complementam sua obra literária, mas compõe ao lado dela outra faceta vigorosa deste artista. Como intentam reafirmar os textos desta edição, Rulfo “escrevia” de maneira original e peculiar também através das imagens que fez. É possível imaginar quem seriam aquelas almas, castigadas pelo sol e pela história que pouco ou nunca jogou a seu favor. Onde ficariam e o que teria acontecido naqueles lugares inóspitos. E o que salta aos olhos, acima de tudo, é uma grande contemplação e uma completa solidão, seja de construções seculares, de crianças sentadas em frente a um prédio em ruínas, carros abandonados, aos pedaços, ou do próprio Rulfo fumando cachimbo, no único autorretrato do livro, a mirar de perfil o Nevado de Teluca logo abaixo, com o horizonte perfilado ao fundo. A vontade é de voltar aos contos e ao romance de Juan Rulfo, para aumentar o diálogo com aquele México que não existe mais, em busca não sabemos exatamente do quê, talvez de um cada vez mais raro silêncio. 

 

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