Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.01.2013 23.01.2013

A sedução e a lábia dos maiores picaretas da história

Por Maria Fernanda Moraes
 
A chamada “metaliteratura”, explorada exaustivamente por vários escritores na última década, já era artifício usado por Mario Prata desde os anos 90. Ele é o autor de James Lins, o Playboy Que Não Deu Certo,que narra, em primeira pessoa e em tempo real, os acontecimentos que se seguiram à prisão de James Lins,um suposto amigo de infância do escritor.
 
O curioso é que, além de antecipar uma ‘tendência literária’, Prata também resgata um hábito que já havia sido perdido há tempos. Isso porque a história de James Lins começou a ser publicada em 1994no jornal O Estado de S. Paulo, no estilo dos antigos folhetins do século 19.
 
Eram crônicas sobre um playboy condenado a 268 anos de prisão,com um enredo inusitado e cheio de humor. O próprio autor conta que as histórias ganharam repercussão acima do esperado. “Teve gente que escreveu carta protestando, dizendo que um jornal sério como o Estadão não podia sair publicando literatura de presidiário. Teve até uma mulher que escrevia como se fosse mãe do James”.
 
Ainda segundo Prata, o clima de simulação envolveu os leitores, e essa interatividade permitiu diversas guinadas na história de James Lins. “No começo, era para ser apenas um playboy mau-caráter. Mas ele foi ficando simpático aos leitores, que acabaram abrandando seu comportamento”, lembra o autor.
 
O livro James Lins, o Playboy Que Não Deu Certo
 
O protagonista da história – nascido como José Augusto Magalhães Esteves Soares (J.A.M.E.S.) na cidade de Lins, no interior de São Paulo (daí o nome James Lins) – teria sido amigo de infância de Mario Prata. O escritor é mineiro de Uberaba, mas foi criado em Lins, onde teria conhecido o protagonista desse livro.Depois de um julgamento que durou mais de 30 horas, o bon vivant é condenado à prisão, e esse fato torna-se o ponto de partida das crônicas.
 
OUTROS PICARETAS FAMOSOS
 
Ficção ou não, o fato é que há muitas histórias como essa, e as designações para esses personagens da vida real são inúmeras: picareta, embusteiro, vigarista, charlatão, trambiqueiro, trapaceiro, cambalacheiro, burlão.
 
E os ditos populares? Quem nunca escutou o famoso “conto do vigário”? De tão popular, a expressão passou a ser o nome dado tradicionalmente no Brasil para o crime de estelionato. Obviamente, a história surgiu a partir de um golpe de esperteza. Segundo o boca a boca, a origem seria uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século 18.
 
No Brasil, um caso de picaretagem que ficou famoso foi o do suposto herdeiro da companhia aérea Gol. A história é contada no livro Vips: Histórias Reais de um Mentiroso (Ed. Jaboticaba), que depois foi adaptado para os cinemas. Em 2001, Marcelo Nascimento da Rocha viajou até Recife,onde estava acontecendo um carnaval fora de época patrocinado pela Gol.
 
Chegando lá, se apresentou como Henrique Constantino, filho do dono da companhia aérea – e, aos 34 anos, mais jovem bilionário do Brasil, segundo a revista Forbes. E o golpe funcionou perfeitamente por quatro dias.A farra só terminou porque uma secretária da Gol percebeu que Marcelo não era quem ele dizia ser e chamou a polícia.Atualmente, ele cumpre pena num presídio no interior de São Paulo.
 
A história de Frank W. Abagnale também ficou famosa depois de ser contada no filme Prenda-me se For Capaz, adaptada para o cinema por Steven Spielberg em 2002 a partir do livro homônimo. O enredo parece mesmo surreal: um jovem de classe média que fingiu ser piloto de avião, médico, advogado e professor.
 
Frank começou a carreira aos 16 anos, quando passou mais de 3 mil dólares em cheques sem fundos do pai dele em postos de gasolina. Acabou sendo preso em 1970 e passou cinco anos na cadeia. Posteriormente, com a condição de ajudar o governo a prevenir fraudes com documentos, foi solto, e hoje tem uma empresa dedicada a esse ramo.
 
O filme Prenda-me se For Capaz
Já a aparente tranquilidade de uma dona de casa foi o álibi perfeito para a norte-americana Mary Butterworth, em 1716.Cansada da vida apertada que levava, a Sra. Butterworth resolveu tomar medidas drásticas e pouco ortodoxas: começou a fabricar libras esterlinas na cozinha.
 
Mas não demorou até queas autoridades britânicas chegassem até a falsificadora. Entretanto, não havia provas de que ela estava envolvida no esquema de falsificação. Ela não foi presa, mas achou melhor mudar de vida: abriu um serviço de bufê e continuou muito bem-sucedida.

Além de lábia, criatividade é fundamental para um bom pilantra. Imagine esta situação: o francêsChristophe Rocancourt costumava dizer que se chamava Christopher Rockefeller e que era um descendente francês do magnata norte-americano.

 
Ele também se apresentava como parente da atriz Sophia Loren, do estilista Oscar de la Renta e do cineasta Dino de Laurentiis.Seu principal golpe era convencer as pessoas a deixar um bom dinheiro com ele para ser investido em algum esquema que iria render muito.Em 2001, Rocancourt foi preso.

Entre todas essas histórias, uma das mais audaciosas é a do homem que vendeu a Torre Eiffel, em 1925. Ao ler no jornal que a prefeitura estava com dificuldades em manter a famosa torre de Paris, o austríaco Victor Lustig convocou empresários do ramo de ferro-velho para uma reunião.

 

A proposta foi simples: demolir as oito mil toneladas de metal e vender como sucata. Lustig não só conseguiu fechar negócio com um dos empresários como ainda fez com que ele pagasse uma propina para ser beneficiado nas negociações. O charlatão fugiu, e o empresário nem sequer deu queixa na polícia por conta do vexame.

 
 
 
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